Organização excelente do Clube Naval da Horta prestigia o Campeonato Nacional da Classe Access 2014



Um prémio, resultados excelentes em termos organizacionais, visitantes encantados com o Faial e a hospitalidade de quem os recebeu e a realização de 8 das 9 regatas previstas. É este o balanço geral do Campeonato Nacional da Classe Access 2014, que terminou este domingo (dia 13), com a Cerimónia de Entrega de Prémios no Restaurante “Barão Palace”, na cidade da Horta.

Provas, competição, mas acima de tudo muito convívio, amizade e hospitalidade, foram as tónicas do Campeonato Nacional da Classe Access 2014 (http://nacaccess2014.cnhorta.org), que se realizou de 11 a 13 do corrente, na ilha do Faial, organizado pelo Clube Naval da Horta.

Este evento, destinado a velejadores com mobilidade reduzida, foi uma organização conjunta da Federação Portuguesa de Vela e da Associação Portuguesa da Classe Access.



Após o jantar de encerramento deste evento, que decorreu na noite do último domingo (dia 13) no Restaurante “Barão Palace”, na cidade da Horta, o tempo foi marcado por pequenas mas eloquentes intervenções, entrega de prémios, muitas palmas, calor humano e alegria. A juntar a tudo isto, os convivas foram brindados com modas regionais pelo Grupo Folclórico do Salão, tendo alguns dos presentes sido convidados para um pé de dança dentro da Chamarrita.

O Presidente da Direcção do CNH, José Decq Mota, começou por referir “o gosto, a honra e o prazer” que o Clube Naval da Horta teve na organização deste evento nacional, que se realizou pela primeira vez na ilha do Faial e na Região Autónoma dos Açores, com a particularidade de, também pela primeira vez, ter reunido participantes de todas as regiões do país: Norte, Centro, Sul, Madeira e Açores.


A necessidade de uma sociedade mais inclusiva foi bem vincada neste jantar, onde todos sublinharam a necessidade de derrubar barreiras: arquitectónicas e em termos de preconceito

“Fizemos tudo o que pudemos”, frisou este Dirigente, acrescentando que “do ponto de vista regulamentar decorreu tudo muito bem e nas vertentes social e humana, o tom foi afectuoso, sobressaindo a conjugação de esforços”. Neste sentido, José Decq Mota enalteceu a colaboração de uma vasta lista de entidades públicas e privadas, além de cidadãos singulares, que se empenharam em dar corpo a este projecto, que congregou 29 velejadores de 9 clubes e 22 embarcações, além de mais de 70 voluntários.

O Presidente da Direcção do CNH agradeceu o carinho e o acompanhamento da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, o importante apoio da Câmara Municipal da Horta, da Direcção Regional do Turismo, dos Serviços de Ambiente e Florestas, do Conselho de Administração da Portos SA, da Marina da Horta, da Autoridade Marítima, da Associação de Bombeiros e da Santa Casa da Misericórdia da Horta. Quanto à Associação de Pais e Amigos dos Deficientes da Ilha do Faial (APADIF), parceiro privilegiado, José Decq Mota falou directamente para o seu mais alto responsável, José Fialho, afirmando: “à APADIF não agradeço, pois estamos juntos neste projecto”.


A realização deste Campeonato na ilha do Faial veio demonstrar o espírito de colaboração, voluntariado e união de esforços e de boas vontades que existe entre as diversas instituições e particulares

Este Dirigente agradeceu a todos os que vieram de fora e apelou a que regressem, rematando: “As actividades da Classe Access são muito importantes e alguns destes velejadores já garantiram a sua presença no Encontro Internacional de Vela Ligeira”, que decorrerá no âmbito do Festival Náutico da Semana do Mar (primeira semana de Agosto).

A mesa onde se encontravam os Prémios, as Lembranças e os Certificados de Participação foi muito observada, elogiada e fotografada. O elemento que mais ressaltou à vista foram os Prémios, uma oferta original da Empresa Martipereira, propriedade de Olindo e Carla Pereira. Foi igualmente salientada a forma como António Pereira acomodou os Emblemas do Clube Naval da Horta.


A originalidade, a cor e a forma dos Prémios, oferecidos pela Empresa Martipereira, foram muito comentadas e apreciadas


Olindo e Carla Pereira colaboraram, graciosamente, para o brilhantismo deste Campeonato, oferecendo os Prémios

E no que toca a Prémios, Certificados e Lembranças, além dos vencedores, dos velejadores e dos Clubes, houve duas pessoas, cujo papel e trabalho foi efusivamente lembrado, reconhecido e aplaudido com grande justeza: João Duarte, Responsável pela Secção de Vela Ligeira do Clube Naval da Horta e grande mentor deste Campeonato, e Nilzo Fialho, por parte da APADIF, parceiro privilegiado neste Projecto.

Na sua intervenção, o Presidente da edilidade faialense, José Leonardo Silva, dirigiu uma palavra de estímulo a todos os participantes, salientando o orgulho dos faialenses em receber estes visitantes.


José Decq Mota, Presidente da Direcção do CNH e José Leonardo Silva, Presidente da Câmara Municipal da Horta, que elogiou o trabalho levado a cabo pelo Clube Naval da Horta

José Leonardo sublinhou o apoio que a Câmara Municipal tem dado ao Clube Naval da Horta, instituição que tem feito “um grande trabalho na vertente náutica, pedagógica e promocional da ilha do Faial”, frisando que a entidade a que preside “sempre acarinhou” a parceria existente entre o CNH e a APADIF.

Este governante realçou a importância de pôr os mais novos a falar das acessibilidades, afirmando que “o tema inclusão deve começar nas Escolas”.

Por seu turno, o Representante da Associação da Classe Access, Comandante Luís Cruz, agradeceu ao Clube Naval da Horta por se ter candidatado à Organização deste evento, tornando-o numa festa. Saudou todos os participantes, felicitou os vencedores e agradeceu aos patrocinadores.


O Comandante Luís Cruz agradeceu ao Clube Naval da Horta o facto de se ter candidatado à Organização deste Campeonato Nacional de Access

A Presidente da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores referiu “a enorme honra” de estar na Cerimónia de Encerramento do Campeonato Nacional da Classe Access 2014, dirigindo uma palavra a todos os que, de alguma maneira, estiveram envolvidos neste evento de grande dimensão. Ana Luísa Luís confessou que hoje está mais consciente “do muito caminho que há ainda a percorrer no sentido de serem derrubadas as (muitas) barreiras físicas (arquitectónicas) e interiores (o nosso olhar perante o outro que tem alguma deficiência)”.

Esta faialense, com responsabilidades políticas, lembrou que “é nossa obrigação contribuir para que haja uma sociedade mais inclusiva”, agradecendo e reconhecendo a coragem, a ousadia e o trabalho de todos os atletas participantes.

Top ten para a Organização

Entre as arrumações próprias de uma estrutura desta dimensão e muitos outros afazeres, João Duarte fez um balanço deste Campeonato, referindo que “tudo correu bem neste grande desafio, que incluiu um vasto programa no mar e em terra”. Das 9 provas, realizaram-se 8. “As condições de tempo foram excelentes para a prática da Vela e a baía estava muito boa.”


João Duarte não podia estar mais satisfeito com a forma como decorreu este Campeonato

Para este mentor e organizador, “o que marca mais é haver tanta gente com inúmeras tarefas e as coisas terem decorrido de forma natural, descentralizada e com um envolvimento, participação e entrega enorme por parte dos voluntários”. “O feedback foi extremamente positivo”, sustenta João Duarte, afirmando visivelmente orgulhoso, mas realista: “Ainda não houve dentro da Classe Access um Campeonato que se igualasse a este”. E acrescenta: “O nível competitivo deste Campeonato distancia-se muito dos outros, com um número recorde de participantes e embarcações, além de esta ter sido a primeira vez em que estiveram presentes todas as regiões do país”.

Os visitantes ficaram maravilhados com a ilha, com a capacidade organizativa do Clube Naval da Horta e com o número de entidades que se envolveu neste evento.

Recorde-se que este projecto começou a ser preparado há 6 meses. Em Janeiro deste ano já havia Cartaz e Programa. “Um dos nossos objectivos era desenvolver um Campeonato com qualidade, mas que não trouxesse um impacto negativo para o Clube. As contas ainda não estão feitas, mas sei que correu bem. Conseguimos reunir bastantes apoios públicos e privados do Faial, num conjunto superior a 30 patrocinadores a quem estamos muito gratos, porque também eles nos facilitaram a realização desta iniciativa”.

O Campeonato Nacional da Classe Access 2014 foi organizado por um Grupo de Trabalho composto para o efeito e de que fazia parte o Presidente da Direcção do CNH, José Decq Mota; a Directora Técnica, Ana Sousa; Luís Paulo Moniz e João Duarte, Directores da Secção de Vela Ligeira, e Nilzo Fialho, da APADIF.


Grupo de Trabalho que preparou este Campeonato
Da esquerda para a direita: João Duarte, Ana Sousa, José Decq Mota, Luís Paulo Moniz e Nilzo Fialho

Do ponto de vista do Projecto “Vela Para Todos – Faial Sem Limites”, os objectivos traçados também foram alcançados. “Queríamos uma Medalha e tivemos (além do 3º prémio, contámos ainda com um 4º e um 6º lugares na classe 2.3)”.

Outro dos desideratos “era que alguns velejadores do CNH, que têm menos experiência, ganhassem confiança e à vontade na embarcação em que velejam, o que também foi uma realidade. Todos terminaram regatas e estiveram envolvidos no convívio. Portanto, estamos todos de parabéns!”, salienta este Responsável.


Para João Duarte não há dúvidas de que este foi o melhor Campeonato da Classe Access realizado até hoje

Em relação ao prémio arrebatado por Lício Silva, João Duarte afirma: “Há que valorizar o prémio em termos individuais, pois embora o Clube exista para apoiar os velejadores, a verdade é que são eles que tomam as decisões”.

No que concerne à Medalha conquistada pelo CNH, este Dirigente garante que na Classe 2.3 sabia “perfeitamente” que os “seus” velejadores tinham condições para conseguir estas classificações.

Dezenas de voluntários muito organizados

Este Dirigente recorda que, relativamente aos voluntários, inicialmente estavam contabilizados 55, incluindo comissões de regatas, comissões de protestos, equipas de mar (segurança) e de terra e os velejadores da Escola de Vela. No entanto, deu-se um fenómeno revelador do espírito que sempre tem caracterizado o Clube Naval da Horta: o voluntariado espontâneo. “Diariamente apareciam pessoas que manifestavam total disponibilidade e vontade em ajudar e isso é muito importante, porque mostra o impacto deste evento de cariz nacional. A forma de estar das pessoas não era no sentido de criar problemas, mas de encontrar soluções. Estes 3 dias passaram muito a correr, sem grandes complicações. Já acabou o Campeonato, já estamos a desmontá-lo e parece que começou ontem”, frisa João Duarte.

Este grande entusiasta e pioneiro da Vela da Classe Access na ilha do Faial, elencou ainda outros dos propósito deste Campeonato. Como tal, congratulou-se com o facto de domingo, na Cerimónia da Entrega de Prémios, os responsáveis políticos terem abordado a questão da inclusão e a necessidade de melhorar a cidade e as acessibilidades desta.

“Embora isto seja um Campeonato Nacional, para mim, quando estes velejadores entram num barco deixam de ter cadeira de rodas ou mobilidade reduzida e passam a ser velejadores que conseguem desempenhar na plenitude aquilo que são as capacidades e as competências necessárias para andar à Vela”, confessa este Treinador da Classe Access, acrescentando: “No entanto, em terra, as coisas não são bem assim. No Faial e nos Açores ainda há um déficit de inclusão. Temos de trabalhar mais na promoção da inclusão que, por si só, traz tudo o resto: melhoria das acessibilidades, o derrube das barreiras arquitectónicas, etc”.

Campeonato Regional para promover a Vela e a inclusão

Dentro da promoção da Classe, este Responsável ambiciona vir a ter um Campeonato Regional, que possa reunir velejadores de diferentes ilhas, promovendo a Vela e a inclusão nos Açores. Ainda neste contexto, João Duarte explica que este Campeonato também visou dar visibilidade à Classe, o que aconteceu.

Refira-se que, além do Clube Naval da Horta, onde a Vela da Classe Access é uma realidade estruturada e funcional há 3 anos, existe a perspectiva de vir a ser desenvolvida na ilha vizinha um projecto similar uma vez que foi adquirida para o efeito uma embarcação da Classe 2.3., além de a Associação Regional de Vela dos Açores (ARVA) ter adquirido 2 embarcações desta Classe, que se destinam a percorrer os diferentes clubes navais da Região, encontrando-se neste momento em Vila Franca do Campo.

João Duarte sublinha “a necessidade de se sensibilizar todos os agentes da Vela regional, entre eles os treinadores, no sentido de perceberem os benefícios do desenvolvimento desta Classe, quer para a Vela enquanto desporto, quer para a construção de uma sociedade mais inclusiva, onde a igualdade para todos seja uma realidade” Como tal, o CNH e o Projecto “Vela Para Todos - Faial Sem Limites” tem “total disponibilidade” para dar formação, esclarecimentos e toda a ajuda possível “visando a desmistificação de preconceitos e obstáculos existentes nalguns Clubes”.

As aspirações e os planos são uma constante numa escalada que se tem pautado pela evolução. Neste contexto, para completar a frota do CNH é necessário mais um barco da Classe 303. Com o intuito de tornar a modalidade mais abrangente, “seria interessante aumentar o número de praticantes em termos de lazer e de competição”.

Sempre a pensar mais à frente, este Treinador planeia já a presença no próximo Campeonato Nacional e nas 2 Provas de Apuramento Nacional (PAN), onde são escolhidos os atletas que vão ao Campeonato Mundial, um sonho que João Duarte não considera impossível, uma vez que o Clube Naval da Horta tem velejadores ao nível daqueles que representam as nossas cores nas competições mundiais.

Troca de palavras com alguns dos vencedores deste Campeonato:

JOÃO PINTO, 1º lugar, Classe 2.3:

Gabinete de Imprensa do CNH: Qual o balanço que faz a este Campeonato?
João Pinto: Posso começar logo pela entrega de prémios, que foi 5 estrelas. Quando entrei no Restaurante, pensei que era um casamento, devido à forma como estava tudo organizado: mesas individuais, cada Clube na sua mesa, etc. Mas o que mais gostei, foi da hospitalidade em geral. Uma referência de top para o João Duarte e o Nilzo Fialho, que organizaram este Campeonato de forma excelente. Fizeram sempre questão de nunca nos faltar nada. Deram praticamente a volta à ilha connosco e há que dar muito valor a isso.

Houve sempre a preocupação em não haver desconforto. A parte da deficiência tem alguma importância, mas não foi isso que levou a Organização a ter todas as precauções. Acho que é a vossa maneira de ser. Portanto: obrigada por tudo e continuem a organizar eventos aqui, porque eu venho.

G.I.: Este Campeonato correu-lhe muito bem…
J.P.: Tem-me corrido sempre bem. Faço Vela desde 94/95 e há 2 anos que sofri esta lesão, na sequência de um acidente de moto. Praticando Vela há estes anos todos, é normal que tenha muito mais experiência do que o pessoal que está a começar. Ganhei o Campeonato Nacional o ano passado e fui Vice-Campeão Europeu, na Suíça.

G.I.: Qual o seu objectivo?
J.P.: Promover a vontade. Quando vimos para estes eventos, há que pôr as deficiências de parte e focarmo-nos no trabalho dentro da água. Há que ser solidários uns com os outros, mas sem esquecer a vertente competitiva. Não vimos aqui só para sair de casa, mas para competir, o que acontece em qualquer desporto, quer as pessoas tenham ou não deficiências. Em convívio, abraçamo-nos e somos amigos, mas na água vale tudo.

G.I.: Quando será o regresso ao Faial?
J.P.: Ainda não sei, mas quando acabar a minha vida como desportista, pondero seriamente vir viver para cá. A sério! Foi a minha estreia nos Açores e gostei muito e digo isto de forma muito sincera.


Pódio da Classe 2.3:

1º lugar: João Pinto – Iate Clube Marina de Portimão
2º lugar: Fernando Pinto – Sport Clube do Porto
3º lugar: Lício Silva – Clube Naval da Horta

FERNANDO PINTO, 2º lugar, Classe 2.3:

- G.I.: Como decorreu o Campeonato?
- Fernando Pinto: Muito bem! Esta foi a terceira vez que vim ao Faial, tendo as vezes anteriores sido para participar nas provas por altura da Semana do Mar. Este ano foi tudo excelente uma vez mais, tanto ao nível do acolhimento como da Organização e, principalmente, do convívio, que é uma das vertentes mais importantes deste Campeonato. Isto não vale tanto pela vertente competitiva, mas sobretudo pela questão do convívio.

G.I.: Mas ninguém gosta de perder…
F.P.: Dentro da água há competição, fora somos todos amigos. A parte do convívio permite-nos aprender muito com a troca de experiências e de conhecimentos.

G.I.: Já fez amigos cá?
F.P.: Sim e mantemos contacto.

G.I.: E é para voltar?
F.P.: Sem dúvida! Daqui a 15 dias estou cá novamente para participar no Festival Internacional de Vela Ligeira. Deixo cá o barco e o equipamento e só não fico porque não posso.

Gostava de aproveitar essa oportunidade para conhecer a ilha de São Jorge, uma vez que já fui ao Pico e assim completava o Triângulo.

G.I.: Gostou destas ilhas?
F.P.: Muito! São muito boas para conviver. Aqui, as pessoas têm uma forma diferente de ser e de estar na vida.

G.I.: O que destaca destes 3 dias de Campeonato?
F.P.: Além do mar e da excelente vista para o Pico, a magnífica Organização e as acessibilidades que esta proporcionou. No entanto, no que respeita à ilha, há muito a melhorar (passeios, passadeiras, etc), o que não se prende apenas com as cadeiras de rodas, mas com um simples carrinho de bebé ou com uma pessoa de idade que tenha dificuldade em andar. É verdade que a cidade da Horta, pela sua própria morfologia, não permite esse tipo de acessibilidade em todos as zonas, mas a parte mais plana poderia estar bem mais acessível.

G.I.: Sente que a sociedade está mais inclusiva?
F.P.: Mesmo as pessoas com limitação física mostram-se muito mais e não há aquele estereótipo de estar em casa. São vistas e isso muda a maneira de sermos olhados e aceites. A sociedade acaba por ser, de forma quase obrigatória, inclusiva, porque regra geral toda a gente tem um familiar ou um amigo nestas circunstâncias.

G.I.: É possível estabelecer uma comparação, ao nível organizacional, entre este Campeonato – o primeiro realizado nos Açores – e os restantes, que decorreram no Continente português e na Madeira?
F.P.: Não, porque aqui foi melhor.

G.I.: Melhor em quê?
F.P.: Desde a preocupação manifestada em saber se todos estavam bem, passando pelo acolhimento, além da disponibilização de transportes, apoio na água e fora desta e a receptividade com que fomos tratados é precisamente o factor que distingue esta Organização.

Devo realçar que, de todas as vezes que vim cá, esta foi a melhor. É claro que este Campeonato revestiu-se de outra dimensão e foi tudo muito bom.

G.I.: Estamos a aprender?
F.P.: E muito bem! Uma coisa é arrumar 6 barcos, outra é arrumar mais de 20, como aconteceu neste Campeonato. Mas tenho de sublinhar que a Organização superou tudo isso com distinção.

G.I.: O que tem sido mais importante até aqui?
F. P.: Aprendo muito quando vou ao estrangeiro. Treinamos muito cá, mas uma coisa é treinar cá, com as filosofias locais (Portugal) e outra é ir ao Mundial, como aconteceu no ano passado, em que estive na Inglaterra.

Uma pessoa do país de origem dos barcos, que é a Austrália, explicou-me como é que o barco – que é feito em forma de casca de noz – deve andar, a importância do posicionamento do velejador dentro da embarcação e a influência que tudo isso tem para o seu rendimento.


Nesta fotografia é visível a amizade que une os velejadores

- LÍCIO SILVA, 3º lugar, Classe 2.3:

G.I.: Este 3º lugar teve um sabor especial.
L.S.: O Campeonato decorreu muito acima das minhas expectativas. Nunca me passou pela cabeça alcançar esta posição, porque sabia que a concorrência era muito boa, sobretudo os que ficaram à minha frente. Os participantes que vieram de fora tinham como objectivo competir e ganhar.

G.I.: Foi difícil?
L. S.: Muito! Houve alturas em que dei tudo como perdido.

G.I.: O que significa esta vitória?
L.S.: Estou contente, mas consciente de que tenho muito trabalho e aprendizagem pela frente. Considero que o Projecto “Vela Para Todos – Faial Sem Limites” tem pernas para andar.

G.I.: O que é que faltou nas provas?
L.S.: Faltou-nos concentração. Para mim, a componente mais difícil da Vela é ter de assimilar muitos (pequenos) pormenores ao mesmo tempo. É muito difícil numa frota de 11/12 velejadores estar atento à posição de vento, aos saltos de vento, à posição de quem está no barco à nossa volta, etc.

G.I.: Qual o elemento chave para uma regata bem sucedida?
L.S.: Uma boa largada. Ganha-se metade de uma regata à partida, com uma boa largada.

G.I.: No seu entender, quais os objectivos principais deste evento organizado pelo Clube Naval da Horta?
L.S.: Constituiu uma excelente oportunidade para abrir os horizontes dos nossos governantes no sentido de perceberem, de uma vez por todas, que é preciso trabalhar para pôr a nossa cidade-mar de forma a andarmos de um lado para o outro sem nenhum tipo de barreiras. Considero que o Faial não está minimamente preparado para cidadãos pessoas com mobilidade reduzida, dificuldades de locomoção, carrinhos de bebé, etc. Sinto isso todos os dias na pele. O que me vale é a minha família, que tem sido espectacular. Se preciso de ir a algum lado, lá vai a minha mulher ou o meu filho comigo. Neste momento, a única limitação que tenho são as barreiras. E este tipo de evento serve precisamente para dois aspectos muito importantes: alertar consciências adormecidas de quem tem poder de decisão, e pelo convívio, que foi muito saudável.

G.I.: A Vela veio dar-lhe vida?
L.S.: A Vela está a devolver-me a emoção que eu tinha de viver e que me foi retirada há alguns anos. No fundo, trata-se de um desporto que está a substituir outro. A adrenalina e o despique estão a voltar. Tenho de agradecer ao João Duarte e ao Nilzo Fialho por me terem inserido neste Projecto. Jamais vou esquecer o dia em que foram falar comigo e me convocaram para estar no Clube às 8 horas da manhã do dia seguinte. Literalmente pegaram em mim, meteram-me dentro do barco e disseram: “Vamos embora”. Eu ainda pensei: não percebo patavina disto, mas correu bem, e agradeço-lhes a oportunidade e o voto de confiança. Nunca me arrependo de ter entrado neste desafio. Quando era pequeno, tive uma experiência de Vela e lembro-me de não gostar nada, porque o meu maior problema era molhar-me. Não gostava de andar molhado e ainda hoje continuo a não gostar.

G.I.: O passo seguinte é continuar a ganhar prémios.
L.S.: Seria muito bom, mas a minha intenção é fazer isso para dar alegria aos que estão a trabalhar para nós. Naturalmente que me sinto orgulhoso, mas o meu grande objectivo é compensar aqueles que apostaram em mim, que acreditaram que eu era capaz.

G.I.: Há uma boa equipa no Clube Naval da Horta.
L.S.: Sim e este prémio é também um bocadinho do trabalho do Rui Dowling e do Libério Santos, porque nos treinos eles dão muita luta e nenhum gosta de perder. Este Campeonato foi muito giro e eles também têm mérito nesta vitória.

G.I.: Dá para fazer amigos nestes eventos?
L.S.: Naturalmente que sim e o Fernando Pinto é um deles. Quando veio o meu barco, que é o mais recente e o único que é mais largo por ter dois lugares (o anterior era mais apertado e dificultava-me certas manobras), pedi umas dicas ao Fernando Pinto, que tem um igual e a partir daí passámos a conversar mais e hoje somos amigos.

PEDRO REIS e ALIU BAIO, dupla vencedora do 2º prémio da Classe 303:

G.I.: Como descreve o que viveu estes dias?
Pedro Reis: Já fiz um Campeonato Nacional na ilha da Madeira e acho que foi totalmente diferente em termos de mar e de paisagem. Refiro-me à paisagem do canal, pois isto de ter de um lado o Pico e do outro, o Faial e ver a ilha toda a verde, é algo fascinante. Fiquei rendido à paisagem e não tenho palavras para descrever exactamente o que sinto.

Destaco as condições de mar, o facto de as Comissões de Regata terem estado sempre atentas e o percurso ter sido sempre muito bem feito, não havendo falhas a apontar. Foi extraordinário. Palmas para a Organização!

Gostei imenso de chegar ao Vulcão dos Capelinhos e de repente ver a mudança da vegetação. Fiquei horas só a apreciar. É primeira vez que estou no Faial e sem dúvida que vou voltar.

G.I.: Alcançaram um bom resultado?
P.R.: Este resultado foi óptimo para aquilo que treinámos e para as nossas expectativas atendendo a que este foi o nosso primeiro ano como equipa. Isto constituiu uma nova experiência, porque tive de navegar com um colega invisual, com uma percepção completamente diferente de quem vê. De início, foi muito difícil e, sinceramente, pensei em desistir, mas depois com o treino e as provas, tudo foi melhorando e hoje posso dizer que esta situação me dá mais gozo em relação ao resto.

Aliu Baio: Este foi o meu primeiro Campeonato Nacional e gostei muito de competir neste mar, com o ambiente que tivemos à nossa volta, tudo o que foi acontecendo, dentro ou fora do mar, onde se destacam as pessoas. Os açorianos, a avaliar pelos faialenses, têm uma forma diferente de encarar as situações.

G.I.: É para voltar?
P.R.: Sem dúvida e para próxima temos de ir conhecer o Pico e São Jorge.

O nosso objectivo é trabalhar para ficar em 1º lugar no próximo Campeonato.

A.B.: Gostava de conhecer outras ilhas e de voltar ao Faial. Agora vou tirar Biologia e seria muito interessante vir para cá, pois acho que isto tem uma paz e um sossego incríveis.


Aliu Baio (invisual) e Pedro Reis (ambos em primeiro plano) arrebataram a 2ª posição na Classe 303


Pódio da Classe 303:

1º lugar - Carlos Araújo/Ana Cunha – Clube Naval de Cascais
2º lugar - Pedro Reis/Aliu Baio – Clube Naval de Cascais
3º lugar - Sofia Machado/Benjamim Machado – Clube Naval Povoense

CLASSIFICAÇÕES

Classe 303:
- Carlos Araújo/Ana Cunha – Clube Naval de Cascais
- Pedro Reis/Aliu Baio – Clube Naval de Cascais
- Sofia Machado/Benjamim Machado – Clube Naval Povoense
- Jorge Freiria/José Cavalheiro – Clube de Vela de Viana do Castelo
- Jorge Ruivo/Ana Lemos – Sport Clube de Aveiro
- Carlos Cadete/Luís Ramalho – Iate Clube Marina de Portimão
- Francisco Correia/Carlos Cardoso – Clube Naval da Horta
- Filipe Araújo/Manuel Costa – Clube de Vela de Viana do Castelo

Classe 2.3:
- João Pinto – Iate Clube Marina de Portimão
- Fernando Pinto – Sport Clube do Porto
- Lício Silva – Clube Naval da Horta
- Rui Dowling – Clube Naval da Horta
- Maria Luísa Graça – Sport Clube do Porto
- Libério Santos – Clube Naval da Horta
- António Ribeiro – Iate Clube Marina de Portimão
- Pedro Carvalho – Sport Clube do Porto
- António Nóbrega – Clube Naval do Funchal
10º - Elvio Barradas – Clube Naval do Funchal
11º - Domingos Cagembe – Clube Naval de Cascais
12º - Nuno Codinha – Clube Naval da Nazaré
13º - Aguinaldo Luís – Clube Naval da Horta

Fotografias de: José Macedo e Cristina Silveira

 

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