“Conhecer os Nossos Atletas” – José Gomes: “A Canoagem exige muita concentração por causa do equilíbrio”

“Foi amor às primeiras pagaiadas”

Há 3 anos experimentou a Canoagem com o intutito de acompanhar o filho (Pedro Gomes), mas o gosto pela modalidade ganhou de tal forma intensidade que já adquiriu três caiaques, sinónimo de um investimento pessoal significativo. Confessa que o equilíbrio é o mais difícil neste desporto, o que é possível de alcançar com concentração, treino e um bom caiaque. Apresentamos José Gomes, Veterano A, da Secção de Canoagem do Clube Naval da Horta (CNH), que, no seu 1º Regional, realizado em 2017, na ilha Terceira, conquistou algumas medalhas.

“Experimentei e fiquei fã deste desporto, pois sempre gostei muito do mar. Meu pai era faroleiro e eu passava as férias no calhau e com amigos na pesca. Portanto, o contacto com o mar foi uma realidade sempre presente na minha vida.

Considero que, fisicamente, a Canoagem não é uma actividade pesada, embora exija treino, o que tento manter com regularidade”.

A corrida faz parte das preferências deste atleta, que é adepto do ‘trail’. “Em 2017, fiz a prova de ‘Trail Run’, de 42 quilómetros, e estou a pensar fazer novamente este ano. Correr ajuda bastante na preparação de cardio, também importante para a Canoagem”.

O ginásio é outra componente do plano de treinos desta modalidade – que até é oferecido pelo CNH aos canoístas, mediante acordo com um Ginásio local – mas a actividade profissional de José Gomes não lhe permite essa frequência. Nesta mesma vertente, o próprio Clube Naval da Horta dispõe de um mini-ginásio para treinos em terra, o que ajuda em termos de preparação física.

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“Ir para a água relaxa-me fisicamente e faz-me sentir bem”

Lacunas

José Gomes enaltece a competência e o ‘know-how’ dos Treinadores (Hugo Parra: Competição e David Mila: Iniciação), bem como o empenho da Directora da Secção (Susana Rosa), mas diz ser impossível passar por cima das muitas lacunas existentes. “A Secção funciona num contentor a precisar de reforma, onde está montado o mini-ginásio, servindo, ainda, como armazém para grande parte dos caiaques e restante material. O equipamento, na sua quase totalidade, está muito ultrapassado, como é o caso dos caiaques (já bastante desgastados pelos anos e pelo uso), das pagaias e dos coletes, que precisam de ser substituídos devido à intensa utilização”. 

Além do material, este canoísta também gostava que “houvesse mais atletas, o que permitiria competição e, consequentemente, evolução”.

“Por causa da idade, este ano já passo a ser Veterano B, mas a verdade é que continuo a não ter contra quem competir no meu escalão. Por isso, o que faço é tentar melhorar os tempos, pois, competição propriamente dita, só acontece nos Campeonatos Regionais (apenas há um por ano). Ainda só participei num Regional – na Terceira – em que fiquei em 2º lugar na Velocidade e em 3º lugar na Prova de Fundo (5 mil metros), mas deu para perceber que, tanto na Terceira como em São Miguel, as hipóteses de crescimento são maiores pelo facto de haver mais clubes, que realizam provas entre si. Naturalmente que as instalações e o material nessas ilhas são, de longe, muito melhores do que aquilo que temos no Faial”.

Apesar de estarmos a falar de deslocações inter-ilhas e a locais já muito conhecidos, José Gomes garante que “toda a gente gosta de ir”, realçando o convívio com atletas de outras ilhas e as amizades que se estabelecem.

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“Era bom que houvesse mais canoístas no meu escalão, possibilitando a competição”

Material novo/semi-novo = incentivo e segurança

Este canoísta defende que a existência de material novo ou semi-novo funcionaria como “um incentivo não só para os que já praticam, como para cativar novos atletas”. Além disso, frisa, também, a questão relacionada com a segurança.

“Os caiaques mais modernos, como é o caso dos ‘surfsky’, já estão preparados para enfrentar o mar e a ondulação e têm a vantagem de, sempre que reviram, conseguirem libertar autonomamente a água que entrou à medida que se deslocam. Estamos a falar de aspectos fundamentais e que fazem toda a diferença, se tivermos em conta que o maior receio que um canoísta enfrenta é precisamente o de revirar. Tudo porque, no caso dos caiaques antigos – e temos muitos, totalmente ultrapassados – sempre que reviram, o canoísta necessita de ajuda para a embarcação se voltar e para eliminar a água que entrou.

A acrescentar a tudo isto, há, ainda, o perigo de os mais antigos poderem afundar-se, o que já não acontece com um ‘surfsky’. Claro que tudo isto constitui um estímulo tanto nos treinos como nas provas, pois todos sabemos que uma coisa é ter equipamento obsoleto que não ajuda, e, outra, é possuir material novo ou semi-novo que, por si só, alicia quem pratica e até mesmo quem experimenta, visando a continuidade. Todos sabemos que quem se sente mais seguro tem maior à vontade, podendo sobressair em termos de desempenho”.

“Canoagem do CNH evoluiu”

Mesmo no actual cenário – falta de equipamento e de instalações – José Gomes considera que “a Canoagem que se pratica no CNH evoluiu nos últimos anos” e atribui essa evolução à divulgação e ao trabalho levado a cabo.

“A prova de que o nosso esforço produziu resultados, é o facto de o Clésio ter sido Campeão Regional na Terceira, no ano passado. Aliás, ele é o melhor canoísta do Clube Naval da Horta, constituindo uma referência para mim.

O CNH teve uma  boa prestação neste Campeonato Regional – onde estavam os melhores canoístas dos Açores – e conseguiu várias medalhas. Na Terceira, penso que ninguém estava à espera de que os atletas do Faial alcançassem os resultados obtidos. Foi uma surpresa e todos nos elogiaram. Fomos bem tratados.

Recordo-me que, neste Campeonato Regional de Canoagem, os caiaques estavam todos alinhados e que os das outras ilhas, sobretudo Terceira e São Miguel, eram quase todos modernos, com bom aspecto, ao passo que os do Faial eram velhos, remendados, esfolados e desactualizados. 

Mas, mesmo assim, demos o nosso melhor e chegámos ao pódio. Isto demonstra, sem dúvida, a grande vontade que temos de trabalhar, já que as condições, como se percebeu, estão muito longe das ideais.

Naturalmente que nesta evolução destaco a experiência e o ‘know-how’ do Hugo Parra (Treinador), que fez canoagem desde miúdo. Embora fosse em rio, as bases são as mesmas”. 

Os convites feitos a outras pessoas para aderir à Canoagem, também pesaram neste incremento da modalidade. “Sugeri ao meu miúdo que falasse deste desporto a outros da idade dele e sei que essas conversas deram frutos, pois antes éramos 6/7 e agora somos mais de 12. E tenho observado que os mais novos têm muito jeito para a Canoagem, adaptando-se perfeitamente. Já reparei que quando se começa mais novo neste desporto, se ganha equilíbrio mais rapidamente.

O facto de termos dois Treinadores também é importante para os atletas se sentirem apoiados e seguros”.

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“O ‘surfksy’ permite estabilidade, segurança e confiança”

Instado a fazer uma comparação entre o antigo (Carlos Pedro) e o actual Treinador, José Gomes responde que “são estilos diferentes”. E prossegue: “O Carlos Pedro era bom treinador e mais exigente, enquanto que o Parra tem mais experiência, porque foi atleta desta modalidade durante muitos anos.

O Carlos Pedro e eu já éramos amigos, foi meu colega de trabalho, e claro que teve influência na minha vinda para a Canoagem. Como ele era treinador e já nos conhecíamos, falei com ele e um sábado levei o meu filho a experimentar e aproveitei para acompanhá-lo. Posso dizer que foi amor às primeiras pagaiadas”.

Evidentemente que o bom tempo do Verão apela ao mar, daí os treinos serem mais agradáveis do que no Inverno.

“Quando há bom tempo, fazemos expedições e treinos passando por detrás do Monte da Guia. Contamos com mais gente e com treinos mais longos.

Tenho pena de não poder treinar mais, por causa do trabalho, mas, sempre que posso, faço treinos fora do calendário. Aos domingos, quando encontro alguém que queira acompanhar-me, gosto de treinar. Antes do Regional de 2017 fiz vários treinos com o Clésio e os resultados foram muito bons.

Sem dúvida que cansa, mas primeiro fazemos aquecimento. Começamos com um ritmo calmo e vamos intensificando. A Canoagem é um desporto que exige muita concentração por causa do equilíbrio. Se não estás atento, quando dás por ti, já reviraste”.

Investimento por conta própria

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“Decidi apostar nesta modalidade, por mim e pelo meu filho”

José Gomes começou a praticar no “Azores”, um caiaque largo e pesado, que, por ser pesado, não tinha tanta tendência a revirar, mas, também condicionava a velocidade.

Depois, transitou para um caiaque mais leve, que, atingindo maior velocidade, era mais propenso a revirar, o que representava menos estabilidade. E é quando o mar está mais mexido que se sente melhor a instabilidade.

“Como o maior pavor de qualquer canoísta é o caiaque revirar”, todos gostariam de ter um ‘surfsky’ como tem o Clésio, o único que o CNH adquiriu até à data.

Este Veterano A decidiu atenuar as lacunas acima expostas e investiu por conta própria. “Adquiri dois ‘surfsky’ no fim de 2016 – um novo e um semi-novo – assim como dois coletes novos. Decidi apostar nesta modalidade, por mim e pelo meu filho, e sinto que valeu a pena, pois deixei de revirar, tenho estabilidade, maior conforto e segurança, o que também me deu mais confiança”.

Nos Açores, ainda se encontra pouco disseminada a filosofia de cada um investir no seu próprio equipamento, o que é prática recorrente no Continente português e até mesmo noutros países.

A roupa utilizada nos treinos é da responsabilidade de cada canoísta, passando a aposta por camisolas térmicas e calças de ‘lycra’.

Bom ambiente

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“Há amizade e inter-ajuda entre os canoístas”

Na fotografia: Angelina, Carla, José Gomes e Lucas

Este atleta enfatiza “o bom ambiente e a camaradagem” que existe entre todos na Secção de Canoagem do CNH, prevalecendo a amizade.

“Nas Provas, naturalmente que é cada um por si, mas nos treinos há inter-ajuda. O saldo é sempre muito positivo e fazemos um convívio no final de cada Prova Local. A Organização é da Directora, mas todos contribuem, incluindo o próprio Clube, destacando-se a presença de alguns Responsáveis, como é o caso do Presidente (José Decq Mota) e da Vice-Presidente (Olga Marques), sentindo-se o apoio do CNH.

Os Pais também são sempre convidados a participar nestes convívios, e comparecem, sendo uma boa maneira de os envolver nas actividades dos filhos e na vida desta instituição náutica.

A relação dos canoístas com a Susana é boa e sempre que solicitamos algo, ela anota e tenta resolver. Nesse sentido, foram feitos alguns melhoramentos no espaço dedicado à Secção de Canoagem, com a colocação de suportes para guardar uma parte dos caiaques.

Também foram adquiridas mais algumas peças de treino para o mini-ginásio”.

Angariar fundos para material

José Gomes adianta que já sugeriu à Directora da Secção organizarem actividades com vista à angariação de fundos para aquisição de material, designadamente caiaques (um caiaque novo, em carbono, ultrapassa os 2 mil euros).

“Poderíamos pensar em comprar equipamento semi-novo (como ‘surfsky’s’ em carbono, que, apesar de custarem um pouco mais do que os outros compensa, por serem mais leves e resistentes) que saía mais em conta e representaria uma grande melhoria e evolução para os nossos atletas.

É claro que também podemos encontrar patrocinadores locais, mas, além disso, sei que alguns pais têm vontade e disponibilidade para ajudar nesse sentido. Aliás, penso mesmo que há quem gostaria de comprar um caiaque novo ou semi-novo para o filho ou filha praticar. É tudo uma questão de conversarmos e pôrmos em marcha um plano de trabalho.

Outra questão importante e que representa pouco dinheiro, seria todos os atletas da Secção terem ‘t-shirt’s’ personalizadas, o que até funcionaria como uma forma de promoção do CNH fora do Faial. Podemos ser levados a pensar que se trata de pormenores, mas, na realidade, têm um peso determinante na auto-estima de quem representa este Clube com orgulho”.

‘Trail’ e Canoagem

A corrida sempre fez parte da vida deste atleta que, tal como na Canoagem, também aqui aprecia correr na companhia de alguém, o que é mais desafiante.

“Já no Liceu, na Escola Domingos Rebelo, em São Miguel, fazia velocidade. É algo de que gosto bastante”.

Com a moda do ‘Trail’, juntou-se à turma dos aficcionados, “que são cada vez mais (eles e elas)”, assevera.

Depois de um interregno na corrida, foi pela Canoagem que José Gomes voltou a correr, precisamente por causa da preparação física. “Voltei a correr, mas não com a regularidade que gostava e também não faço todas as provas do ‘Trail Run’. Contudo, este ano vou participar pela terceira vez no “Açores Trail Run”, que será a 26 de Maio próximo”.

No âmbito das comemorações do centenário do Peter Café Sport – assinalado a 25 de Dezembro deste ano – este atleta está a pensar fazer, em Julho, a Travessia da Terceira para o Faial em Canoagem, na vertente de K2 (embarcação para duas pessoas).

Esta será uma travessia para fazer em três dias, dividida por várias etapas: Terceira/São Jorge, São Jorge/Pico e Pico/Faial.

Na organização desta aventura, está o terceirense Eliseu (Veterano A), “o melhor canoísta dos Açores”.

Inicialmente, José Gomes ia ter como parceiro Francisco Garcia, antigo Treinador da Secção de Canoagem do CNH, que mantém o “bichinho” pela modalidade. “Ele tem vários caiaques e continua ligado a este desporto. Aliás, acho que todos os que experimentam a Canoagem ficam ligados para sempre, mas, infelizmente e por motivos profissionais, ele já não poderá participar, pelo que terei de encontrar um novo parceiro”.

Esta dupla adquiriu um caiaque (K2) usado, tendo contado com o apoio da “Sipre Kayaks” (Esposende) que ofereceu dois coletes novos, e da “Nelo - M.A.R. Kayaks, Lda.”, (Vila do Conde), que fabricou dois saiotes propositadamente para esta embarcação, que já não se encontravam disponíveis no mercado, tendo em conta a idade do caiaque. Esta empresa ofereceu, ainda, ‘gel coat’ para reparação do mesmo.

Outras paixões

jose gomes 6 cedida por jose gomes

A Canoagem também permite namorar

Andar de moto, é outra das paixões deste atleta do Clube Naval da Horta, que revela ter duas de grande cilindrada.

Ainda no mundo das duas rodas, destaque para a prática do BTT (Bicicleta Todo-o-Terreno), com a particularidade de possuir igualmente duas bicicletas.

“Gosto de pescar de pedra e às vezes vou com o meu filho”, desvenda José Gomes, que, sempre que tem tempo, ainda se dedica à jardinagem e a namorar.

“O difícil nisto tudo é encontrar tempo”, admitindo que, pela Canoagem, deixa de fazer outras coisas, embora valha a pena. “Sinto falta quando não vou a um treino. Ir para a água relaxa-me fisicamente e faz-me sentir bem”.

Fotografias cedidas por: José Gomes

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