“A Figura do Mês” - Vítor Mota: “O CNH é quase como a minha casa”

Vítor Mota é Mestre da “Walkiria” há 14 anos e é com orgulho que fala da “sua” lancha

Quando se fala na mais famosa lancha baleeira do Faial e arredores – a “Walkiria” – associado está o seu Mestre, Vítor Mota. Este pescador de profissão tem uma relação especial e duradoura com esta embarcação, que outrora andou envolvida na baleação.

Tal como a “Walkiria”, Vítor Mota também conheceu essa faina, já que o avô (“Tio Aldeia Velho”) e o pai (Américo “Aldeia”) eram baleeiros.

“Andei com os dois na baleação e tratava “Tio Aldeia Velho” por “sr. Aldeia”, que, apesar de ser baleeiro, não sabia nadar”, recorda José Decq Mota, que prossegue: “E um dia eu perguntei-lhe: “como é que vai ser se acontece alguma coisa? E ele respondeu-me assim: “Ó Josezinho, enquanto houver madeira, eu vou-me agarrar!”

Para falar da sua ligação ao Clube Naval da Horta (CNH), Vítor Mota tem de recuar até 2004, altura em que esta lancha era conduzida por Carlos Fontes. “Eu andava com a “Walkiria” nas faltas do Fontes e durante algum tempo andámos juntos, mas foi a partir de 2005 que passei a ser o Mestre desta lancha. Nunca mais me esqueço que foi o Fontes quem me incentivou a tirar Carta de Patrão Local, o que não foi difícil atendendo a que já possuia Carta de Mestre da Pesca Profissional.

Nessa altura, era Presidente da Direcção do CNH, João Garcia, que me convidou, o que foi acontecendo com todos os Presidentes que se sucederam até hoje.

Comecei por fazer parte da Secção de Botes Baleeiros, tendo participado em reuniões do Património Baleeiro, na ilha do Pico em representação do CNH”.

Lancha especial

Vítor Mota considera a “Walkiria” uma lancha “especial!” E continua: “É especial pelo nome e pelo facto de ter navegado muito na caça à baleia. É verdade que o “Cetáceo” também esteve envolvido, mas sem dúvida que a “Walkiria” é uma lancha emblemática na Horta. As pessoas manifestam sempre um grande afecto por ela.

Com o fim da caça à baleia, esta embarcação ficou na posse da Portos dos Açores e foi levada para a Madalena, com o intuito de ser recuperada, o que não aconteceu.

vitor mota 2 2018

A “Walkiria” continua a sua missão de rebocar os botes baleeiros nas provas realizadas no Faial e no Pico

Só posteriormente é que o CNH apresentou uma proposta para a sua recuperação, tarefa que foi facilitada pelos apoios entretanto disponibilizados na área da conservação do património baleeiro, o que foi muito importante.

Estamos a falar de uma lancha que no presente mantém a sua missão tal como aconteceu no passado, e que é rebocar os botes baleeiros no Faial e no Pico, antes e depois das provas. Antigamente era um cenário real, que implicava o sustento de muitas famílias; hoje, a história é revivida com as Regatas à Vela e a Remos, que envolvem centenas de pessoas.

Vejo que há sempre gente interessada em andar na “Walkiria” e perguntam-me se podem ir nesta ou naquela viagem.

Muitos estrangeiros aproximam-se para ver, fazem perguntas e tiram fotografias, acontecendo o mesmo com os portugueses. Há muita curiosidade para ver como é a lancha por dentro.

Desde 2005 que dispõe de uma pequena casa de banho, o que se tornou indispensável pelo facto de ter passado a ser uma lancha com objectivos pedagógicos, já que integra projectos escolares, com viagens que envolvem muitos miúdos e professores.

Acho que foi muito importante esta ligação das escolas ao CNH no sentido de as crianças e os jovens conhecerem este passado da baleação, que é algo muito nosso e que faz parte integrante da história e cultura faialenses.

A “Walkiria” é uma lancha boa, segura e rica, pois esteve directamente envolvida nesta faina. Como tal, é fundamental que este património esteja acessível a todos, com conhecimento daquilo que representou e continua a representar para o Faial”.

Esta embarcação, capaz de atingir os 18 nós, tem lotação para 12 adultos e 2 crianças, tendo uma utilização permanente ao longo do ano, com picos de requisição por altura dos Campeonatos de Botes Baleeiros do Faial e Pico, Campeonato Regional de Botes Baleeiros e Festival Náutico do CNH.

Ligação começou pelos Botes

vitor mota 3 2018

Em 2002, Vítor Mota integrava a Tripulação do “São José” e ainda hoje quando pode e é preciso, colabora com a equipa como Oficial e tripulante

A ligação de Vítor Mota ao CNH começou pela Secção de Botes Baleeiros, no ano de 2004. “Entre 2002 e 2004 andei no bote “São José”, da Junta de Freguesia do Capelo, que era rebocado pelo “Cetáceo”, propriedade da Junta Autónoma dos Portos (actual Portos dos Açores, S.A.)”. Ainda hoje, sempre que está disponível e falta algum elemento, Vítor Mota colabora com a equipa do “São José” na posição de Oficial ou Tripulante.

“Recordo-me que o bote “Claudina”, do CNH, foi recuperado em 2000, e a seguir foi o “Maria da Conceição”, também do Clube Naval da Horta.

O primeiro ano em que fomos à América disputar o Campeonato Internacional de Botes Baleeiros foi na época de 2004/2005 e ficámos em 2º lugar.

Considero que existe alguma rivalidade no Faial no que diz respeito aos Botes Baleeiros, sinal de que levamos isto a sério.

O CNH costuma participar nas provas do Campeonato de Botes Baleeiros do Pico mas é claro que isso representa esforço, tempo e investimento, pois são viagens longas. Já o Pico apenas vem ao Faial disputar as Regatas da Semana do Mar e do Varadouro.

Este património que exite em quase todas as ilhas deve ser preservado, já que representa o legado deixado pelos nossos antepassados e uma página essencial daquilo que era a vida no Faial.

O Campeonato Regional de Botes Baleeiros – que este ano atingiu a sua 3ª edição – é bem a prova do dinamismo deste património, onde se vê muita juventude, sinal de que o futuro vai ser assegurado.

A “Walkiria” viajou para todas as ilhas onde se realizaram estas três edições. Em 2016 foi nas Flores; em 2017 na ilha de Santa Maria e este ano foi na Terceira.

vitor mota 4 2018

Tripulação da “Walkiria” na viagem realizada às Flores, em 2016, por altura do Campeonato Regional de Botes Baleeiros

Atrás: José Decq Mota e Horácio Silva; Ao centro: Vítor Mota e Carlos Silva; À frente: José Macedo

“Gosto da “Atlantis Cup” pelo convívio que se gera”

Pouco tempo depois dos Botes Baleeiros, começou a ligação com a “Walkiria”, de quem este Mestre se tornou inseparável, tratando-a como a menina dos seus olhos.

E desde há alguns anos que colabora na “Atlantis Cup - Regata da Autonomia”. “Gosto da “Atlantis Cup” e há 10 anos que faço parte da equipa. Sou o responsável pela selagem e des-selagem dos motores, mas naturalmente que aprecio o convívio que se gera entre todos os que estão envolvidos nesta importante Regata da Autonomia.

Na minha opinião, esta Prova deveria ser mais valorizada noutras ilhas, pois, sobretudo as maiores, não lhe dão o devido valor. É preciso muita orientação para organizar uma Regata desta envergadura.

vitor mota 5 2018

Vítor Mota tem sido o Responsável pela selagem e des-selagem dos motores nos últimos 10 anos da “Atlantis Cup - Regata da Autonomia”

“Passo todas as horas livres no CNH”

Vítor Mota é pescador desde pequeno e José Decq Mota sublinha que mantém a prática da pesca local e costeira de forma muito singular, ou seja, sozinho, no seu barco baptizado como “Herculano”. Este Sócio tem sido convidado por várias direcções, dando um contributo inestimável, perdendo muito tempo da sua vida a favor do Clube Naval da Horta”.

vitor mota herculano 6 2018

A embarcação “Herculano” é bastas vezes preterida a favor da “Walkiria” e do CNH

É esta actividade desenvolvida por conta própria que permite a Vítor Mota colaborar de forma tão activa com esta instituição náutica. “A minha vida é a pesca. A sorte do Clube é que eu trabalho por minha conta, por isso passo muitas horas aqui. Aliás, todas as horas livres que tenho são passadas aqui a colaborar no que posso e sei. O CNH é quase como a minha casa. Faço isto porque gosto do Clube, do qual sou Sócio há largos anos.

No mar, a “Walkiria” está por minha conta; em terra, a manutenção da lancha é feita por mim e pelos funcionários da “casa” afectos a esta área.

Também colaboro na manutenção dos botes e ajudo a varar outras embarcações”.

“O CNH está passando por muitas dificuldades”

Volvidos 14 anos, o Mestre da “Walkiria” acusa o cansaço próprio de quem deu o seu melhor ao longo de tantas épocas e gostava que aparecesse alguém que continuasse o trabalho que tem vindo a desenvolver.

“Esta Direcção termina o seu mandato em Dezembro próximo e só aceito continuar a dar a minha colaboração relativamente à “Walkiria” se não houver alguém que assuma estas funções. É claro que mesmo que haja alguém, posso sempre dar uma ajuda.

Sinto-me cansado e embora alguns reconheçam o nosso trabalho e apoiem o Clube, como é o caso da Câmara Municipal, a verdade é que o Governo deveria ajudar mais.

O CNH desenvolve muitas actividades, cuja continuidade carece de fundos e desde há anos que esta “casa” vive uma situação difícil, devido à falta de dinheiro, onde se incluem apoios em atraso. Como tal, tudo o que é feito é com muita dificuldade.

O Clube Naval da Horta com o histórico e a importância que tem, já merecia ter umas instalações dignas.

O Festival Náutico, que cada vez está mais dilatado no tempo, dá muito trabalho. A preparação é deveras exigente e a sua concretização só é possível com o trabalho dos Voluntários, sector em que vão aparecendo caras novas com vontade de colaborar, o que é bom no sentido de irem substituindo aqueles que já se sentem cansados, depois de terem dado de si ao longo de décadas”.

“O mais difícil é arranjar um Presidente”

vitor mota 7 2018

José Decq Mota e Vítor Mota: a confiança mútua, selada por uma amizade antiga, fazem com que ambos “esqueçam” as suas vidas a favor do CNH

“Na minha opinião, o CNH não vai fechar as portas, mas talvez deva reduzir a actividade, no sentido de ter menos custos.

O ideal seria manter este dinamismo e, se possível, intensificar, pois as actividades náuticas são essenciais na formação das camadas jovens e o papel do CNH é insubstituível na ilha do Faial. Era bom que se tivesse isto em conta e que quem está disponível desse o seu apoio ao longo de 2 anos, que é o tempo de duração de cada mandato. Acredito que há pessoas capazes disso. O mais difícil é arranjar um Presidente, pelo que seria muito bom se o actual continuasse. Mas ele sabe o que está fazendo”.

Rainha dos Mares dos Açores - sua origem

vitor mota walkiria 8 2018

Foi a lancha a gasolina mais rápida de todo o Arquipélago, atingindo velocidades superiores a 15 nós, um feito para a sua época

Foi mandada construir pela Armação Baleeira “Reis & Mendonça Lda”, um consórcio marítimo entre Francisco Marcelino dos Reis, industrial do continente, que residia na área do Estoril, e o professor Rui de Mendonça, que era também advogado de provisão na Vila das Velas. Como bom jorgense, era amante de música, tendo sido considerado um “Wagneriano”. Por tal razão, deu aos seus filhos os nomes de Wagner, Weber, Walkiria e Isolda. O projecto de construção foi da autoria do genial construtor naval. Manuel Inácio Nunes, natural de Santo Amaro da ilha do Pico, que em 1898 já possuia um estaleiro naval no rio, Sacramento, estado da Califórnia, era o Nunes Boatyard.

Com um famoso arquitecto naval, foi construída por um prestigiado construtor naval, os famosos irmãos Gambão das Velas: José e Manuel, que era especialista nas artes da madeira, sendo um excelente serralheiro, torneiro fundidor e aquele que geria e projectava.

Segundo informação verbal do Sr. Nuno Álvares de Mendonça, nascido nas Velas em 1923 e filho do co-proprietário Rui de Mendonça, o seu primeiro Mestre (Arrais) foi Manuel Cabral das Velas e o maquinista era João Viegas, também das Velas e pai de Adolfo Viegas, seus tripulantes enquanto esteve matriculada nas Velas.

Foi a lancha a gasolina mais rápida de todo o Arquipélago, atingindo velocidades superiores a 15 nós, um feito para a sua época. Quando o antigo paquete a vapor “Carvalho Araújo”, largava do porto das Velas rumo ao Cais do Pico onde escalava, depois de ter atingido a velocidade plena de cruzeiro, a “Walkiria” rodeava o navio em marcha passando pela proa e pela popa. Nenhuma outra lancha conseguiu tal proeza. Esta virtude tinha um senão, consequente da velocidade: apresentava um elevado consumo de combustível, gastando três latas de gasolina, cerca de 60 litros por hora, no tempo em que a gasolina tal como o petróleo eram embalados em duas latas de 20 litros por caixa, da marca “Sunflower” ou “Mobil Saconia Vacum”.

O excessivo consumo de carburante desgostou o gerente Rui de Mendonça, que a cedeu para a Ilha do Faial.

A lancha “Walkiria” bem como a “Maria da Conceição” e cerca de 4 botes baleeiros vieram para o Porto da Horta, integrando a frota baleeira de “Reis & Martins Lda”, consórcio de Joaquim Martins da Horta e Francisco Marcelino dos Reis, com sede social na Horta.

Do Porto da Horta num domingo de Julho, embarcaram elementos de tripulação a bordo de duas lanchas a motor: a “Tistle” da “Fayal Coal”, e a “Elite”, da “Bensaúde & Cª.” para conduzirem as lanchas e os botes para o Porto da Horta.

Com a tripulação embarcou o gerente da Armação “Joaquim Reis”. Ao embarcarem no porto das Velas, tiveram que arriar as embarcações para o mar, não recebendo qualquer ajuda dos vários jorgenses que não viam com bons olhos a saída da sua frota.

Entre a tripulação encontrava-se Mestre João Luís da Silva Jr., que anos mais tarde se tornou armador da Armação Baleeira “Reis & Martins Lda”, que contou que a “Walkiria” teve como arrais Mestre Francisco Silva, “Boga das Angústias” e o seu irmão António Boga, que era o maquinista.

Foi comprada a “Reis & Mendonça, Lda” no dia 12 de Maio de 1938, a lancha e a palamenta V. 210-TL denominada “Walkiria”, com motor a gasolina, com meios de propulsão a vela e a remos, pelo valor de sessenta e dois mil, setecentos e oitenta e cinco escudos e oitenta e nove centavos, que se destinava ao tráfego local, no porto de Santa Cruz e auxiliar da pesca da baleia.

Foi matriculada na Capitania do Porto da Horta aos 15 dias do mês de Julho de 1938 a lancha “Walkiria”, com motor a gasolina, vela e remos, de matrícula V-210-TL. Era Capitão do Porto, José da Costa Salema, Capitão de Mar e Guerra. Foi registada na Capitania, pertencendo única e exclusivamente a Francisco Marcelino dos Reis, súbdito português residente em Lisboa. A lotação que lhe foi atribuída: bom tempo: 21, mau tempo: 8.

Mestre João Luís da Silva Jr., antigo coordenador da “Reis & Martins”, que ao longo de três décadas colaborou com a Armação Baleeira até à sua extinção e que foi seu Arrais por várias vezes, testemunhou que sendo a lancha de alto andamento, era ela que “rodeava as baleias pela cabeça” para voltarem para os botes, isto é, quando as “baleias” nadavam para longe das costas das ilhas.

Como Mestres e Maquinistas conheceu dos melhores e foram vários, entre eles: depois de Mestre Francisco “Boga” (Francisco Silva das Angústias) e o Mestre Feijó (Jaime da Rosa Lopes) entre 1960-1964, Mestre Mário Cabrito (Mário da Rosa Serpa), Mestre António Prazeres (1976-1977), Mestre “Carvalho” (José Eduíno da Silveira, do Salão). Mestre Francisco Elias, que era da Candelária do Pico, terá sido um dos seus últimos Mestres.

Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.