Ligação entre as cidades da Horta e de New Bedford está viva e activa”: “O importante é envolver a comunidade”, salienta João Carlos Pinheiro

João Carlos Pinheiro: “Tenho muito orgulho de ser filho de um grande baleeiro das Angústias e de o meu filho mostrar tanto interesse pelas suas raízes, mantendo e dinamizando a ligação que existe entre as cidades irmãs da Horta e de New Bedford

João Carlos Pinheiro, um faialense das Angústias há muito emigrado nos Estados Unidos da América, tem sido um dos grandes dinamizadores no sentido de manter viva e activa a ligação que existe entre as cidades da Horta (ilha do Faial, Açores) e a de New Bedford (Massachusetts, condado de Bristol, EUA). Geminadas desde 1972, estas cidades irmãs têm em comum a baleação, há muito imortalizada no Museu da Baleia de New Bedford (New Bedford Whaling Museum). Sempre ligado à terra que o viu nascer, João Carlos Pinheiro não perde uma oportunidade para vir ao Faial e lembrar a quem de direito, tanto lá como cá, que é preciso nunca deixar morrer esta cultura e tradição.



Victor Pinheiro, filho de João Carlos Pinheiro, mesmo nascido no outro lado do Atlântico, domina bem o português e carrega no peito a responsabilidade, e ao mesmo tempo, o gosto de honrar o avô paterno: José Cardoso, um grande baleeiro da freguesia das Angústias, ilha do Faial. Por isso, foi com agrado que veio à ilha azul trazer um abraço das gentes de New Bedford, tendo feito a viagem marítima a bordo do seu “Maravilha” no passado mês de Julho, onde foi calorosamente recebido por vários faialenses. O objectivo foi vir deixar o barco a fim de participar na 26ª edição da Atlantis Cup - Regata da Autonomia, que saiu de Santa Maria no dia 27 de Julho e terminou na Horta, com o Jantar de Entrega de Prémios no dia 5 deste mês.

Convidado para ser o Presidente da Comissão de Regata de Botes Baleeiros do Festival Náutico da Semana do Mar 2014 (realizada no dia 9 deste mês), João Carlos Pinheiro tinha motivos de sobra para vir ao Faial juntar-se ao filho – que se fez acompanhar da família – e rever familiares, amigos e conhecidos.

“Ver os botes baleeiros a navegar no canal é a prova da importância que isto tem para manter a tradição baleeira, a nossa cultura marítima e, ao mesmo tempo, atrair turistas ao Faial e aos Açores, o que é importantíssimo”, considera este faialense, que acrescenta: “A Regata decorreu muitíssimo bem. Ao princípio, o vento estava um bocadinho fresco e estávamos com receio de começar a competição, mas correu muitíssimo bem”.

Instado a estabelecer uma comparação entre as regatas de cá e as de lá, refere que “no Faial há mais botes em prova”. E sublinha: “Em New Bedford faço regatas de Cruzeiro com o mesmo número de barcos daqui ou mais, mas com botes baleeiros não”.

Aos 3 botes açorianos que existiam em New Bedford vieram juntar-se mais 10 “Yankee Botes”, que são os botes baleeiros americanos entretanto construídos, sendo “um bocadinho diferentes dos açorianos: são mais pequenos e com menos vela”. No entanto, “esta pequena rivalidade entre os botes açorianos e os botes americanos está a suscitar entusiasmo por parte das pessoas”, realça João Carlos Pinheiro, que acrescenta: “Os americanos estão a afluir aos botes baleeiros”.

A construção dos botes baleeiros americanos – cada um custou 100 mil dólares – esteve a cargo de vários museus por intermédio do Mystic Seaport Museum, o Museu da América e do Mar. Cada museu é que angariou os fundos necessários através de donativos particulares e outras acções. A Morgan, a única barca baleeira que ainda navega, foi recuperada pelo Mystic Seaport Museum, o que foi sinónimo de um investimento de 9 milhões de dólares.

A propósito de apoios, João Carlos Pinheiro sublinha: “Na América não dependemos do Governo. Angariamos apoios de firmas e particulares e realizamos festas para conseguir os fundos necessários para este projecto”. E frisa: “Embora o dinheiro seja importante, o principal deste movimento é envolver a comunidade. Não queremos apenas um pequeno grupo a gerir isto, o que se pretende é envolver a comunidade, pois temos muitos açorianos – e faialenses – a viver na Nova Inglaterra”.


 “Na América não dependemos do Governo para a recuperação dos botes baleeiros nem para a realização de eventos relacionados com a manutenção da cultura baleeira”

João Carlos Pinheiro refere que “o pessoal português da área de New Bedford que não ia ao Museu da Baleia, já começou a ir”.

O Museu da Baleia tem, desde há cerca de 15 anos, a Galeria do Baleeiro Açoriano (Azorean Whalemen Gallery), a única exposição permanente nos EUA que destaca a contribuição portuguesa para o património marítimo americano, nomeadamente para a história da baleação de New Bedford e dos Açores. A instalação da Galeria do Baleeiro Açoriano dentro do Museu da Baleia de New Bedford – onde existem fotografias e vários artefactos da baleação – “resulta de um donativo muito grande, que foi feito pelo Sr. Jaime Gama”, recorda João Carlos Pinheiro.

Em 2010, o Museu da Baleia recebeu a exposição intitulada “A Baleação no Faial: Fase Industrial (1940-1984)” que contava a história dos principais centros desta actividade na ilha, nomeadamente a Fábrica da Baleia de Porto Pim, dos Armazéns da “Reis e Martins” e das principais personalidades que a marcaram ao longo do século XX, sem esquecer as novas indústrias do sector, como a observação de baleias.

“Esta exposição esteve na América durante 8 meses e tem havido um intercâmbio muito grande entre o Museu da Baleia de New Bedford e o Observatório do Mar dos Açores (OMA) por intermédio da Márcia Dutra, da Carla Dâmaso e do Filipe Porteiro, o que é muito importante”, defende este faialense, que garante: “Queremos dar continuação a esta ligação”.

“Os nossos portugueses, sobretudo os açorianos, estão a aderir mais ao Museu da Baleia”. Na base desse despertar de consciências adormecidas está uma maior divulgação da importância do Museu da Baleia, a inauguração da exposição permanente, a fundação da Azorean Maritime Heritage Society (da qual João Carlos Pinheiro foi o mentor) e a criação da Regata Internacional de Botes Baleeiros.


 “Os nossos portugueses, sobretudo os açorianos, estão a aderir mais ao Museu da Baleia”

“Há muitos portugueses (e açorianos) que, apesar de residirem nesta área há imenso tempo, nunca tinham visitado o Museu da Baleia de New Bedford, o maior do mundo. A ligação que agora já é sentida e vivida de forma mais activa no que diz respeito à geminação entre as cidades da Horta e de New Bedford faz com que sempre que os portugueses da área de New Bedford, Fall River ou Boston recebem alguém de qualquer parte façam questão de levar as suas visitas à maior atracção da cidade: o Museu da Baleia de New Bedford”, sustenta João Carlos Pinheiro, um dos pilares desta ligação social, cultural e afectiva.

O Museu da Baleia de New Bedford foi responsável pela organização de 3 excursões oriundas desta cidade americana que tiveram como destino os Açores, concretamente o Faial (e outras ilhas). “Trata-se de pessoas que não são portuguesas, mas têm curiosidade em saber a história da baleação”, explica João Carlos Pinheiro, frisando: “Posso dizer que é turismo de 1ª classe. Estes turistas ficam em bons hotéis, comem em bons restaurantes e levam grandes souvenirs. Isto é um intercâmbio muito importante para a ilha do Faial e para nós que vivemos no estrangeiro, pois trata-se de divulgar a grande ligação que existe entre a Horta e New Bedford, devido à baleação. E isso é visível na arquitectura e noutros aspectos em ambas as cidades”.

E no contexto destas excursões, é de referir que as pessoas envolvidas demonstraram interesse em voltar a estas ilhas.

“A Regata Internacional de Botes Baleeiros tem suscitado um grande interesse nos americanos que fazem perguntas sobre esta tradição, estão a aderir às regatas e revelam vontade de vir visitar os Açores (ilha do Faial e outras). Isto provocou um impacto positivo acima dos 50% na comunidade americana não só de New Bedford, mas da área de Boston e Massachusetts”, realça este faialense.

João Carlos Pinheiro, a “alma” e o rosto da Regata Internacional de Botes Baleeiros (condecorado pelo Secretário de Estado das Comunidades, José Cesário, em representação de toda a comunidade) revela que a próxima será em 2015, “provavelmente” na primeira semana do mês de Julho, por forma a coincidir com a independência da América e o aniversário da cidade da Horta, ambas as datas assinaladas a 4 de Julho.

Uma geminação assegurada
A geminação destas duas cidades nasceu através da celebração de um protocolo em 1972, na altura em que Fernando Neto, que emigrou na sequência do Vulcão dos Capelinhos, era o representante da cidade de New Bedford.

A ligação entre as duas cidades irmãs começou a ganhar importância quando o Porto da Horta se tornou abrigo para os grandes barcos baleeiros provenientes de New Bedford, tendo esta cidade sido, mais tarde, o destino de uma das primeiras vagas da emigração dos Açores para os EUA.

João Carlos Pinheiro sublinha que “a mudança de presidentes da câmara tanto de um lado como do outro não pode jamais ser um entrave a este intercâmbio, importante na actualidade e para os vindouros”. E prossegue: “E esta ligação pode ser expressa através da Regata de Botes Baleeiros, Folclore, palestras ou outras iniciativas tanto cá como lá. Espero que não se perca e que seja intensificada”.

Mystic Seaport Museum, Morgan e a relação com o OMA


Fonte da Foto: https://www.google.pt/search?q=fotos+da+morgan,+embarcação+baleeira&espv=2&biw=1280&bih=656&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X

O Mystic Seaport Museum está situado em Mystic Seaport, uma vila-museu localizada na cidade de Mystic, no estado norte-americano de Connecticut, mesmo no estuário do rio Mystic. A vila costeira é composta por mais de 60 casas-museu, cuidadosamente restauradas.

O Mystic Seaport Museum é o maior museu marítimo do mundo, sendo notável pela sua colecção de barcos à vela, de madeira, com a recriação dos ofícios e tecido de toda uma aldeia marítima do século XIX. Foi fundado em 1929 como o “Marine Historical Association”. A sua fama surgiu com a aquisição, em 1941, do Charles W. Morgan , a única embarcação baleeira à vela de madeira que sobreviveu até ao presente sendo, por isso, o símbolo maior da época em que este país dominava a indústria baleeira.

O Charles W. Morgan é o último de uma frota baleeira norte-americana que somava mais de 2.700 embarcações. Construído – em New Bedford – e lançado em 1841, o Morgan é agora o navio comercial americano mais antigo ainda à tona, a seguir ao USS Constitution, com a particularidade de 80% das suas madeiras ainda serem as originais.

Ao longo de uma carreira baleeira de 80 anos, o Morgan embarcou em 37 viagens entre 1841 e 1921, a maioria das quais com a duração de três anos ou mais. Construído visando a durabilidade e não a velocidade, percorreu todos os cantos do globo em busca de baleias. É conhecido como um “navio de sorte”, tendo navegado com sucesso esmagador contra o gelo do Ártico, nativos hostis, inúmeras tempestades, perigos do Cabo Horn e até mesmo contra o furacão de 1938. O Morgan custou cerca de 27 mil dólares e realizou 38 viagens. Na primeira conseguiu capturar 57 baleias com uma tripulação de 37 homens. Desde o seu lançamento ao mar, foram mais de 700 elementos, de várias nacionalidades, que fizeram parte da tripulação do Morgan.

Desde 1941 que esta embarcação baleeira está em exibição no Mystic Seaport Museum.

Em 1966 foi classificada como Marco Histórico Nacional Americano. Em 2008 foi colocada em doca seca para restauro e a 21 de Julho de 2013 foi lançada à água novamente para partir, em 2014, em mais uma viagem histórica pelos portos da costa leste americana. Deixou o Mystic Seaport Museum a 17 de Maio deste ano para embarcar na sua 38ª viagem pelos portos históricos da Nova Inglaterra. Foi uma jornada de quase 3 meses com o objectivo de sensibilizar as pessoas para o património marítimo da América, chamando a atenção para as questões de sustentabilidade e conservação dos oceanos. O navio regressou da sua 38ª viagem a 6 deste mês e retomou o seu papel na exposição do Mystic Seaport Museum.

De 28 de Junho a 6 de Julho deste ano, a Charles W. Morgan esteve na cidade de New Bedford, o seu porto de origem, onde decorreram as maiores festividades da sua 38ª Viagem. Foram 9 dias preenchidos com concertos, regatas, cortejos, entre outros eventos públicos, que envolveram a comunidade americana e a comunidade internacional. Numa cidade em que a presença açoriana é demasiado evidente, os Açores são parte integrante deste evento histórico. Estas ilhas tiveram um papel relevante na história da baleação americana, pois tornaram-se numa escala privilegiada de apoio à frota baleeira que cruzava o Atlântico, destacando-se nesta encruzilhada a abrigada baía da Horta, na ilha do Faial.

Mas não foi só como escala baleeira que os Açores se destacaram. A numerosa presença de açorianos nas tripulações americanas, quer como simples marinheiros, quer como arpoadores destemidos ou até como capitães baleeiros, foi para sempre imortalizada no afamado clássico da literatura americana Moby Dick. Foi por isso fundamental que os Açores tenham marcado presença forte nestas comemorações em New Bedford. Esta presença foi, mais uma vez, assegurada pelo Observatório do Mar dos Açores (OMA), que levou uma exposição itinerante intitulada “Port of Call: the Western Islands”.

A exposição ilustrou o papel dos Açores na actividade da frota baleeira americana através das várias viagens baleeiras realizadas pela Charles W. Morgan com passagem pelo arquipélago. O OMA marcou ainda presença no Whaling History Symposium, que contou com a presença de vários investigadores internacionais, com uma comunicação oral proferida por Márcia Dutra.

Este projecto surge da firmada relação entre o OMA, o New Bedford Whaling Museum (NBWM) e o Mystic Seaport Museum. Esta relação teve início em 2010, quando o OMA levou a exposição “A Baleação no Faial: a fase industrial (1940-1981” à inauguração da Galeria do Baleeiro Açoriano no NBWM.

Em 2012, Márcia Dutra, colaboradora do OMA, esteve 3 meses a trabalhar naquele museu como curadora convidada, para actualizar os conteúdos expositivos daquela Galeria. Foi também nesse ano que se iniciou uma parceria com o Mystic Seaport Museum que já visava as comemorações da 38ª Viagem da Charles W. Morgan. Em 2013 dois colaboradores do OMA deslocaram-se ao Mystic Seaport Museum para efectuarem uma pesquisa e recolha de informação no arquivo desta instituição.

Fotografias de: Cristina Silveira