“A Figura do Mês” – Altino Goulart: “O CNH tem potencial para ir mais além, mas faltam instalações e orçamento”

Responsabilidade e brio, definem o carácter deste marinheiro

Altino Goulart é uma figura sobejamente conhecida no meio náutico, tanto cá dentro como lá fora.

Além de Sócio do Clube Naval da Horta (CNH), foi Treinador de Remo, Velejador/Skipper, Navegador, integrou algumas Comissões de Regata na área das comunicações, e, como Radioamador há quase 50 anos, tem tido um importantíssimo papel no apoio a navegadores pelo mundo todo (“Roda dos Navegantes”).

Começou a sua colaboração no CNH com Aurélio de Freitas Melo, então Presidente da Direcção, o que aconteceu entre 1990-1992.

“Gostei muito de trabalhar com o senhor Melo, pois, não sendo homem muito ligado ao mar, como dirigente tinha um grande sentido de gestão. Sabia ouvir e pedir, mas era exigente”, recorda.

tempo do sr melo

Aurélio de Freitas Melo, Rui Corvelo, Altino Goulart, Marco Rosa, Pedro Gonçalves, Miguel Camões e Víctor Frazão

Altino foi um dos impulsionadores da Secção de Remo Federado no Clube Naval da Horta e, por intermédio desta casa, fez o Curso de Treinador de Remo, o que o obrigou a algumas deslocações ao Continente português.

prancha remo adaptada

Prancha de Windsurf adaptada para treino de Remo - Iniciados

Como Treinador, passou a trabalhar nesta Secção com vários escalões etários, tendo sido construída no Faial uma prancha adaptada, à semelhança das que eram utilizadas na Federação Portuguesa de Remo (FPR).

Foi na Direcção seguinte – presidida por Manuel Fernando Vargas, que fez dois mandatos: de 1992 a 1996 – que se dá o ‘boom’ da Secção de Remo do CNH.

“De semana, eu dava treinos entre 15 a 20 atletas, número que atingia os 30 ao sábado (Iniciados, Infantis, Juvenis, Juniores de 1º e 2º ano e Seniores). Os não federados eram mais de meia centena”, sublinha este antigo Treinador, que ainda tinha a seu cargo as funções administrativas desta área. 

reparacoes em barcos

Altino era um pedagogo, dentro e fora da água

“Nos dias em que não era possível realizar treinos na água, devido às condições climatéricas, fazíamos preparação física, treino em ergómetro (máquina de remo ‘indoor’) e acções de sensibilização.

Havia, também, os Animadores, Rui Corvelo e Marco Dutra, que colaboravam com o Treinador. “Nessa altura, eram mais de 100 pessoas a praticar Remo no CNH, com a particularidade de nunca ter havido qualquer remuneração, sobressaindo “o gosto pela modalidade”.

Além de tudo isso, Altino fazia, ainda, algumas reparações nos barcos, convidando os atletas a colaborar, “como forma de responsabilizá-los”.

CNH atingiu resultado histórico no Remo, a nível nacional

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Vera Goulart, Patrícia Oliveira e Tânia Gonçalves com o Treinador Altino, de partida  para o Encontro Nacional de Remo, em Coimbra

Com a pujança adquirida, a Equipa de Remo Mista do Clube Naval da Horta passou a figurar nas competições no Continente. A primeira foi no Encontro Nacional, em Coimbra, há 26 anos. “Como o número de ligações da TAP entre a Horta e Lisboa era reduzido, tornava-se difícil sair da ilha. Por isso, algumas vezes tivemos de recorrer a outras alternativas, nomeadamente à Capitania do Porto da Horta, para viajarmos até à Terceira ou São Miguel na corveta, a fim de embarcar para Lisboa”.

Altino recorda que “a Ana Marisa – com 16/17 anos – realizou provas e entrou na Equipa Nacional, em Coimbra, tendo adquirido o Estatuto de Atleta de Alta Competição nos Açores, o que lhe trazia benefícios na vida académica. Nessa altura, o Clube Naval da Horta atingiu um resultado histórico no Remo, com belíssimos desempenhos a nível Nacional.

As primeiras vezes que fomos a Coimbra participar em provas, os piores barcos eram sempre para nós, até que um dia um senhor que tinha feito o Curso de Treinador comigo e era meu amigo, disse à Organização: “Vocês só dão os piores barcos ao pessoal do Faial”, tendo a resposta sido esta: “Não faz mal, pois lá nos Açores é remo selvagem”.

“Através do trabalho desenvolvido pela Equipa de Remadores, Animadores e Treinador demonstrámos que não era assim”, realça Altino, que avança: “Volvido algum tempo, os campeões a nível nacional (3 Femininos e 3 Maculinos) foram convidados a vir ao Faial realizar provas, mas o facto é que 3 deles não conseguiram brilhar, tendo 3 primeiros lugares sido alcançados por atletas do CNH, deixando, assim, 3 dos campeões nacionais pelo caminho. Com esta prova, perceberam, por experiência, que tipo de Remo se praticava no Faial e que não era selvagem como havia sido apelidado”.

Além dos atletas da Classe ‘Skife’, também outros do CNH se destacaram a nível nacional,  nesta modalidade, com o barco ‘Doble Schul’.

remadores com altino continente

Nuno Henriques, Rui Corvelo, Altino Goulart, Ana Marisa, Vânia Félix, Sara Porto e Pedro Terra (em baixo) numa Prova realizada em Coimbra, na década de 90 do século XX

Intregrava essa comitiva do Continente, o engenheiro Dabernard, Presidente da Federação Portuguesa de Remo, entidade que, no Continente, assumia as despesas das equipas do CNH nas provas realizadas a nível nacional (transportes terrestres e alojamento).

A prestação do Clube Naval da Horta foi de tal forma destacada, que, em 1994, mereceu uma carta (enviada por fax) elogiosa por parte da Federação.

“Se tívessemos mantido esta linha evolutiva, certamente que as vitórias teriam sido muitas, mas os Dirigentes da altura assim não o entenderam, lamentavelmente. Em virtude do sucesso alcançado pelo Clube Naval da Horta, outros da Região manifestaram vontade de implementar esta modalidade, tendo sido colocada a hipótese de realizar estágios nas Lagoas de São Miguel”, lembra Altino.

carta elogiosa fpr

Primeira  página da carta elogiosa da Federação Portuguesa de Remo ao Clube Naval da Horta, datada de 13 de Maio de 1994

equipa campeoes nacionais no faial

Equipa de campeões a nível nacional, que veio ao Faial e não conseguiu manter a liderança nas provas locais. O primeiro da esquerda para a direita, é o engenheiro Dabernard

Posteriormente, “a Equipa Masculina de Remo do CNH ainda chegou a ir à Madeira e o resultado foi muito bom, ganhando todas as provas à excepção de uma. O grupo juntava-se depois das provas e ia passear e conviver. Havia bom ambiente e todos tinham preparação para alcançar lugares honrosos”.

equipa remo na madeira

Miguel Camões, Marco Rosa, Atino Goulart, Rui Corvelo e Pedro Gonçalves, na Madeira

Os critérios de selecção dos atletas nas competições fora do Faial eram: assiduidade, aplicação, resultados das provas locais e o aspecto comportamental em equipa.  

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Equipa de Seniores numa competição, no Rio Tejo, com o carismático barco “Yolle”

António Gaspar, Mário Carlos, Emanuel Rosa, Altino Goulart, Marco Dutra e Isidro Medeiros

Os atletas do CNH participaram em competições em vários pontos do país, de que são exemplos Coimbra, Lisboa, Porto, Vila Franca de Xira e Madeira.

Altino trabalhou sempre para que o Remo estivesse em alta no CNH. “Os barcos inicialmente adquiridos para a prática desta modalidade tinham pouca qualidade. Com o evoluir do Remo, foi possível adquirir um barco ‘Skife’, topo de gama, que custava na altura 800 contos, e dois pares de remos ‘big blade’, (grande lâmina) em carbono, custando 200 contos cada par. Como se pode imaginar, era um valor extremamente elevado para o orçamento do Clube. Assim, recorreu-se à Secretaria Regional dos Transportes e Turismo, de que era Director o Dr. Eugénio Leal. Recordo-me que esse equipamento era a coqueluche da Secção de Remo do CNH”.

O empenho era tal, que chegaram a ser feitas travessias do Faial para o Pico, em Remo, em regime de passeio. “E quando chegávamos à Madalena, deixávamos os barcos lá e subíamos a montanha do Pico. Havia vontade e energia para tudo isto, com a colaboração dos Pais e o apoio da Direcção”. Algum tempo depois, esta dinâmica foi bastante refreada, “provavelmente devido à conjuntura económica e à linha de posicionamento directiva em relação a esta modalidade”, situação que Altino lamenta.

Perduram as experiências (“muito positivas”) e as amizades destes mais de 6 anos como Treinador. “Foram tempos muito bons, sempre com disciplina e respeito, numa altura em que não havia telemóveis e os pais tinham hora certa para falar com os filhos, que se encontravam em provas, fora do Faial. Prevaleceu sempre o bom relacionamento e a camaradagem e orgulho-me das amizades feitas, que ainda hoje se mantêm”.

travessia faial pico remo

“Fazíamos travessias a Remo do Faial para o Pico, em passeio”

“Atlantis Cup”, “Horta/Velas/Horta, “Ceuta/Horta/Ceuta”

corveta sao jorge

Aurélio de Freitas Melo, Altino Goulart, Jorge Macedo e o comandante José Salema a bordo da corveta, com São Jorge ao fundo

Ainda no tempo do Presidente Melo, este Sócio deu o seu contributo noutras áreas, designadamente em Comissões de Regata, como por exemplo na “Atlantis Cup” (quando ainda não era Regata da Autonomia), na “Vannes/Horta/Vannes”, na “Horta/Velas/Horta” e noutras. Mas aqui também revelou a sua faceta de Velejador/Skipper. “Fiz a minha primeira “Atlantis Cup” há mais de 20 anos, no “Navir”, ao que se sucederam outras em barcos de amigos e ainda nos meus próprios barcos (“Virgínia II”/“Paganini”).

Em relação à “Horta/Velas/Horta”, lembro-me de irmos na corveta até São Jorge. Havia um entusiasmo enorme e a prova disso era o grande número de barcos participantes, em contraste com o que acontece hoje.

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A “Horta/Velas/Horta” registava um elevado número de participantes

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A ponta da doca ficava apinhada de gente para ver a largada e chegada das regatas, de que é exemplo a “Vannes/Horta/Vannes”

Outra regata que deu início à internacionalização da náutica de recreio no Faial, foi a “Vannes/Horta/Vannes”, cuja assistência na ponta da doca demonstrava bem o grande entusiasmo e ambiente que se vivia no Clube Naval da Horta”.

Altino continua a colaborar no apoio às Regatas durante o Festival Náutico da Semana do Mar e noutras actividades do CNH.

Como radioamador – desde a década de 70 – e membro da “Roda dos Navegantes”, este experiente navegador integrou comitivas faialenses do CNH em missões de captação e projecção do Faial na rota das travessias transoceânicas.

cnh recorte incentivo

Esta notícia de 16 de Março de 2007, retirada do Jornal “Incentivo”, dá conta da participação de Altino Goulart na 9ª Edição do Salão Náutico de Madrid, evento que foi aproveitado para a apresentação, por parte do CNH, da 1ª Edição da Regata “Madrid/Ceuta/Horta”

De realçar que foi Altino Goulart quem trouxe para o Faial a primeira (e única) Regata “Ceuta/Horta/Ceuta”, realizada em Julho de 2009, num tempo que o Clube Naval da Horta era dirigido por João Pedro Garcia. “A falta de continuidade deveu-se, simplesmente, à postura de quem ignorou os que tinham o ‘know-how’ da regata”, garante Altino Goulart, que viu cair por terra todo o esforço e trabalho de anos. 

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Altino a sair de Ceuta no seu “Paganini”

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Comitiva que se deslocou a Ceuta

Eduardo Santos, Paula Dias, Hélio Dias, Lurdes Costa, Altino Goulart, Cláudia Castro, João Castro, Pedro Moura e António Luís

Homenagem do Rei

A “Roda dos Navegantes” foi criada há mais de 40 anos, integrando um conjunto de radioamadores, cujo núcleo duro é composto por Rafael Castilo (Canárias), Altino Goulart (Faial-Açores), Alberto Xisto (Argentina) e Carlos Pulo (Cabo Verde). Como reconhecimento pelos serviços prestados no auxílio aos que andam no mar, em 1999 foram homenageados pelo Rei Espanhol, Juan Carlos, numa cerimónia que decorreu em Palma de Maiorca.

Ainda neste mesmo âmbito, a Câmara Municipal da Horta prestou igualmente homenagem a Altino Goulart, em Julho de 2003.

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Alberto Xisto, Carlos Pulo, Altino Goulart, Rei Juan Carlos e Rafael Castilo

A aventura do australiano Jesse Martin

Um exemplo concreto desse apoio foi precisamente o que aconteceu com o jovem australiano, Jesse Martin, que, na sua viagem solitária de circum-navegação, sem escalas, à volta do mundo, contou com a grande colaboração deste radioamador faialense, que lhe ia dando informações sobre o tempo e fazendo a ponte com a família. Na sua passagem pelo Faial, Altino acompanhou-o à distância, numa embarcação, assim como a Comunicação Social (não podia haver contacto com terra nem com outras embarcações, caso contrário perdia o recorde que pretendia estabelecer) tendo recolhido o lixo que se encontrava a bordo e acolhido a família que veio até cá.

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Jesse Martin conseguiu alcançar o recorde que pretendia tendo contado, também, com o apoio do radioamador Altino Goulart

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Carta de agradecimento enviada a Altino pelo Projecto de Jesse Martin

Como forma de agradecimento, os Responsáveis pelo Projecto de Jesse Martin enviaram uma carta a Altino Goulart, recordando a aventura e expressando gratidão a todos os que contribuiram para esse sucesso.

Navegador de David Yudovin

Altino viveu uma experiência inédita e “muito interessante” como Navegador do nadador norte-americano, David Yudovin, um veterano no que a travessias dizia respeito.

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David é reconhecido internacionalmente por ser o Número 1 no Mundo, como nadador de águas abertas

David visitou o Faial pela primeira vez em 2008, acompanhado pela mulher, Beth – sua treinadora – determinado a conquistar os canais açorianos, assinalando, assim, a sua estreia em Portugal.

Realizados alguns treinos, David convidou Altino para seu Navegador, o que foi aceite.

“A primeira travessia em que o acompanhei, numa embarcação do Clube Naval da Horta, foi a 20 de Agosto de 2008, dia em que ele fez a nado o Canal Faial/Pico (uma distância de cerca de 5 milhas náuticas) em 2 horas e 20 minutos. Saíu de entre Montes (Guia e Queimado), junto ao Monte da Guia, e chegou à rampa do porto da Areia Larga, na Madalena do Pico. O objectivo era fazer a travessia em menos de 3 horas, o que foi conseguido com facilidade, atendendo às boas condições do atleta e do tempo”.

Na semana seguinte, este nadador californiano fez a travessia do Canal Pico/São Jorge, o que aconteceu a 26 de Agosto de 2008, percurso realizado em 7 horas e 20 minutos, (distância entre pontos: 11 milhas) e novamente acompanhado por Altino Goulart, numa embarcação do CNH.

A 5 de Setembro (de 2008) David ligou as Flores ao Corvo, em 7 horas e 10 minutos, num total de 11 milhas.

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Equipa da Travessia Flores/Corvo: Altino Goulart, Paulo Sérgio, Susana Martins (Vice-Presidente do CNH), Beth e David Yudovin num brinde a mais um sucesso

Madeira, Cabo Verde e São Tomé

A aventura seguinte deu-se no dia 1 de Setembro de 2010, entre a Ilha da Madeira e as Desertas, uma distância superior a 11 milhas náuticas, tendo demorado 7 horas e 3 minutos.

Na entrevista concedida ao “Diário de Notícias”, no Reid’s Palace, onde esteve hospedado na Madeira, David disse o seguinte sobre o seu Navegador, Altino Goulart:  “É um homem que sabe muito de mar, que foi um óptimo auxiliar, pois nestas travessias é preciso navegador, ou seja, alguém que conheça e nos indique o melhor percurso. Depois é uma questão de concentração para cumprir o objectivo”.

A seguir veio Cabo Verde, tendo David atravessado a nado os canais que ligam Santo Antão a São Vicente, no dia 26 de Junho de 2012. Foram 10,5 milhas em 5 horas e 44 minutos. A 8 de Julho desse ano, seguiu-se Fogo/Bravo, um percurso que envolveu 12 milhas, tendo sido percorrido em 6 horas e 38 minutos.

A 30 de Junho de 2013, David Yudovin nadou entre Maio e Santiago, uma distância de 15 milhas náuticas, totalizando 11 horas e 37 minutos.

Em São Tomé, realizou ainda duas travessias, sempre acompanhado por Altino, que revela o ritual de David antes de cada nova etapa: “Fazia meditação durante cerca de 30 minutos”.

chegada ilha bravo

Uma multidão aguardava David Yudovin na chegada à ilha do Bravo

Treino, concentração e persistência eram os segredos de David Yudovin, que se tornou conhecido em diversas partes do mundo como nadador de canais. Conseguiu atravessar com sucesso diversos mares, em vários continentes. No seu currículo, contam-se as travessias do Canal da Mancha, o Estreito de Gibraltar, o Estreito de Cook, na Nova Zelândia; o Estreito de Sunda, na Indonésia; e o Estreito de Tsugaru, no Japão, entre outros.

Na situação de reformado – e sem filhos – tinha todo o tempo do mundo para se dedicar ao seu ‘hobby’, interrompido em 2015 (28 de Março) com a morte súbita, quando treinava na sua residência, em Cambria, no Sul da Califórnia, para a próxima travessia nas ilhas Maldivas.

Homenagem a David Yudovin

David, que contava 63 anos de idade quando faleceu, “é reconhecido internacionalmente por ser o Número 1 no Mundo, como nadador de águas abertas”, salienta o seu antigo Navegador, que vinca: “Além de excelente nadador, foi e continua a ser uma referência para muitos nadadores de águas abertas, pelo seu entusiasmo, espírito de aventura, carácter, bondade e generosidade.

Este norte-americano dedicou-se à Natação durante cerca de 40 anos, tornando-se no primeiro atleta a nadar em mais de três dezenas de canais de águas abertas em todo o mundo, inclusivamente nos Açores. Nestas ilhas fez algumas amizades, granjeou a simpatia de muitos e incentivou outros à prática desta modalidade.

A próxima vinda do David aos Açores estava planeada para meados do mês de Agosto de 2015, altura em que tinha programado fazer a Travessia do Canal, desta vez no sentido inverso: Pico/Faial. Durante a sua estada nos Açores, seriam realizadas algumas conferências”.

Depois, Altino seguiria com ele e a mulher para as Canárias, onde já estava preparada a travessia entre as ilhas Tenerife e La Gomera.

Para homenagear este amigo e nadador singular, Altino Goulart propôs, junto da Direcção do CNH e do Grupo de Natação de Águas Abertas da Ilha do Faial, que fosse instituída uma Prova de Natação no Canal Faial/Pico com o  nome de David Yudovin, o que veio acontecer a 31 de Julho de 2015.

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Altino com os amigos Beth e David Yudovin

“Um dia hei-de nadar neste Canal”

Altino tornou-se amigo deste casal norte-americano e realça que ter sido Navegador de David Yudovin foi “uma vivência única e muito marcante”.

Recorda que “ele e a mulher passaram ao largo do Faial, num cruzeiro de Alicante para os Estados Unidos, tendo dito à Beth que um dia ainda haveria de nadar neste Canal. E 15 anos depois estava cá a nadar! Ele era uma excelente pessoa, muito simpático e que gostava de música: tocava guitarra havaiana e clássica.

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David tocava guitarra e tinha na Natação um ‘hobby’

Mantenho contacto com  a Beth, sua mulher, que tem viagem marcada para o Faial no início de Abril próximo, a fim de concretizar o último desejo dele. Antes de morrer, David manifestou vontade de que as suas cinzas fossem espalhadas pelos vários locais do mundo onde nadou. E é isso que vamos fazer em conjunto com a Direcção do CNH, cujo assunto já foi abordado. Juntos faremos um funeral com o respeito e a dignidade que o David merece”.

“O CNH está a cumprir a sua missão”

A finalizar esta longa conversa – em que nenhum dos dois se apercebeu de que os ponteiros haviam dado tantas voltas – o nosso entrevistado foi convidado a fazer um retrato do Clube Naval da Horta.

Conhecedor desta casa, Altino não tem dificuldades em pronunciar-se: “Apesar dos altos e baixos, o CNH sempre teve um papel fundamental na ilha do Faial, quer em termos desportivos, quer sociais, quer mesmo no que respeita à formação.

Para aquilo que estava preparado, posso dizer que antigamente desempenhou bem a sua função e no presente continua a fazê-lo. A verdade é que o Clube Naval da Horta não pode fazer muito mais do que aquilo que já faz, por falta de instalações adequadas e de orçamento, apesar de ter potencial para ir mais além. Existe um grande ‘know-how’ em termos humanos, que permitiria uma maior expansão, mas esse crescimento está limitado pelas restrições acima referidas.

A vocação desta instituição na organização e recepção a regatas internacionais, é notória e sabida.

Nos últimos anos tem havido um incremento de modalidades como Vela Ligeira, Remo, Canoagem, Natação e um grande entusiasmo à volta dos Botes Baleeiros, cujo dinamismo tem sido revelador do grande trabalho feito, tanto no Faial e Pico, como em New Bedford, com a realização de Regatas Internacionais, geradoras de importantes intercâmbios e o garante de que a baleação permanece viva e será preservada.  

Perante este enorme potencial, esperemos que se faça justiça, cumprindo o que há muito é prometido e que tarda em ser uma realidade. A bem de todos!”

Fotografias cedidas por: Altino Goulart

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