“A Figura do Mês” – José Salema: “O Voluntariado marcou sempre muito o CNH”

O Comandante Salema com o seu amigo, Rogério Feio

José Salema ou o Comandante Salema como é tratado e conhecido, é uma presença habitual no Clube Naval da Horta (CNH), instituição a que está ligado desde há largos anos.

Depois de passar à reserva da Armada, com a patente de Capitão-de-Fragata, o Comandante Salema regressou ao Faial/Pico nos anos 80, onde tem vivido desde essa altura. Aproximou-se muito do CNH, colaborando sistematicamente com a Secção de Vela de Cruzeiro desde o início dos anos 90. Integrou, durante muitos anos, a Comissão de Regata da então “Atlantis Cup” (actual Regata da Autonomia) e as Comissões de Regata de muitas regatas locais.

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As Comissões de Regata foram um dos focos de trabalho de José Salema, no CNH

“No início, a Atlantis Cup ligava apenas Faial, Terceira e São Miguel. O objectivo era juntar os estrangeiros que vinham até ao Faial e levá-los para São Miguel. Mais tarde, os estrangeiros deixaram de participar e a Regata passou a trazer os açorianos para o Faial. Desde há alguns anos que atrai continentais, além dos locais, que sempre participaram.

Antes da 2ª Atlantis Cup, Mário Soares, Presidente da República de então, esteve no Faial, no âmbito da Visita Aberta que fez aos Açores, e a Entrega de Prémios decorreu a bordo do “Creoula”, em São Miguel, presidida pelo Primeiro-Ministro, Cavaco Silva”.

Memórias partilhadas por este marinheiro, que realça a componente competitiva da mais importante Regata de Vela de Cruzeiro realizada nos Açores e organizada pelo Clube Naval da Horta. “A Regata destina-se à competição e não a passear. A envolvente deste evento náutico cativa imenso e este ano é muito aliciante por se realizar no Grupo Central, o que é sinónimo de ser mais pequena.

Claro que muita coisa mudou ao longos destes 30 anos de Regata. Só para termos uma ideia, naquele tempo o barco do António Luís era dos bons. Fazia-se a “Atlantis Cup” nesses barquinhos. Desde há alguns anos que participam barcos bons, de médicos e de pessoas com dinheiro.

Também há quem alugue barcos para fazer esta competição. A gente nova gosta disto e faz a Regata, mas com amigos, pois não tem dinheiro para comprar barcos. É por isso que não há ninguém novo”.

“Horta/Velas/Horta”: a Regata da Marinha

José Salema recorda “o grande sucesso” que foi a “Horta/Velas/Horta”, organizada pela Marinha e que era mesmo “a Regata da Marinha”.

“A Comissão de Regata seguia na Corveta assim como muita gente, que ia passear. Era a festa da Regata nas Velas, que contava com o grande apoio do Presidente da Câmara Municipal das Velas, Frederico Maciel. Havia muitos estrangeiros a participar e os prémios eram colchas, muito bonitas, feitas no tear. Conheço alguns faialenses que têm várias colchas dessas.

Com o tempo e o crescimento dos barcos, os estrangeiros deixaram de participar, pois isso significava perder o lugar na Marina, além de que nem todos tinham essa disposição após terem chegado ao Faial, cansados de uma longa viagem.

Mais tarde foi criada a Semana Cultural e passaram a juntar a Regata à festa e, por fim, desligaram da Regata”.

“O que aprecio verdadeiramente é ver as regatas”

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“Gosto de ver as manobras das regatas e passo horas nisto”

Nas Comissões de Regata, o Comandante Salema recorda a presença habitual de Jorge Macedo, que o acompanhou desde o início, e de Alzira Luís. “Andei muita vez na ponta da Doca com a Alzira. Trabalhámos bem juntos.

Eu sempre acompanhei as regatas por terra, porque aquilo que aprecio verdadeiramente é ver as regatas. Gosto de ver as manobras das regatas e passo horas nisto. Também tiro fotografias, que constituem recordações.

Quando era miúdo, durante a II Guerra Mundial, observava sempre as manobras no Porto da Horta. E a minha predilecção era ficar a ver a manobra de atracação de navios”.

Para o nosso entrevistado, “quando há bom vento, todas as regatas são boas”. E frisa: “Aí é que se vê quem tem unhas!”

Primazia pela disciplina

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José Pacheco da Costa Salema, avô paterno do Comandante Salema

O mar é algo que sempre fez parte da vida deste faialense que, quando era miúdo, passava os 3 meses de Verão no Pico, a pescar. “Passava os dias na costa e só interrompia quando me iam chamar para almoçar e para jantar”.

Na Areia Larga usava as chatinhas para fazer ‘surf’ e depois de ter praticado Vela (Vouga) no CNH, revelou-se um ás na Escola Naval, tendo-se dedicado à Vela de Cruzeiro no Clube Náutico dos Cadetes e Oficiais da Armada (CNOCA).

Perante este historial marítimo e talvez um pouco também por influência do avô paterno, José Pacheco da Costa Salema – Capitão do Porto da Horta – foi com naturalidade que José Salema abraçou a vida de marinheiro.

Sempre controlado pelo relógio, desde pequeno que é disciplinado e não gosta nada que se atrasem e que o façam esperar.

Marinheiro já aos 18 anos de idade, o nosso Comandante considera a Marinha em termos de treino e eficiência. “A Comissão de que mais gostei foi a Hidrografia, ou seja, a produção de cartas marítimas”.

Em terra, a vinha constituia o seu ‘hobby’, e não descurando os arranjos da casa, evidencia-se como electricista.

José Salema é solitário por opção mas gosta das pessoas e dá-se bem com todos.

Divide o seu tempo entre as comunidades do Canal, privilegia a leitura – algo de que sempre gostou – e  concorda que só apreciamos verdadeiramente o que temos (a nossa terra) depois de termos saído, com a oportunidade de regressar.

“Gostava de dar a volta ao mundo no meu barco”

Estando ligado à Organização de Regatas, às Comissões, à Marinha e ao meio náutico, o Comandante Salema revela o seu sonho: “Gostava muito de participar numa regata como ‘skipper’, no meu barco!

Eu, o Dr. Tomás Azevedo e o José Gonçalves queríamos ir até às Canárias – no “Inês” – mas quando já tínhamos passado a Madeira, tivemos problemas no barco e não concluímos a viagem.

Isto para dizer que gostaria de dar a volta ao mundo mas no meu próprio barco”.

Decq Mota e João Garcia: dinamizadores mais recentes

José Salema foi Vice-Presidente da Direcção do CNH de 1999 a 2001, tendo sido o primeiro Coordenador Pedagógico dos Cursos de Navegador de Recreio do Centro de Formação de Desportistas Náuticos do Clube Naval da Horta, responsabilidade que manteve a partir de 1997 e ao longo de vários anos.

“Fiz parte de uma Direcção com o José [Dec Mota], que delira com tudo isto e se tem dedicado muito ao Clube. Ele gosta e tem tempo. Aliás, nos anos mais recentes, ele e o João Pedro Garcia foram os grandes impulsionadores da actividade e dinamismo do Clube Naval da Horta, que se tornou num barco muito grande para gerir. As pessoas não têm ideia do volume de trabalho desta casa.

O CNH tem um papel muito importante no Faial e há que haver responsabilidade, pois sabemos que alguns usam o cargo de Presidente como questão política, fazendo dele um trampolim para montar a sua capacidade de acção estratégica.

O Clube tem muitas actividades e quantas mais, melhor. O que é preciso é ter capacidade para aguentar isso tudo. E dinheiro!

Porém, tenho de destacar o enorme trabalho dos Voluntários. O que é a “Atlantis Cup - Regata da Autonomia” e o Festival Náutico sem essa gente toda que dá de si e do seu tempo ao CNH? O Voluntariado marcou sempre muito esta instituição e ajudou a fomentar e desenvolver esta gigantesca actividade”.

Em 2011, a Direcção do Clube Naval da Horta homenageou o Comandante Salema, atribuindo o seu nome à segunda embarcação de instrução da Classe Raquero.

José Salema foi e é um Sócio activo, com um permanente sentido de colaboração, a bem da actividade do Clube.

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“O Clube tem muitas actividades. O que é preciso é ter capacidade para aguentar isso tudo. E dinheiro!”

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