“A Figura do Mês” – Armando Oliveira: “Mesmo quando estou de folga, venho sempre ao Clube”

O CNH é a segunda casa de “Catita”

Mestre “Catita”, como é tratado pelos Atletas mais novos, é uma figura emblemática do Clube Naval da Horta (CNH). De seu nome Armando Oliveira, ganhou a alcunha na escola, ao lado do “Migalhas”, que “era um gajo grande”. Ambos frequentavam a Escola do Pasteleiro (eram da mesma classe), que funcionava onde é hoje a “Sociedade dos Mortos” (“Sociedade Recreativa Pasteleirense”).

“Havia muita malta nesse tempo e éramos todos amigos”, recorda “Catita”, que se lembra de ter como professores o Sr. Fernando, o Sr. Lúcio e a D. Guida. Havia apenas um professor para as 4 classes (da 1ª à 4ª), que eram todas ministradas na mesma sala”.

Como desistiu do Liceu no 3º ano, foi trabalhar com o pai, que era pedreiro de profissão. Posteriormente, foi empregado do Sr. Raimundo, na Fábrica de Laranjadas, onde tinha como missão lavar as garrafas, que seriam novamente comercializadas com laranjada.

Nesta fábrica – que dispunha de serviço de lavandaria e moagem – também se fazia licores, além de amêndoas, confeitos, massas e vassouras.

Volvidos 4 anos, Armando voltou às obras, desta vez na construção dos apartamentos da antiga Estação Rádio Naval, na Horta. Daí, transitou para a Bensaúde, onde foi serralheiro mecânico.

O serviço militar foi cumprido ao longo de 16 meses, passados nos Arrifes (São Miguel), na Terceira e no Faial. Embora tenha feito novos amigos em todas estas ilhas, a Terceira foi onde gostou mais de estar.

Feita a tropa – que “foi boa para aprender muita coisa” – voltou à Bensaúde, tendo saído daí para a empresa de construção naval “Soconave”, onde manteve a mesma categoria profissional. Recorda a construção dos barcos “Monte do Pico” e “Monte da Guia”.

Este homem dos sete ofícios, haveria ainda de passar pelo “Costa & Martins” – onde fazia a distribuição de mercadoria – antes de ingressar no Clube Naval da Horta, instituição que serve há 30 anos sendo, por isso, o funcionário mais antigo da casa.

A Secretaria – memora – era no actual Centro de Formação de Desportistas Náuticos (CFDN) e o edifício que hoje alberga a sede do Clube já existia, mas não tinha sido entregue ao CNH.

armando oliveira 2 arquivo cnh

“O CNH tinha todo o equipamento necessário para os Cursos de Mergulho”

José Manuel Serpa, professor de Trabalhos Manuais, era o funcionário, mas em regime de part-time, e na Presidência encontrava-se Luís Carlos Decq Mota. Foi no mandato seguinte – liderado por Renato Azevedo, que tinha como Vice-Presidente José Carreiro – que a actual sede foi cedida ao Clube, no ano de 1989. “Nesse tempo, este edifício encontrava-se todo aberto, sem as actuais divisórias”.

Armando passou a ser o segundo funcionário do Clube, numa altura em que era preciso encher garrafas com o compressor para os Cursos de Mergulho, ministrados por Hermínio Freitas, que pertencia à Direcção. “O CNH dispunha de todo o equipamento necessário para estes Cursos e tínhamos de deixar sempre as garrafas cheias. Eu fazia este serviço até às 3/4 horas da manhã e por vezes até às 5/6”, sublinha “Catita”, que “muitas vezes” contava com a ajuda de António Manuel Freitas e de João Duarte, que “era pequeno, mas tinha grande vontade de colaborar”.

É com saudade que recorda o Sr. Vitório, que “durante muito tempo” explorou o restaurante do Clube, que funcionava numa parte do actual Centro de Formação de Desportistas Náuticos. “Como eu ficava muita vez a trabalhar até tarde, jantava ali, pois os funcionários – que eram muito poucos – não pagavam. O Sr. Vitório tinha um molho especial, que usava tanto em pratos de carne como de peixe, e dava um sabor muito bom!

Quem apanhava quilos e quilos de peixe porco era o Sr. Eduardo Santos, que depois o arranjava mesmo ali perto, e bastava o Sr. Vitório fazer-lhe um sinal, que lá vinha ele com uma pana cheia. Rapidamente o peixe era preparado – usando o tal molho maravilha – e servido aos clientes, que faziam fila, sobretudo no Verão, com os estrangeiros que por aí apareciam.

Fora do Centro de Formação tinham sido montados uns grelhadores grandes, e onde hoje se encontram aqueles bancos, havia uma esplanada, que estava sempre cheia de clientela.

A equipa era formada pelo Sr. Vitório – um italiano que ainda hoje reside no Faial – pela mulher, a D. Clare, que era a caixeira, e pela D. Ilda, a cozinheira. O Sr. António Ferreira (que pertenceu à Câmara do Comércio) estava sempre lá, com a D. Clare. Eram muito amigos, assim como o Sr. Fernando Fraga. A comida era boa e o ambiente ainda melhor. Foram tempos muitos bons, de que guardo gratas memórias”, acentua Armando, com uma pontinha de nostalgia.

Foram várias as pessoas que exploraram o antigo restaurante do Clube Naval da Horta, incluindo o sogro de “Catita”, ainda antes deste pertencer à casa, o que aconteceu no fim da década de 80.

No baú do passado, Armando Oliveira encontra passagens que decide partilhar com todos nós. “A primeira Semana do Mar foi feita ali, naquela pequena sede, e o Sr. Vitório entendeu convidar todos aqueles senhores finos – que costumavam frequentar o restaurante e mesmo outros – para um petisco. Mas a ementa era ‘top secret’. Veio muita gente e todos elogiaram o petisco, que estava mesmo bom. No fim, ele perguntou se tinham gostado dos bifes e a opinião geral era de que estava tudo 5 estrelas. O problema foi quando ele revelou que aquilo que eles tinham acabado de comer era carne de baleia! Uns fingiram ter ficado enjoados e outros encolheram-se, mas a verdade é que todos comeram e bem!”

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Dia da inauguração da lancha “Atlântida”, no ano de 1991

Os tempos eram outros, mas o Clube sempre se pautou por grande actividade. “Aquando da Regata Horta/Velas/Horta a gente é que ia a São Jorge montar as bóias de amarração. Seguíamos no “Raio Azul”, um barco de fibra que o Clube tinha”, narra “Catita”, afirmando que “os Optimist eram de madeira”.

“Em termos de embarcações para a prática desportiva, o Clube Naval da Horta tinha mais movimento do que agora, pois havia Yolles, Skiffs, Vauriens, L’Equipes, Lusitos, Snipes e Vougas. No que diz respeito aos Yolles e Skiffs, havia tanta gente interessada que faziam fila para andar neles.

Também tínhamos a lancha “Rinquim”, com motor de 2 cavalos, que mais tarde foi substituído por um motor “Mariner”, de 25 cavalos, a petróleo e gasolina”.

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“Aquando da Regata Horta/Velas/Horta a gente é que ia a São Jorge montar as bóias de amarração”

Ao longo destas 3 décadas, “Catita” conheceu e trabalhou com uma vasta lista de Presidentes. Renato Azevedo sucedeu a Luís Carlos Decq Mota. Seguiram-se Aurélio de Freitas Melo, Manuel Fernando Vargas, José Decq Mota, Carlos Goulart, Genuíno Madruga, João Garcia, Hugo Pacheco, Fernando Menezes e, desde 2012 até à actualidade, novamente José Decq Mota.

O nosso entrevistado diz que “uns foram bons e outros maus”, mas do rol daquele tempo, elege o Sr. Melo como “o melhor”. Foi no mandato deste Dirigente que se realizou o primeiro jantar de Natal no Clube e “havia um bom ambiente com os funcionários”.

Armando “adorava” os Atletas que frequentavam a casa. “Eram todos unidos e amigos”, sublinha, destacando o trabalho dos Responsáveis no terreno. “Os Directores trabalhavam ao nosso lado. Se fosse preciso vir às 5 da manhã, vinham. Recordo uma enchente que houve no tempo do Eng. Manuel Fernando Vargas, em que todos vieram ajudar e ele trabalhou com a gente. A água era tanta, que estávamos todos de botas de cano. Como vim de casa com sapatos, queixei-me que ia molhar os pés, mas rapidamente ele foi ao carro buscar umas botas – que me ficavam muito grandes – e eu calcei-as para trabalhar. Era assim. Todos vinham ajudar”.

Mais modernamente, a taça vai para José Decq Mota, sobretudo da primeira vez que foi Presidente do CNH (1996-2001). “Esse tempo foi um espectáculo!” 

Naturalmente que se percebe que o CNH é a segunda casa de “Catita”, não sendo de estranhar que deixe escapar esta confidência: “Mesmo quando estou de folga, venho sempre aqui”.

Contudo, há mais (alguma) vida para além do Clube. Armando vai ao futebol todos os domingos – ao Atlético ou ao Fayal – e também gosta de ver jogos na televisão.

Aos 57 anos de idade orgulha-se de já ter coleccionado “muitos amigos” nesta instituição a que se sente muito ligado.

Aqui fica o retrato de uma conversa informal, que demorou mais do que o previsto e que permitiu conhecer um pouco melhor este personagem carismático da casa.

Por sabermos que esta não é a sua praia, agradecemos ter acedido partilhar com todos nós um pouco do seu passado, que se confunde com o do Clube Naval da Horta. São estes retalhos de histórias pessoais e colectivas que permitem tecer a manta daquilo que somos enquanto povo, nas suas mais diversas vertentes.

Fotografias de arquivo de: CNH

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