Náutica no Bar: Capitão do “Tres Hombres” anunciou que vai aumentar a frota adquirindo um barco antigo, no Pico

A Horta é já um ponto de paragem obrigatória para o cargueiro mais famoso e amigo do ambiente a nível mundial: o “Tres Hombres”, que escala este porto pelo quarto ano consecutivo, prometendo voltar e até adquirir uma embarcação na ilha do Pico, para aumentar a frota desta empresa, cuja actividade é lucrativa.

Decorreu na noite deste sábado (dia 29), uma conferência no âmbito da “Náutica no Bar”, no Clube Naval da Horta (CNH), com o capitão do “Tres Hombres”, Lammert Osinga.



O Presidente do Clube Naval da Horta, José Decq Mota, agradeceu a presença de todos e explicou que, dentro do espaço “Náutica no Bar” têm sido discutidos, informalmente, vários temas náuticos. Este dirigente reafirmou o “grande gosto” do Clube em acolher esta iniciativa, sublinhando que se trata de “uma bela embarcação, com uma actividade curiosa”, cujo percurso foi explicado pelo seu capitão.

Por seu turno, o Presidente da Câmara Municipal da Horta, José Leonardo Silva, referiu a recepção que tinha sido feita a Lammert Osinga por parte da edilidade, salientando que o projecto do “Tres Hombres” é “um desafio para que sejamos sustentáveis no futuro”. E frisou: “Nesse sentido, as escolas são muito importantes”.

O autarca faialense recordou o Concurso Multi-Artes lançado pela Câmara Municipal da Horta, designado “NAVEG’ARTE”, que tem como tema de fundo o “Tres Hombres”.

Recorde-se que o “Tres Hombres” é o único cargueiro, em todo o mundo, que navega sem motor, sendo propriedade da companhia holandesa “Fairtransport Shipping”, criada por três velejadores amigos, designadamente, Arjen van der Veen, Jorne Langelaan (holandeses) e Andreas Lackner (austríaco).

Lammert Osinga falou confortavelmente em inglês, perante uma sala cheia e atenta.

Começou por referir que esta é a quarta vez que o “Tres Hombres” escala o Porto da Horta e explicou, apoiado por imagens e informação expressas num power-point, que um cargueiro gasta 500 mil litros de combustível por dia, o que representa um grande dispêndio de dinheiro, e a emissão brutal de gases poluentes.

Apresentando a imagem de um belíssimo paquete, disse que, a somar a tudo isso, há ainda a imensa energia eléctrica que é consumida, parecendo uma “uma árvore de Natal” ambulante, com abundante iluminação.

Os “Tres Hombres” juntaram-se em 2004 e começaram a construir este barco, que nasceu do aproveitamento do casco de um submarino. Pode dizer-se que esse foi o único apoio estatal, se tivermos em conta que todo o trabalho foi feito por um grupo entusiasta de 150 voluntários, de 25 nacionalidades. E em 2009, começou a navegar o único navio cargueiro sem motor, a nível mundial, fazendo o transporte internacional de mercadorias que, além de ser Comércio Justo (fairtrade), é também de Transporte Justo (fairtransport).

Actualmente, o “Tres Hombres” mantém um serviço sustentável de frete de carga entre a Europa, as Ilhas do Atlântico, as Caraíbas e a América, e sempre que há avarias, as mesmas são reparadas pelo próprio pessoal de bordo.

Este navio, que conta com 15 pessoas embarcadas, tem elementos que pertencem à tripulação, sendo outros alunos (uma vez que funciona como navio-escola), havendo ainda alguns passageiros. Neste sentido, o capitão referiu que o barco tem sido “muito visitado” por pessoas e alunos de escolas, “o que é bom”.

De acordo com Sónia Pó – que pertence ao grupo “Transporte Justo Açores” – “há uma lista de espera para passageiros e alunos pois, “viajar no “Tres Hombres” é um bom currículo, sendo tido como garantia de emprego”.

O “Tres Hombres” funciona já como transporte de mercadorias encomendadas havendo, portanto, destinatários certos. Depois dos produtos já conhecidos, a filosofia do projecto é ir levando amostras de novos produtos ecológicos dos locais por onde o barco vai passando. Do Brasil (Amazónia) foram trazidas amostras de óleos, produzidos através de plantas, e dos Açores são levados agora mel, chá e atum da fábrica de Santa Catarina. Lammert Osinga classifica o chá e o atum como “produtos muito especiais”, enaltecendo o potencial destas ilhas.

Da empresa caseira que produz chocolate em Granada, foram trazidas 30 mil barras, que se encontram a bordo; da República Dominicana veio rum, cacau e café, e da França, vinho. No fundo, o que este projecto pretende demonstrar – com sucesso firmado ao longo destes cinco anos – é que é possível fazer a distribuição de produtos sem poluir o ambiente. E isso faz-se usando um barco que navega à vela, comprando produtos ecológicos e praticando um preço de transporte justo. E o capitão garantiu que esta é uma actividade lucrativa. Aliás, isso mesmo se pode provar, pela construção do segundo navio (igual a este), que se encontra já em marcha, na Noruega, e pelo aumento da frota. Aproveitando os dias de descanso no Faial, a tripulação visitou a ilha do Pico, onde pretende adquirir um barco velho e adaptá-lo àquelas que são as condições deste projecto. Para tanto, o grupo de voluntários responsável pelas obras “ia gostar muito de estar uns tempos nestas belas ilhas”, assegurou o capitão do “Tres Hombres”.

A propósito de produtos ecológicos, Lammert Osinga adiantou que, “cada vez mais agricultores estão interessados nesta actividade, realçando que “o mercado ecológico europeu cresceu 7% desde a instalação da actual crise”.

“O projecto “Transporte Justo Açores” nasce na Horta, devido ao cruzamento entre a vontade e a mobilização de um grupo voluntário e a inspiração e provocação do “Tres Hombres”, através do seu capitão, Lammert Osinga”, referem os elementos deste grupo que se associaram a esta ideia no ano passado. Este grupo, responsável pela recepção que tem vindo a ser feita à tripulação na ilha do Faial, é composto por Paula Luís, Sónia Pó e André Santos, a quem Lammert Osinga agradeceu publicamente as sugestões que têm apresentado, colocando-se à disposição de todos quantos quiseram lançar questões.

Refira-se que o Clube Naval da Horta é parceiro desta iniciativa desde a primeira hora.

A “Náutica no Bar” do CNH terminou com um caldo de peixe, confeccionado pelo amigo do Clube Naval, Mário Silva, o que funcionou como despedida, se tivermos em conta que o “Tres Hombres “ zarpa esta terça-feira (dia 1 de abril) rumo a Portsmouth, na Inglaterra.

Numa terra onde todos os dias acontecem imensos eventos, de índole social, cultural, desportiva, marítima ou outra, não é de estranhar, pois, que se encontrasse na ilha do Faial uma equipa de reportagem da revista nacional “Visão”, que acedeu ao pedido/convite para ir a bordo do “Tres Hombres” sentir e apreender este projecto sui generis, que cada vez está a ganhar mais adeptos, sinal de que o ser humano pode e deve adoptar outro tipo de conduta para com o ecossistema.

De acordo com Paula Luís, prevê-se que a reportagem saia na edição de 10 de Abril próximo.

Veja as fotos do evento no site CNH/Arquivo/Galeria ou no Google+ do CNH

 

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