“A Figura do Mês” – Francisco Gonçalves: “O CNH tem uma máquina diabólica”

Francisco Gonçalves e o irmão Jorge, em 1946, no “charuto” feito de criptoméria

Francisco Gonçalves nasceu (em 1938) nas Angústias, a 100 metros da praia. O mar fez parte do seu ambiente de menino e moço, assim como a Vela.

Com 8 anos já possuia o seu “charuto” – caiaque – com que treinava, juntamente com o irmão, Jorge (que veio a ser médico). “O meu “charuto” era feito de criptoméria e tinha sido construído pelo Mestre Manuel da Silva, que trabalhava nas oficinas da ‘Fayal Coal’.  Por isso, quando acabava os treinos, levava-o para casa”, recorda. 

Em 1949 inscreveu-se na Escola de Vela da Mocidade Portuguesa (criada em 1947) que possuia 7 Lusitos, 2 Vougas e 1 Snipe, sendo que parte desta frota veio do Continente português e os outros foram construídos no Faial, nas oficinas da ‘Fayal Coal’.

barcos mocidade portuguesa

Dia da inauguração dos barcos da Escola de Vela da Mocidade Portuguesa, em 1947

“O Piloto João Lucas e o irmão, o professor José Lucas, e outros, organizavam competições com “charutos” pintados com as cores do Atlético”, memora Francisco, que costumava passar as férias no Areeiro (Capelo), na “Vila Maria”, residência de veraneio da família.

foto antiga

Em pé, da esquerda para a direita: Patrão Lima; Carlos Vasques; Jorge Terra, (os dois a seguir não foram identificados); Manuel Duarte; Patrão-Mór (fardado, de boné); José Victor Alves; Dias; Mourão Correia (o pai era reitor do Liceu); António Ramos e o irmão; a seguir não foi identificado; e Arrais Ferreira (fazia a manutenção dos barcos da Mocidade Portuguesa).

À frente, da esquerda para  a direita: Eleutério Soares; Vitor Simas; Francisco Gonçalves; David Bettencourt; Alvernaz (dos Cedros); La Cerda; António Carmo; não identificado

26 agosto 1947 telegrafo baptismo barcos mocidade portuguesa

A cerimónia de baptismo das embarcações da Mocidade Portuguesa foi noticiada no jornal “O Telégrafo”, de 26 de Agosto de 1947, páginas 1 e 2, conforme pesquisa feita na Biblioteca Pública e Arquivo Regional João José da Graça, Horta (BPARJJH)

A Escola de Vela da Mocidade Portuguesa – cuja inscrição era facultativa – organizava acampamentos e outras actividades. As aulas, ou melhor, a instrução, estava a cargo do Patrão-Mór da Capitania.

Castelo de Santa Cruz como sede

17 dez 1947 telegrafo castelocnh

“O Telégrafo”, de 17 de Dezembro de 1947, anunciava que o Castelo ia ser usado como sede do Clube Naval da Horta. Retirado da colecção patente na BPARJJH 

Em 1947, o Castelo de Santa Cruz foi cedido ao Clube Naval da Horta para aí funcionar a sede. “Alugámos a esplanada, onde havia cinema. O cadeiral era em madeira com uma lotação considerável. Em pé, à volta, ficavam os peões, cujo bilhete custava 2$50. As exibições estavam a cargo de Mário Frayão e outros, que projectavam cinema. Nunca me vou esquecer que o filme mais lucrativo de sempre foi o “Oklaoma”, que rendeu 1.500 escudos. Como a Direcção do CNH ficava com 10% das receitas, encaixámos 150 escudos, o que era muito dinheiro.”

Outra memória dessa altura está relacionada com o filme intitulado “Chuva”, cuja exibição foi por duas vezes interrompida precisamente por ter  chovido torrencialmente.

“Tenho presente que os corpos gerentes eram compostos somente pelo Presidente, Secretário e Tesoureiro. Eu era sempre escolhido para Tesoureiro. Tínhamos um estivador, mestre Arnaldo, que trabalhava apenas alguns dias por semana e no Inverno tinha como missão assoalhar as velas dos barcos bem como tomar conta dos mesmos sempre que os Sócios quisessem bordejar. Um dos benefícios dos Sócios – havia poucos – era precisamente poderem passear nas embarcações disponibilizadas pelo Clube: 2 Snipes e a chalupa “Ilha Azul”. Rui Menezes era a pessoa encartada para monobrar a chalupa, mas havia também outros como o sr. Labescat, Eurico Silva, José Maria Gonçalves e o Sargento Carreiro.

castelo santa cruz

Em primeiro plano vê-se o paquete “Funchal” e, logo a seguir, o castelo e a esplanada

Nesse tempo – década de 60 – em que usávamos o Castelo como sede, o Governador Civil era o Dr. Freitas Pimentel, que, ao falar com a Direcção do CNH, revelou que ia ser feita uma Estalagem no Castelo, mas que ficássemos descansados que iam construir uma sede nova para o Clube”.

Como se pode perceber, trata-se de uma promessa antiga, com pelo menos 60 anos de atraso.

esplanada cnh castelo santa cruz

Aspecto da esplanada do CNH no Castelo de Santa Cruz

“No tempo do senhor Eurico Silva, fazíamos piqueniques a bordo da chalupa. Íamos para a Praia do Almoxarife, onde lançávamos ferro, e se tomava banho. Cada um levava o seu farnel e passávamos dias muito agradáveis. Também íamos muitas vezes passear para as Caldeirinhas, pois ainda não era proibido como hoje.

Muita gente tinha botes à vela e, após o fecho do comércio, davam passeios. Com bom tempo, o trajecto podia ser até à Areia Larga, no Pico.

Lembro-me perfeitamente do “Cavalo Preto”, um barco muito bom, que era do sr. Luciano Terra. Mas havia outros botes particulares, entre eles, o “Quo Vadis”, o “São Gabriel”, o “Sporting”, e os “Estrelas”.

“Brincávamos com os tabuões”

Sendo um homem ligado ao mar e à vida do Clube, com uma paixão pela fotografia, é normal que Francisco Gonçalves registasse tudo o que acontecia na baía. Como tal, aqui fica um apontamento histórico, datado de 1947, altura em que esteve muito tempo encalhado na baía um barco chamado “Leopoldina”, que o nosso estrevistado presume que era um bacalhoeiro.

1947 leopoldina

A embarcação “Leopoldina” encalhou na Horta e aqui foi desmantelada

“Com o demantelamento do barco, houve muitas peças de madeira a boiar no mar, e como éramos rapazes, andávamos por ali a brincar em cima dos tabuões, mas também nos entretínhamos a retirar as peças metálicas que valiam algum dinheiro”, narra Francisco Gonçalves, neto paterno de Manuel Emídio Gonçalves, fundador do saudoso jornal “O Telegrapho”, (2 de Setembro de 1893).

Da Mocidade para a Direcção dos Desportos

Em 1978, a Escola de Vela da Mocidade Portuguesa – que funcionava ao sábado, à tarde – passou para a Direcção-Geral dos Desportos, tendo Francisco Gonçalves assumido a função de Coordenador. “O Delegado dos Desportos no Faial era o José Victor Alves. Para tanto, fomos a São Miguel a fim de fazer formação para passarmos a ser instrutores, tendo a mesma sido ministrada pelo professor Afonso Santos, que era o Coordenador Nacional da Vela.

Foi, também, por iniciativa da Direcção-Geral dos Desportos, que passámos a ter Vauriens no Faial”.

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Lusitos em treino, no ano de 1974 

1º Encontro de Escolas de Vela a nível nacional

Nesse ano (1978) realizou-se um acontecimento marcante na ilha do Faial: o 1º Encontro das Escolas de Vela a nível nacional, em que participaram 48 Escolas de Vela dos Açores e do Continente, e 24 barcos. Este antigo dirigente menciona a vinda de alguns Optimist da Terceira e de São Miguel e o facto de terem sido feitas eliminatórias por forma a apurar os 24 melhores velejadores, correspondentes ao número de barcos existente. 

O lote dos colaboradores integrava nomes como João Carlos Fraga, o irmão, José Fraga, António Luís e João Luís Andrade. Posteriormente, a Escola de Vela foi regionalizada, tendo sido integrada no Clube Naval da Horta.

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Vauriens em prova, no ano de 1983

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Atletas a bordo de um Vouga, no ano de 1974

A Regata vinda de Portsmouth

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Barcos participantes na Regata vinda de Inglaterra, em 1975 

Na origem do maior cartaz turístico do Faial e da primeira grande festa concelhia a surgir nos Açores, nos anos 70 do século passado, esteve a recepção à Regata Internacional de Veleiros Portsmouth/Horta/Portsmouth, em Agosto de 1975, o que motivou grandes festejos. Luís Gonçalves, então Presidente do Clube Naval da Horta – cargo que assumiu por mais do que uma vez – tomou a iniciativa de receber os velejadores. Estes festejos duraram uma semana e transformaram-se num acontecimento marcante e mobilizador de todos os faialenses. Ao que parece, tudo começou com as delícias de um caldo de peixe, o que permaneceu ao longo dos anos como arranque desta Semana e símbolo das suas raízes. Os velejadores estrangeiros gostaram da recepção e, agradecidos pela hospitalidade demonstrada, voltaram ano após ano. Curiosamente, o momento festivo mais concorrido na altura, de acordo com os relatos da imprensa local, contava com a presença de 500 pessoas!

Nesse mesmo ano, realizou-se a primeira Regata do Canal, um concurso de pinturas no molhe do Doca, esculturas na areia, bem como a projecção de filmes e actuação de um grupo folclórico no Forte de Santa Cruz.

Numa primeira fase, a organização esteve a cargo do Clube Naval da Horta e da então Comissão Regional de Turismo da Horta – que era presidida por Ricardo Madruga da Costa – com o apoio da Capitania do Porto da Horta.

Para a história do Faial, dos Açores e de Portugal, fica a recepção a essa Regata Internacional, que marcou o início daquele que viria a ser o maior Festival Náutico do País: a Semana do Mar.

Ano zero da Semana do Mar

1975 cartaz 1 semana mar

Esta famosa imagem marca a realização da 1ª Semana do Mar, integrando o espólio do CNH 

Francisco Gonçalves baptizou a edição de 1975 como sendo “a Semana do Mar zero”. E resgata esta memória de um passado recente: “Na ponta do cais fizemos, pela primeira vez, bifanas – de carne de baleia – num grande grelhador, que distribuímos por todos os “aventureiros” que aí se encontravam.

Nesse tempo, a Comissão existente – presidida por Luís Gonçalves – contava com a colaboração do Eddy, um americano que havia chegado ao Faial de iate e que por aí ficou durante vários anos. Como moradia, adoptou as casas do istmo de Porto Pim. Era muito cooperante e foi dos que mais colaborou nestes primeiros anos.

Durante algum tempo, o Eddy também tomou conta dos barcos de alguns iatistas que chegavam cá de Inverno e, como não tinham tempo de regressar a casa, deixavam as suas embarcações no Faial.

Este americano andava, ainda, com a lancha “Maria José”, propriedade da Alfândega da Horta, que depois passou para o Turismo, entidades que sempre colaboraram com o CNH.

1978 eddy

“O Eddy era um americano que aportou à Horta de iate e que colaborava connosco”

Quando se fala no início da Semana do Mar ninguém se lembra do Elmano Azevedo, mas ele foi incansável e muito trabalhou, sobretudo na cozinha.

Noutra altura também fizemos bifanas de albacora e voltámos a convidar os iatistas, que ficavam admirados por ser tudo oferecido.

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Ano de 1977: lancha “Maria José” no apoio a provas de Vela

1981 semana mar

1981: as provas da Semana do Mar já contavam com muita assistência. Ao fundo, pode ver-se a barraca da Mocidade Portuguesa, onde era guardado o equipamento náutico

barracas semana mar

Barracas da Semana do Mar, na década de 80 

No decorrer da Semana do Mar punhamos o vouga (barco maior) à disposição dos  estrangeiros para poderem passear. Lembro-me de que apareceu um casal americano, com um filho, a perguntar se podia ia passear de barco. Eu disse que sim e chamei o Rui Serpa, porque era aluno da Escola de Vela e sabia velejar. A senhora ficou em terra, mas o marido foi com o filho e estiveram no mar durante uma hora. Terminado o passeio, dirigiram-se a mim querendo saber quanto custava. Quando lhes disse que era gratuito, ficaram maravilhados mas, também, estupefactos, com a oferta. Sei que à conta disso o Rui Serpa recebeu uns dólares”.

1982 barco apoio  regatas

Ano de 1982: “Davamos apoio às regatas em barcos a remos”

Da esquerda para a direita: João Luís Andrade, filho de João Andrade; António Luís e Francisco Évora (dono do barco)

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Velejadores no ano de 1982

Atrás, o único que foi identificado é João Sequeira (de chapéu)

À frente, da esquerda para a direita: Fernando Rodrigues; Luís Carlos Terra; Herberto Terra (irmãos); Emídio Gonçalves; João Vieira; Filipe Porteiro; não identificado

As primeiras Semanas do Mar

“Organizávamos as regatas da Semana do Mar mas não tínhamos a capacidade de hoje. Basta dizer que o apoio dado às regatas era feito em barcos a  remos”, vinca Francisco Gonçalves, que acrescenta: “Tínhamos um mestre carpinteiro por nossa conta, o senhor Francisco Cardoso, que foi quem construiu aquele barco que se encontra actualmente na Secretaria do Clube Naval da Horta (CNH).

Esse barco foi feito para o meu filho João Gonçalves, mas posteriormente decidi oferecê-lo ao CNH por achar que lá era o sítio adequado para esta peça”.

mini veleiro francisco goncalves

Francisco Gonçalves ao lado do seu antigo mini-veleiro 

Fotografia de arquivo de: Cristina Silveira

A propósito desta relíquia, refira-se o que narramos em 2014:

“Este mini-veleiro tem uma história de vida relacionada com a de Francisco Gonçalves, se tivermos em conta que este faialense ministrava aulas teóricas na Escola de Vela da Direcção-Geral de Desportos, na década de 70 do século passado. Através deste modelo eram dadas muitas explicações aos formandos.

Francisco Gonçalves era o Responsável pela Escola, que teve como colaboradores António Luís, José Fraga e João Andrade.

Paralelamente às aulas teóricas, este mini-veleiro, feito em madeira, também chegou a andar no mar, complementando, assim, a vertente prática da Escola.

Mestre Francisco Cardoso, que era carpinteiro, disse um dia a Francisco Gonçalves que ia fazer um mini-veleiro para oferecer ao filho deste, que era uma criança. Mas como o filho era pequeno, enquanto Francisco Gonçalves foi Responsável pela Escola de Vela fez sempre uso do modelo. Fora de rota há vários anos, Francisco Gonçalves decidiu oferecê-lo ao Clube Naval da Horta, por considerar que aqui “tem mais utilidade”, com a particularidade de ter sido reparado pelo afilhado”.

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Praia de Santa Cruz, que desapareceu com o tempo 

Sessões de slides para os iatistas 

Em 1982, Francisco Gonçalves era colaborador de Luís Gonçalves, que explorava o Bar do Clube – onde “havia sempre umas sandes muito boas” – que nessa altura funcionava no edifício que hoje se destina a Centro de Formação de Desportistas Náuticos.

“Como colaborador, vinha todas as semanas fazer uma sessão de projecção de ‘slides’, ou seja, diapositivos, destinadas aos iatistas. Para tal, fazia uns quadros com imagens da ilha e acrescentava a estatística anual dos iates que escalavam o porto da Horta. Era uma forma de fazermos divulgação turística.

Num desses grupos de “aventureiros” encontrava-se uma artista chamada Dayle Duffy, que, ao ver os ‘slides’, pediu a João Carlos Fraga – que sempre falou línguas estrangeiras e fez amigos na comunidade iatista – se podia usar alguns para fazer quadros. Eu concordei, com a condição de ela fazer um quadro com a imagem do meu filho. E ela pintou um quadro grande, que ainda hoje guardo e admiro”.

1982 esplanada cnh

1982: a artista Dayle Duffy (loira) com um grupo de amigos na esplanada do CNH, fora da antiga sede

iates baia horta

Sem a Marina da Horta – que só veio a ser uma realidade em 1986, tendo mesmo sido a primeira dos Açores – os muitos iates que sempre aportaram à Horta, ficavam na baía 

“O CNH tem uma máquina diabólica”

“Para a dimensão do Faial, o apoio que na altura dávamos aos iatistas era muito importante”, enfatiza Francisco Gonçalves, destacando “a máquina diabólica” que o Clube Naval da Horta tem actualmente, “com muita gente voluntária a trabalhar”. Por isso, o Sócio número 2 do CNH – em bom rigor é o associado 18, mas como à sua frente apenas se encontra o Dr. Luís Carlos Decq Mota, que é o 16, tendo todos os outros já falecido – considera que “o Clube Naval precisa é de uma sede!”

“Quando eu e o António Luís estávamos na Escola de Vela, na década de 80, altura em que o Pacheco de Almeida era Secretário Regional do Turismo, apresentámos um projecto – que tinha, inclusivamente, um tanque para treino de remo – e que custava cerca de 25 mil contos. Mas, infelizmente, não saiu da gaveta”.

Fotografias cedidas por: Francisco Gonçalves

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