João Silva: “Sinto necessidade de dar algo à sociedade na luta contra as dependências”

“A Volta aos Açores Contra as Dependências” começou em Maio e termina em Agosto 

A necessidade de dar um testemunho na primeira pessoa sobre a experiência vivida, alertando para os perigos das dependências e incentivar à prática de estilos de vida saudáveis através da Vela, levaram o faialense João Silva a lançar-se ao mar no seu “Twisted”. O Projecto, “Volta aos Açores Contra as Dependências”, começou a tomar forma quando este jovem saiu da Clínica em Vila Real, onde esteve em recuperação, na sequência de um problema de adicção (álcool).

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“A vida no mar assemelha-se à luta contra a adicção”

“Uma morte, um divórcio, uma dívida. É assim com toda a gente. São situações destas ou similares que levam ao consumo, de que nos tornamos dependentes. A dependência é algo que está sempre presente e basta um problema para cairmos”.

Depois de ter percorrido esse caminho, obscuro e difícil, João Silva tem uma sensibilidade especial para detectar potenciais danos. “Apercebo-me de que muitos se encontram numa zona de perigo eminente, não tendo noção dessa situação. Quem consome álcool todos os dias, está a um passo de cair. Poderá ainda não ter desgovernado a sua vida, mas encontra-se na faixa amarela, muito próximo de entrar na vermelha”.

E é a pensar naqueles que estão à beira do precipício, que João Silva embarcou neste Projecto, relatando a experiência de quem viveu o problema por dentro sabendo, por isso, o que diz.

“Se eu conseguir ajudar uma só pessoa, já sinto que este Projecto foi um sucesso”.

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A primeira etapa do “Twisted” ligou a Horta às Velas de São Jorge, terra da mãe de João Silva

O “Twisted” foi adquirido no fim de 2017 e após alguns trabalhos de preparação em terra e no mar, a viagem começou a ganhar forma, sendo uma realidade graças ao apoio do Governo Regional dos Açores, através da Direcção Regional da Juventude; da Clínica de Recuperação de Alcoólicos Narcóticos (RAN), em Vila Real, no Continente português; e das empresas “BricoVelas”, “N.O.Frayão”; “Surfmilfontes”, “Naturalist” e “Connect Designs”.

“Encaro a partilha da minha experiência como uma missão”

João Silva começou a ter contacto com o mar ainda criança, tendo praticado Vela no Clube Naval da Horta (CNH).

“A minha vida foi influenciada pelo Clube Naval da Horta e na fase de adolescência a Vela esteve muito presente. Eu passava os dias neste Clube, a minha segunda casa”.

É por isso com naturalidade que este faialense acalentou o sonho de vir a ter o seu próprio barco – o que agora é uma realidade – tendo o gosto pela Vela ficado sempre latente. “É devido a este ambiente marítimo e desportista que, como operador de câmera, me especializei em imagens de mar”.

A Vela pode ser comparada a um grande amor que, mesmo passado, deixa sempre reminiscências. “Mais do que um desporto, a Vela é uma Escola para a Vida e se repararmos, é elevada a percentagem de pessoas cuja vida é marcada por esta modalidade, em que muitos fizeram e continuam a fazer dela um caminho profissional”.

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Uma história com forte impacto por ser contada na primeira pessoa

Aproveitando todo este ‘background’, o nosso entrevistado assume: “Encaro a partilha da minha experiência como uma missão. Com este Projecto, que tem como veículo a Vela, não pretendo mudar a vida das pessoas mas, sim, fazer com que procurem mudar mentalidades e comportamentos, sendo certo que há muito consumo no mundo náutico, onde prevalecem comportamentos de risco, para os quais é imperiosa a existência de uma preocupação real. Cai-se no exagero em termos de consumo, quase de forma inadvertida, e quem está forte, aguenta-se, mas os fragilizados fracassam.

Em Portugal, há a cultura do brinde e quem convida o outro para beber insiste, ficando ofendido quando não se aceita. Já é tempo de as pessoas perceberem que não é preciso consumir álcool para haver diversão e comemoração, mas é claro que, tratando-se de uma questão cultural, não vai mudar de um dia para o outro.

Nas camadas mais jovens, o consumo dá-se por uma questão de afirmação, de aceitação por parte dos amigos e para fazer parte de um determinado grupo, levando a que deixem a sua vontade de parte, acabando em aventuras perigosas”.

“Este continua a ser um problema tabu”

A primeira etapa da viagem do “Twisted” ligou a cidade da Horta à Vila das Velas, em São Jorge, marcada pelo facto de a mãe de João Silva ser natural desta ilha.

A jornada seguinte levou o velejador das Velas para a Calheta e, posteriormente, da Calheta (de São Jorge) para as Lajes do Pico. Daí, o veleiro rumou a casa, pois o dono tem de honrar os compromissos profissionais. “Gostava muito que a viagem fosse feita de forma contínua, mas com o trabalho não é possível”.

A etapa seguinte será Horta/Graciosa. Depois virão Angra, no dia 21, e Praia da Vitória, a 24 do corrente, ambas na Terceira, estando a “Volta aos Açores Contra as Dependências” concluída em Agosto próximo, após passagem por todas as ilhas do Arquipélago.

De forma contínua ou faseada, o objectivo está a ser cumprido. “Quando chego a uma ilha, atraco e o“Twisted”, que fica aberto para quem o quer ver e visitar. Estou sempre disponível para abordar esta problemática e a verdade é que algumas pessoas têm visto nesta minha iniciativa uma oportunidade para contar histórias de familiares enredados neste mundo das dependências. Noto que há muita gente próxima de quem vive o problema e que desconhece como lidar com ele.

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“Se eu conseguir ajudar uma só pessoa, considero que já valeu a pena”

Sinto um apoio muito grande pela coragem que tenho de falar abertamente de um problema que continua a ser tabu e quem me aborda defende que estas situações reais merecem ser faladas. O facto de fazer revelações na primeira pessoa tem um grande impacto nos outros. Nunca pensei que esta minha iniciativa pudesse vir a alcançar tal dimensão.

Mesmo dentro das próprias famílias, não é fácil chegar junto de quem consome e dizer: “Estás a exagerar”, pois meter-se na vida do outro é algo que pode não ser bem aceite tanto por quem chama a atenção como para o que está a ser alvo da crítica. E, nesse sentido, recordo a frase habitual de meu pai: “Os amigos dizem sempre a verdade, mesmo que seja difícil”.

“Agradeço à minha família - sinto-me um felizardo!”

Dar o primeiro passo no sentido de reconhecer a necessidade de ajuda é o pontapé de saída para a recuperação, processo que acompanha o adicto para o resto da vida.

“Se a pessoa não quiser ser ajudada, os outros não podem fazê-lo, porque quem consome tem consciência do estado em que se encontra. O que acontece é que permanece em negação. Pedi ajuda porque tinha consciência de que a minha vida ia acabar se não alterasse o meu trajecto. E esse fim poderia ser ditado por situações directas, como doenças; ou indirectas, de que são exemplos acidentes, tendo já sido vítima, mas com um desfecho feliz.

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“Há muito consumo no mundo náutico, onde prevalecem comportamentos de risco” 

Tenho a sorte de poder contar com uma família estruturada, que foi a minha tábua de salvação e a quem agradeço sempre. Por isso, preocupam-me aqueles que não têm esse porto seguro.

Não encontrar trabalho é, por si só, um factor de grande susceptibilidade, levando à adicção. Os comportamentos desviantes ou de risco estão associados a consumos em idades muito precoces e quando a pesssoa se encontra sozinha e vulnerável, facilmente é atirada para a dependência. O álcool é um problema transversal, independentemente do género, idade ou condição social.

Sinto-me um felizardo por estar vivo e pelo facto de as pessoas de quem mais gosto – e que mais magoei – me terem aceitado.

É muito bom poder voltar a andar no mar – onde me sinto particularmente bem – regressar ao trabalho, ter uma companheira e voltar à companhia de duas filhas lindas”.

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O velejador tem já outros projectos na calha, visando dar continuidade a este trabalho de sensibilização e alerta para o consumo, que leva às dependências

“A adicção está sempre à espreita”

João Silva esteve três meses em recuperação na Clínica RAN e nesse período conheceu “experiências tristes e casos complicados” de pessoas que se tornaram amigas mas, também, de desconhecidos.

“Sou um adicto em recuperação permanente. A adicção é uma doença crónica e mortal, que provoca a alteração de comportamentos, pelo que o tratamento não a elimina, ajudando a controlá-la. A minha postura é de salvaguarda, atendendo a que a adicção está sempre à espreita. É uma doença muito matreira, constantemente pronta a levar-te para o consumo. A postura é de permanente alerta. Nesse sentido, faço parte dos Narcóticos Anónimos, que estão em contacto regular uns com os outros. A minha inter-acção com o grupo, que se encontra no Continente português, é feita através da ‘internet’. A acção principal consiste em partilhar as nossas vivências, pois a génese do consumo reside no facto de guardarmos os problemas só para nós. Não há quem queira pôr a nu os momentos difíceis que atravessa e que levam ao consumo. Como tal, o amigo silencioso em que nos refugiamos é o álcool.

A partilha é um grande instrumento em termos de aconselhamento. Cria-se uma relação de amizade com pessoas que têm algo em comum”.

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João Silva conversa, escuta e aconselha quem o procura, abrindo o seu barco aos visitantes 

“Sinto-me um lutador e quero ajudar quem está em recuperação”

João Silva – Sócio e colaborador do Clube Naval da Horta – sente-se “um lutador”.

Sair de uma clínica é sinónimo de ter de enfrentar novas batalhas, o que nem sempre se afigura fácil.

“Quando estive internado, contei com muitas sessões de psicologia, aconselhamento e prevenção, mas o contacto com o mundo cá fora, pode ser um choque. A sociedade continua igual (alguns nem se aperceberam de que tu foste e já voltaste). Eu é que estou diferente.

E é nesse contexto que gostava de desenvolver outros projectos, sempre com o objectivo de ajudar as pessoas a ultrapassar a adicção.

O trabalho de acompanhamento na pós-recuperação é fundamental e o mar leva-nos à auto-estima, constituindo um meio propício ao cimentar da confiança nas nossas capacidades. Falo muito com os meus colegas e todos temos a ideia de que, neste período de inadequação (primeiro contacto com o mundo após a recuperação) deve haver um programa que nos ajude”.

A Vela como veículo de prevenção

Para este faialense, “a vida no mar assemelha-se à luta contra a adicção”. E explica: “Para que o barco não tenha problemas, é necessário fazer a manutenção de forma regular. O mesmo acontece connosco. Há que fazer as opções certas para não cair nas dependências, que podem ser relacionadas com o consumo de álcool ou droga mas, também, com as compras, o jogo ou o sexo.

Quero transpôr essa similitude que existe entre a Vela e a nossa vida numa perspectiva de prevenção contra a adicção”.

Apesar do caminho tortuoso, João Silva não tem dúvidas em reconhecer que toda esta experiência o ajudou “a crescer muito”. E quando lhe perguntamos se acredita que tinha de ser assim, sorri e atira: “O destino é o acaso das nossas escolhas”.

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