Pesca Desportiva de Barco do CNH

João Freitas, Luís Carlos Rosa e José Melo falaram da Pesca Desportiva de Barco e do que poderá ser melhorado

O interesse e o gosto em comum fazem com que grupos de amigos se juntem para ir pescar de barco. Subjacente está a vontade de conviver e quebrar as rotinas do dia-a-dia, mas a verdade é que ninguém gosta de perder.

Por isso, a competitividade mistura-se com o lazer e a diversão. Os Campeonatos de Pesca Desportiva de Barco do Clube Naval da Horta (CNH) são sempre muito disputados, mas, paralelamente à competição, também há amizade, camaradagem e convívio.

O Gabinete de Imprensa do Clube Naval da Horta (CNH) entrevistou dois elementos das equipas que se encontram em 1º e 2º lugar, respetivamente João Freitas (embarcação “Xark”, capitaneada por Vicente Barreto, e José Melo, skipper da embarcação “Melo”), com o intuito de perceber o que move estes amantes da pesca lúdica e as dificuldades com que são confrontados os praticantes deste desporto assumidamente caro e tido, por alguns, como concorrência desleal.

“Há um entusiasmo do princípio ao fim do Campeonato”

Gabinete de Imprensa do CNH: A pesca surge quando e como?
João Freitas: Há sensivelmente 10 anos, através de um grupo de amigos que tem este interesse em comum. Estamos a falar de um desporto, mas todos procuram dar o máximo e o seu melhor, pois ninguém gosta de perder. Mas o que é facto é que há um bom espírito desportivo nesta atividade lúdica e recreativa, que constitui uma oportunidade para convivermos.

Gabinete de Imprensa do CNH: É decisivo haver um amigo que tenha barco...
João Freitas: Sim, neste caso é o “Xark”, capitaneado pelo Dr. Vicente Barreto, mas cada um tem a sua função a bordo e complementam-se umas às outras. É preciso conhecer e escolher o local onde se vai pescar, o aparelho a usar, a direção do vento, etc.
 
Gabinete de Imprensa do CNH: Todas as provas são pontuáveis?
João Freitas: Sim, todas contam para a classificação final e é por isso que a regularidade se torna tão importante. Há um entusiasmo do princípio ao fim do Campeonato, que este ano está a ser liderado pelo “Xark”.

Gabinete de Imprensa do CNH: O que é que caracteriza a tripulação do “Xark”?
João Freitas: A boa disposição e a amizade.

Gabinete de Imprensa do CNH: Depois de tantos anos de pescarias, pode dizer-se que está tudo aprendido?
João Freitas: Não. Há uma experiência cumulativa, mas posso afiançar que não há campeonatos iguais e que a classificação final é algo que se mantém em aberto até à realização da última prova, pois todos desconhecemos como irá ser o desenrolar da etapa seguinte.

Gabinete de Imprensa do CNH: Como avalia a organização do Clube Naval da Horta?
João Freitas: O Clube tem mantido uma boa organização ao longo dos anos e é notório o esforço no sentido de haver o maior número possível de participantes, o que é fundamental para suscitar a competição. Neste Campeonato somos cerca de 8 embarcações, mas era benéfico e pertinente haver mais por prova.

“O que deve prevalecer é o gosto, a amizade e o convívio”

Gabinete de Imprensa do CNH: O Clube oferece um lanche em cada uma das provas, mas o que é que poderia fazer mais no sentido de cativar novos adeptos? O Diretor desta Secção (Luís Carlos Rosa) já apresentou uma proposta à Direção – que se encontra em estudo – e que tem por base oferecer um Voucher por prova, a cada embarcação, contendo uma determinada quantia de litros de gasóleo, cujo valor seria descontado no momento do abastecimento. Isto pode ser visto como uma forma de premiar aqueles que levam este desporto a sério e que mais participam?
João Freitas: A ideia em si é boa, mas sou defensor de que, mesmo que sejam poucos os que participam, o devem fazer por gosto e não para beneficiar disto ou daquilo. Penso que isso poderá perverter o espírito inerente a este desporto, que não nego que seja caro, mas a verdade é que hoje em dia todos são. Se eu quero participar nesta ou naquela atividade, já sei que tenho de fazer um investimento. Na minha ótica, o que deve prevalecer a tudo é o gosto, a amizade e o convívio. 

joao freitas jose melo 1 2017
João Freitas e José Melo: dois amantes da pesca lúdica no Faial, que garantem não haver retorno económico neste desporto

Gabinete de Imprensa do CNH: O calendário poderá ser um entrave?
João Freitas: Não acredito, pois as datas das diversas provas do Campeonato são propostas pelos próprios skippers. Tudo se conjuga para que a prática da modalidade seja facilitada e adequada aos ritmos de vida dos pescadores.

“Na pesca lúdica não há retorno económico”

Gabinete de Imprensa do CNH: Embora estejamos a falar de pesca lúdica, a verdade é que também há regras a cumprir. O que é feito ao pescado capturado?
João Freitas: Se estamos a falar de pesca lúdica, só pode haver dois objetivos: diversão e pescar por gozo. Aqui não há retorno económico. O pescado de cada um é para consumo próprio ou para oferecer a algum amigo ou, até mesmo a alguma instituição de solidariedade social.
Em cada prova há um licenciamento por parte da Secretaria da tutela, sendo um dia livre, ou seja, não há limite de pescado. No entanto, devo ressalvar que raramente se captura mais do que aquilo que está previsto por lei, havendo o cumprimento do que está estipulado. Aliás, nestes Campeonatos do Clube Naval da Horta os pescadores lúdicos muitas vezes nem sequer atingem o montante que é permitido.

Gabinete de Imprensa do CNH: Não há negócio encapotado?
João Freitas: Nenhum daqueles que vai pescar por lazer se revê nas críticas de que a pesca lúdica anda a roubar mercado à pesca profissional e os registos comprovam isso mesmo. De acordo com um estudo publicado em 2013, a pesca lúdica (que inclui a pesca apeada, a submarina e a embarcada) representa apenas 4% do total do pescado descarregado nos Açores. Portanto, não é o pescador lúdico que vai pôr em causa a sustentabilidade do sector e fazer com que o rendimento do pescador profissional baixe. Em abono da verdade, devo frisar que estes 4% representam, em termos de tonelagem de capturas, um total inferior àquele que a pesca profissional rejeita, ou seja, põe no lixo. A pesca lúdica não deve, jamais, constituir uma atividade paralela. Era bom que quem a ataca tivesse conhecimento da realidade tal como ela é. Enquanto a pesca profissional é subsidiada, a lúdica é totalmente suportada por quem pesca, além de que é sazonal. Aqueles que se dedicam à pesca lúdica apenas vão ao mar, em média, 13 a 19 dias por ano. Quem nos critica, devia era estar preocupado com o sector.

“Pescadores lúdicos devem criar associação”

Gabinete de Imprensa do CNH: Se estas duas pescas coexistem desde sempre e a crise no sector é algo mais recente, por que razão é que a pesca lúdica está a funcionar como o bode expiatório?
João Freitas: Digo sempre que os pescadores lúdicos são atacados por não estarem organizados em associação.

Gabinete de Imprensa do CNH: O que é que falta para que essa associação seja uma realidade?
João Freitas: O facto de as 3 classes (pesca apeada, submarina e embarcada) serem muito diferentes entre si e envolverem 3 grupos de interesses aos quais é necessário chegar, o que nem sempre é fácil, tem dificultado este processo. Contudo, é uma situação que está a ser trabalhada.

Gabinete de Imprensa do CNH: Tem havido um aumento do número de pescadores?
João Freitas: O número de pescadores profissionais não diminuiu, ao passo que os lúdicos aumentaram. Tem-se assistido a um aumento do número de licenciamentos.

Gabinete de Imprensa do CNH: O que é que deveria ser mudado na pesca profissional?
João Freitas: Deveria haver redução, requalificação e reconversão do esforço de pesca. Já foi feito noutros países, como por exemplo na Noruega, com resultados encorajadores quer ao nível da rentabilidade dos próprios pescadores, quer ao nível da sustentabilidade dos stocks.
Manter indefinidamente esta política de criação de subsídios para tudo e mais alguma coisa resultará, invariavelmente, na delapidação dos stocks restantes ao incentivar o aumento de capturas em ecossistemas já sujeitos a grande pressão.
Penso que, com o tempo, tornar-se-à inevitável a conversão destes mecanismos subsidiários em investimentos na requalificação profissional dos pescadores, em sistemas de apoio à empregabilidade daqueles que abandonem o sector e até em mecanismos de apoios financeiros diretos à cessação da atividade daqueles que optem por essa via.

“Pesca lúdica representa aproximadamente 5 milhões de euros”

Gabinete de Imprensa do CNH: A pesca lúdica também tem peso económico na Região. Isso é tido em conta?
João Freitas: Se quisermos falar em números, posso revelar que a pesca lúdica representará aproximadamente 5 milhões de euros, o que é sinónimo de um peso considerável na economia açoriana. Este valor não é de desprezar.

Gabinete de Imprensa do CNH: Estamos a falar de uma associação que junte os pescadores lúdicos de todas as ilhas. Está disponível para colaborar com a mesma?
João Freitas: Sim, estou disponível para colaborar diretamente com um organismo dessa natureza e, que, reunindo o máximo de praticantes das 3 vertentes da pesca recreativa das 9 ilhas dos Açores, tentará criar uma voz que os represente junto da tutela.
A escolha desse dirigente recairá sobre os associados. Seja como for, é demasiado precoce estar a pensar ou a falar disso, pois ainda há muito a fazer.

joao freitas jose melo 2 2017
João Freitas está disponível para colaborar com a associação de pescadores lúdicos que venha a ser criada nos Açores

Composição da equipa do “Xark”:
1.Vicente Barreto
2.João Freitas
3.Michael Leandro
4.Manuel Lemos
5.João Bulcão

“As provas funcionam como um ponto de encontro”

Gabinete de Imprensa do CNH: A pesca aparece como?
José Melo: Desde os 4/5 anos que pesco com os meus pais e o meu avô, ou seja, o gosto pela pesca vem desde pequeno, sendo que a nível de Campeonatos este é o 2º ano em que participo nas provas do CNH.

Gabinete de Imprensa do CNH: Porquê a pesca e não outro desporto?
José Melo: É das atividades de que mais gosto. Como tenho barco, juntei três amigos e formámos uma equipa, chamada “RapaTeam”. As provas funcionam como um ponto de encontro para nós. Neste Campeonato, a “Melo” é a embarcação que tem a média de idades mais baixa.

Gabinete de Imprensa do CNH: O que é que move estes três amigos?
José Melo: Divertirmo-nos todos juntos. A classificação é um acrescento e funciona como uma motivação para darmos sempre mais e melhor. Com os diferentes horários profissionais de cada um dos membros da equipa, as provas de pesca desportiva têm sido uma excelente opção para nos juntarmos e aproveitamos para fazer aquilo de que gostamos.

Gabinete de Imprensa do CNH: Tem sido uma época diferente?
José Melo: O CNH tem dado o seu apoio e sido prestável. Devo referir a realização do caldo de peixe, uma iniciativa do Luís Carlos Rosa, que foi muito apreciada e para o qual os pescadores contribuíram com o seu pescado. Como tal, deve haver mais iniciativas do género e sei que já estão previstas.

Composição da “RapaTeam”:
1.José Melo
2.Jorge Figueiredo
3.Flávio Mota
4.Sário Rosa