“A Figura do Mês” – José Victor Alves: “Gostei muito da Vela e de ensinar no CNH”

José Victor Alves fala com grande gáudio dos tempos em que colaborou com o CNH

Os (vários) anos que José Victor Fraião Alves dedicou ao Clube Naval da Horta (CNH) como membro de diferentes elencos directivos, Responsável pela Escola de Vela oriunda da Mocidade Portuguesa, Instrutor desta modalidade, integrando Comissões de Regata (Vela de Cruzeiro: Horta/Velas/Horta, “Atlantis Cup” e outras), trabalhando na organização das primeiras Semanas do Mar e das primeiras “Atlantis Cup”, estão bem presentes na sua memória. É de forma empolgada que recorda esses tempos, em que os fundos eram poucos. “A Escola de Vela dispunha de 7 Lusitos, 2 Vougas e 1 Snipe. Tínhamos muita gente a praticar”.

As aulas, ou melhor, a instrução, estava a cargo do Patrão-Mór da Capitania, com quem “se manteve sempre uma boa relação”.

Após o 25 de Abril, a Escola de Vela da Mocidade Portuguesa – que funcionava ao sábado, à tarde, com elementos do CNH – passou para a Direcção-Geral dos Desportos, tendo Francisco Gonçalves assumido a função de Coordenador de Vela e José Victor Alves sido nomeado Delegado dos Desportos no Faial.

O lote dos colaboradores incluia nomes como Francisco Gonçalves – colega bancário e desportivo – João Carlos Fraga; o irmão, José Fraga; António Luís e Luís Gonçalves.

jose victor alves corpos gerentes 1

José Victor Alves integrou várias Direcções do CNH. Este documento atesta o cargo desempenhado no mandato de 1988/1989, em que era Presidente do Conselho Fiscal. Regista-se o pormenor de ter anotado que a lista foi eleita por unanimidade

“Corpos Gerentes do CNH para o biénio 1988/1989:

Assembleia-Geral

Presidente: Dr. Fernando Manuel Machado Menezes

Vice-Presidente: Augusto Goulart Sequeira

1º Secretário: António Silveira Ferreira

2º Secrtário: Dra. Adélia Maria Martins Goulart

Direcção

Presidente: Dr. Luís Carlos Decq Mota

Vice-Presidente: Francisco José Pimentel Alves Soares

Secretário: Eng. João Cláudio Oliveira e Costa

Tesoureiro: António Manuel Campos

1º Suplente: Francisco José Medeiros Gonçalves

2º Suplente: Arq. Ana Luísa Costa Mascarenhas Veloso

Conselho Geral

1º - Carlos Freitas Garcia

2º - Fernando Pereira Nóbrega

3º - Hildeberto Manuel Soares Luís

4º - João Resendes Nunes Corvelo

5º - José Humberto Gaspar

6º - Maria de Lurdes Garcia Nunes

7º - Manuel José Lemos

Conselho Fiscal

Presidente: José Victor Fraião Alves

Secretário: António Manuel Gonçalves Soares Luís

Relator: Armando Alves de Magalhães Taborda”

Posteriormente, a formação desportiva passa das estruturas oficiais para os Clubes, tendo sido a Escola de Vela integrada no Clube Naval da Horta. E é na altura em que a formação passa a ser da alçada do CNH, que este ganha outra dimensão em termos de actividade e expansionismo.

“Éramos uns maduros que andavam por aí. Organizávamos muitas regatas. Lembro-me particularmente da Horta/Velas/Horta, uma prova muito forte. Íamos até São Jorge na Corveta e juntava-se muita gente. Embarquei nessa iniciativa juntamente com o Francisco Gonçalves, o João Fraga, o irmão, José Fraga, o Luís Gonçalves, e outros. Éramos um grupo de 10. O comércio local apoiava-nos patrocinando os prémios para as regatas que, mesmo não sendo muito valorosos, para nós, Organização, eram grandes apoios”.

jose victor alves horta velas horta

Este Ofício da Associação de Desportos Náuticos das Velas de São Jorge, datado de Outubro de 1985, atesta o papel decisivo do CNH na realização da Regata Horta/Velas/Horta

“Exmo. Senhor José Victor F. Alves

Agradecimento

Exmo. Senhor

A Direcção desta Associação vem, por este meio, agradecer reconhecidos a V. Exa a amabilidade com que nos brindou e a atenção dispensada no envio dos documentos relativos à Regata Horta-Velas-Horta.

            Enviamos a V. Exa os nossos parabéns pelo trabalho realizado, e os nossos votos para que continue esta honrosa tarefa que tem vindo a efectuar, para que tenhamos, todos nós, e, cada vez mais, um desporto melhor e mais são.

Com os melhores cumprimentos

O Presidente da Direcção

José Manuel da Fonseca”

jose victor alves comemoracoes 50 anos cnh

José Victor Alves nas Comemorações do 50º Aniversário do CNH, no ano de 1997

Fotografia de arquivo do CNH

“Também estive muito ligado ao início da Semana do Mar. Como já estava habituado a estas andanças, foi fácil. Registo com particular gosto o facto de ter sido convidado e de ter podido dar o meu contributo. Sentia-me orgulhoso do trabalho que fazia e de ser convidado para as Direcções e para estas organizações”.

José Victor Alves sustenta que, “como nesse tempo havia menos actividades do que agora, iniciativas desta natureza sobressaíam muito no meio faialense”.

As deslocações eram sempre equacionadas devido às despesas que acarretavam, tal como hoje, sobretudo porque tinham como foco as ilhas Terceira e São Miguel. “Ainda tentámos dinamizar algumas actividades com a Madalena e as Lages do Pico, mas revelou-se difícil, porque não havia quem se entusiasmasse. Sem dúvida, que no Triângulo, foi sempre o Faial a ilha que se evidenciou em termos de desportos náuticos. A Vela, de forma destacada, contava com muitos interessados, e havia um número muito significativo de particulares detentores de embarcações de vela, como as famílias “Estrela”, “Faria”, “Cunha Leite” e outros”.

jose victor alves semana mar

Recorte do jornal “Correio da Horta”, relativo ao dia 5 de Agosto de 1985, evocando os 10 anos da Semana do Mar

“Semana do Mar

Passado, presente... e futuro?

A “Semana do Mar, festividade que se realiza anualmente na Horta, completa 10 anos de existência e por isso a comissão organizadora pretende dar relevo especial às provas náuticas, já que esta Semana do Mar é inteiramente dedicada ao Mar.

Embora complete apenas 10 anos, a “Semana do Mar” tem já a sua história: a ideia surgiu quase espontaneamente em 1975, aquando de uma regata internacional, com a participação de 10 iates, iniciada em Portsmouth e tendo como meta a cidade da Horta.

Constituiu-se uma comissão com vista a elaborar o progreama para a chegada da referida regata, então denominada “Sailing Race Portsmouth-Horta”. Perante o êxito da recepção organizada, surge no ano seguinte (1976) um programa semelhante que passa a chamar-se “Semana do Mar”. Várias entidades associam-se para a concretização do projecto: Clube Naval da Horta e Comissão Regional do Turismo, com o apoio da Capitania do Porto da Horta e da Marinha Portuguesa. Acabara de nascer a “Semana do Mar”. Além das entidades já referidas, houve outras pessoas que contribuiram muito activamente para o êxito da “Semana do Mar” como é o caso de Ricardo Madruga da Costa (Presidente da Comissão Regional do Turismo na altura), João Carlos Fraga (Clube Naval), Francisco Manuel Gonçalves (Clube Naval) e Luís Gonçalves da Rosa (então Presidente da Direcção do Clube Naval).

(...).

Com o decorrer do tempo, houve outras pessoas que associando-se à iniciativa, muito contribuiram para a “Semana do Mar”. É o caso dos srs. Victor Azevedo, Elmano Azevedo, António Nogueira e José Victor Alves.

(...).

Na componente náutica terá particular relevo a regata Horta/Velas/Horta, que embora esteja ainda na sua 3ª edição, atingiu já um cunho internacional.

(...)”.

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José Victor Alves no Jantar da Regata dos Velhotes, na Semana do Mar de 1981, acompanhado por Antero Gonçalves, Jorge Gonçalves, Manuel Alberto (do “Capitólio”) e as respectivas consortes

“Patrão Alves”

Aos 83 anos de idade, este faialense, senhor de uma grande dinamismo, desde novo ligado ao desporto e ao dirigismo, olha para trás com saudade e diz: “Foram tempos muito bons. Fazia tudo com entusiasmo!”

Além dos diferentes cargos que desempenhou na área da Vela e dos Desportos, José Victor Alves foi um aguerrido velejador. “Fiz Vela – Snipe – e ganhei uns prémios. No início, andava nos Lusitos, mas depois passei para o Snipe, que veio de Lisboa. O Chaby Lara (pai), que era Capitão do Porto da Horta, e também praticava, é que trouxe o Snipe de Lisboa”.

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José Victor Alves com a esposa, a filha e familiares

“Ele sempre abraçou as coisas em que se envolvia, especialmente as que eram ligadas ao mar. Foi um grande dinamizador da Vela, enquanto Responsável pela Escola de Vela, no âmbito do Clube Naval da Horta, e através da Direcção-Geral dos Desportos. Sempre nos mostrou – a mim e ao meu irmão – o seu empenho, quer pelo tempo que dedicava, quer pelo seu entusiasmo em implementar novas iniciativas. Sempre nos incutiu o gosto pela Vela. Quando éramos miúdos, passávamos as manhãs na Escola de Vela. Havia grande euforia por este desporto.

Bastante miúda, andava todos os dias a ver quem é que queria levar-me no barco. Mais tarde, frequentei as aulas teóricas e comecei a andar sozinha nos Optimist, o que acontecia por prazer, já que nunca entrei em regatas. O meu irmão sim, desde novo, fez regatas nos Lusitos, Snipes e Vougas. Posteriormente, participou nas regatas de ‘Vaurien’. E ganhou algumas, mostrando uma certa habilidade e, que, filho de peixe sabe nadar.

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José Victor Alves foi ao seu arquivo e encontrou, entre outras papeladas, o programa de uma Semana do Mar, que pudemos observar. Os jogos eram muitos e variados

Meu pai costumava contar-nos, com orgulho, que, quando novo, era conhecido pela rapaziada como “Patrão Alves” pela facilidade com que manobrava os barcos e pelas regatas que ganhava.

Apesar de já ter alguma idade, demonstrava grande regozijo em participar na Regata dos Velhotes, que se realiza durante a Semana do Mar, chegando a vencer algumas vezes.

A Vela era um desporto muito apreciado e prova disso é que as Regatas tinham sempre imensa gente a assistir, além de que havia muita rivalidade entre os “patrões”. Testemunho deixado por Luísa Paula Alves, filha do nosso entrevistado – a quem agradecemos a disponibilidade e colaboração – que nos confidencia que o pai tem uma caixa cheia de preciosos testemunhos desse tempo, como recortes de jornais com notícias sobre regatas, Semanas do Mar, rascunhos de Actas, fotografias e outros

registos que, só alguém habituado a papéis pode, verdadeiramente apreciar e compreender, apavorando-se com a ideia de poderem vir a ser considerados lixo. Aliás, no dia em que esta entevista decorreu, José Victor Alves vinha munido com algum desse espólio – que a esposa, Liduína, também fez questão que ele trouxesse – testemunha de um passado bem presente.

Ligado ao desporto, apaixonado pela Vela e por ensinar

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“Pratiquei desporto enquanto pude, mas a modalidade em que me distingui melhor, foi na Vela”

Fotografias cedidas por: Luísa Paula Alves

José Victor Alves sempre esteve ligado ao desporto, tendo sido jogador de futebol e de basquetebol (Juniores) no “seu” Sporting. Mas já antes disso tinha feito parte da Classe de Ginástica, no Liceu da Horta, memorando que no 1º de Dezembro havia uma exibição desta Classe naquele estabelecimento de ensino. “Pratiquei desporto enquanto pude, mas a modalidade em que me distingui melhor, foi na Vela. Os meus filhos também praticaram Vela, o que me causava especial deleite”.

“Ele preocupava-se muito com a segurança dos velejadores, já que só mais tarde é que apareceram os coletes de salvação”, revela a filha.

Este antigo Dirigente vibrou quando rebobinou a fita do passado, cheia de lembranças que o fizeram viajar e esquecer a actualidade, onde os lapsos acontecem. 

“Sempre tive uma grande ligação ao mar e defendo que o desporto para as crianças é o ideal. A Vela é um dos desportos mais ricos, porque nos exige esforço físico mas, ao mesmo tempo, temos de estar atentos ao vento e às manobras do barco. Exige coordenação. Implica esforço para aguentar a vela e o leme, raciocínio rápido e incute responsabilidade, pois é preciso termos noção do que temos nas mãos: um barco! Temos de estar sempre em movimento e atentos à força e à direcção do vento, ao peso do barco, percebendo se vai equilibrado. Isso faz crescer em nós um sentimento de responsabilidade. A Vela ajuda-nos a ser homens e mulheres, levando-nos a ganhar responsabilidade nas actividades que fazemos. Faz com que a pessoa se sinta útil e capaz.

“A Vela é uma escola para a vida”

Gostei muito da Vela e de ensinar, de transmitir aos mais novos aquilo que tinha aprendido. E sentíamos-nos entusiasmados, porque eles correspondiam. Quando os alunos chegavam a terra, contavam as suas peripécias e nós, os instrutores, aproveitávamos para corrigir o que estava menos bem, mas sempre com tacto para que sentissem que eram eles a comandar.

Quando eram crianças mais pequenas, incentivava-as a unirem-se em equipa, e um grupo de quatro pegava no barco maior, o que permitia criar e envidenciar o espírito de entre-ajuda.

A criança deve ser levada à responsabilidade e à tomada de iniciativas. Essa é a grande pedagogia: dar sempre a entender a importância dela.

Por vezes, na formação, dava-lhes o leme ou a escota da Vela e depois eles próprios já se sentiam capazes de ir sozinhos. Era fundamental mentalizá-los em terra para o que ia acontecer no mar. Num barco é preciso ter sempre muita atenção.

A Vela é uma escola para a vida, porque estamos num meio que não é o nosso. Andar no mar não é a mesma coisa que andar em terra. Somos guiados pelo vento, que muda. Vem uma refrega, revira o barco e ficamos lá. Cada momento é uma vitória e sentimos uma satisfação enorme quando percebemos que estamos preparados para ultrapassar as situações com que nos possamos deparar.

Gosto de estar sempre ocupado e sinto felicidade e júbilo por ter participado em todas estas vertentes e actividades.

Compete aos adultos ajudar a formar pessoas (os mais novos) e consciências. Os desvios que por vezes acontecem não são culpa deles, mas nossa, porque não soubemos captá-los, ajudá-los a encontrar o rumo certo”.

Paralelamente a tudo aquilo que foi descrito e que denota o ardor e o vigor da entrega e envolvimento de José Victor Alves ao desporto, ao Clube Naval da Horta e ao dinamismo do Faial em diferentes sectores com predominância para o mar, há a acrescentar o facto de ele próprio se deslocar às redacções dos jornais, a fim de entregar os resultados das Provas e as informações tidas como necessárias.

A energia despendida à causa do voluntariado fica bem patente na sua vivência, marcada pela ajuda ao próximo a favor do bem comum.

Sinal dessa jovialidade, são as muitas actividades em que se envolveu. Além da sua vida profissional como professor e bancário – tendo estado muitos anos destacado no Sindicato dos Bancários – José Victor Alves também foi Presidente do Sporting Club da Horta e vereador na Câmara Municipal, tendo, ainda, integrado Direcções da Santa Casa da Misericórdia da Horta.

jose victor alves resultados desportivos

Nesta notícia respigada do jornal “O Telégrafo”, de 16 de Fevereiro de 1973, podem ler-se vários assuntos relativos à vida do CNH. Um deles prende-se com a nomeação de José Victor Alves para a Comissão de Vela e Remo desta instituição náutica

“(...).

Após serem tratados outros assuntos, procedeu-se à eleição dos corpos gerentes para o biénio 1973/1974, obtendo o seguinte resultado:

Assembleia Geral: Presidente - eng. Olavo Simas; Vice-Presidente - dr. José Peixoto de Freitas; e Secretário - Jacinto Bettencourt Ramos.

Direcção: Presidente - Luís Fernando Gonçalves da Rosa; Secretário - António Manuel Pereira de Freitas; e Tesoureiro - António Gonçalves da Rosa.

Conselho Fiscal - Presidente - Manuel Emílio Santos; Secretário: José Augusto Carreiro; e Relator - Jaime Baptista Peixoto.

Após a reunião foram tratados vários assuntos com o fim de promover a revigoração das actividades do C.N.H., ficando assim constituídas as seguintes comissões:

Pró-Sede e Relações Públicas

Carlos Manuel Freitas, Alberto Romão Costa, Rui Simões Pinto e João Ávila.

Vela e Remo

António Manuel Freitas, Franciso Manuel M. C. Gonçalves, José Victor Alves, João Rezendes Corvelo, Othon Rosa da Silveira, Fernandes Luís e Francisco Alves.

Actividades Subaquáticas e Pesca Desportiva

António Gonçalves da Rosa, José Avelar Rosa, Manuel Garcia de Vargas e César Medeiros.

Actividades Culturais e Recreativas

Lomelino Rosa Victor Almeida, José Afonso de Morais, João Amaral, Jaime Simas, José Santos e Carlos Evangelista.

A nova Direcção, presidida  pelo sr. Luís Fernando Gonçalves da Rosa – um novo cheio de boa vontade – logo no dia seguinte à sua eleição teve uma reunião, deliberando, através das respectivas comissões, promover até fins de Maio próximo as seguintes diligências: aquisição de uma sede provisória, estudo para a construção da nova sede, estudo para o possível aproveitamento do Castelo de S. Sebastião, abertura de um curso de marinheiros, aparelhação da chalupa “Ilha Azul”, início de um curso de escafandria com o apetrechamento de um barco de apoio e aquisição de material para esse fim.

Além de todo este vasto programa, o C.N.H., promoverá uma reunião festiva deconvívio entre todos os sócios, organizará uma regata de miniaturas, uma exposição de aquários marinhos e de conchas, incluindo uma exposição de fotografias submarinas”.

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