“A Figura do Mês” - Carlos Fontes: “O CNH dispõe de uma dinâmica enorme e não tem Sócios para o acompanhar”

Tem nos Botes Baleeiros uma grande paixão, tendo trabalhado para a sua recuperação assim como para a da lancha “Walkiria”. Integrou quatro elencos directivos do Clube Naval da Horta (CNH) e não há dia que não passe pelas imediações desta instituição, sem a qual, diz, “o Faial não era a mesma coisa”. Estamos a falar de Carlos Alberto Brum Fontes, um Sócio que pugna por esta “casa” adiantando, contudo, que neste momento não tem disponibilidade para voltar às lides antigas, por saber que “o CNH exige muito tempo e trabalho para quem leva isto a sério”.

Foi com a espontaneidade conhecida e a frontalidade que o marca, que aceitou dar corpo a esta rubrica – que assinala este Dezembro 13 meses de Figuras – criada com o intuito de recordar, valorizar, reconhecer e agradecer o trabalho destes homens e destas mulheres que, num espírito de sacrifício e abnegação, têm contribuído para o engrandecimento desta instituição náutica faialense chamada Clube Naval da Horta.

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A Acta de Posse de 3 de Dezembro de 1996, recorda que Carlos Fontes foi Secretário da Direcção do CNH, tendo como Presidente José Decq Mota 

Depois de um primeiro mandato a trabalhar com José Decq Mota como Presidente da Direcção do CNH, no ano de 1996, Carlos Fontes voltou a fazer parte da equipa deste líder. Isso aconteceu em 1999, na sequência da renúncia de Nuno Lima, tendo desempenhado as funções de Vogal.

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A 25 de Março de 1999, Carlos Fontes tomava posse como Vogal da Direcção 

“Eu era o Responsável pelo iate do Clube”

“Cheguei ao CNH através da Mocidade Portuguesa, tendo andado nos Lusitos”, recorda. “Fui ganhando o gosto pela Vela mas não apanhei a fase seguinte, já com os novos modelos, pois, entretanto saltei para um outro projecto do Clube Naval, em que fiquei responsável pelo “Ilha Azul”. Nessa altura – década de 90 – era Presidente do Clube, tal como hoje, José Decq Mota.

Eu não pertencia à Direcção, mas predispus-me a tomar conta do “Ilha Azul” e tomar conta implicava olhar por ele, sair com ele, fazer a manutenção, trabalhos de pintura, etc. Estamos a falar do iate do CNH. Era a fina flor do Clube.

Quando me envolvo num projecto é para trabalhar

Depois de trabalhar dois mandatos com José Decq Mota, posteriormente fui convidado para integrar a equipa de João Pedro Garcia. Entrei com ele e fiquei como Vice-Presidente, sendo Responsável pela Secção dos Botes e por todo o equipamento, e, ainda, com envolvência em todas as Secções. Fiz duas “Atlantis Cup”, como organizador, em que também ia para o mar selar motores. Naturalmente que um evento desta envergadura dá trabalho, mas penso que não é tanto como dizem. E digo isto, porque quando me envolvo num projecto é para trabalhar e quando o trabalho é dividido por todos, não custa. Na organização de uma das Regatas da “Atlantis Cup” trabalhei com o engenheiro Nuno Lima, uma pessoa de actividade excelente, que também era nosso Vice-Presidente.

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João Pedro Garcia tomou posse como Presidente da Direcção do CNH, pela primeira vez, a 15 de Fevereiro de 2005, sendo Carlos Fontes um dos Vice-Presidentes

Apesar de tudo o que foi referido, a minha grande envolvência era nos Botes. Comecei a andar no “Claudina”, do CNH, e as coisas foram evoluindo. Recordo-me que íamos com a “Atlântida” participar nas Regatas dos Botes Baleeiros para a Calheta e para as Ribeiras do Pico e por vezes não chegávamos no mesmo dia, pernoitando-se lá por causa do mau tempo. Mas participava-se sempre e esse era precisamente o nosso intuito.

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“A minha grande envolvência foi sempre nos Botes”

Acompanhei os trabalhos de recuperação dos botes “Claudina” e “Maria da Conceição”, do CNH, e já com o João Pedro ao leme do CNH criámos a Secção dos Botes Baleeiros do Faial”.

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Os trabalhos de recuperação do bote “Claudina” foram acompanhados por Carlos Fontes

Em 2006, Carlos Fontes integrou um quarto elenco directivo, novamente como Vice-Presidente e uma vez mais ao lado de João Pedro Garcia como Presidente da Direcção.

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A 27 de Novembro de 2006, Carlos Fontes tomava posse novamente como Vice-Presidente da Direcção do CNH

“Orgulho-me de ter criado três marcos importantes para o CNH”

“Orgulho-me de no tempo em que andei por aqui no activo, terem sido criados três marcos importantes para o CNH (e todos relacionados com os Botes): Secção de Botes Baleeiros da Ilha do Faial; I Regata Internacional de Botes Baleeiros e reconstrução da “Walkiria”.

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A fotografia recorda um dos momentos da IV Regata Internacional de Botes Baleeiros realizada no Faial

O processo de dar nova vida à “Walkiria” foi uma coisa do outro mundo. Muito bom! Deu muito trabalho e demorou um ano mas valeu a pena! Neste projecto esteve envolvida a Câmara (pois a lancha é propriedade da edilidade faialense, estando cedida ao CNH mediante um Protocolo) eu, o João Pedro Garcia e o engenheiro Nuno Lima, que era o mentor deste trabalho.  

Levámos a “Walkiria” do Faial para o Pico para ser reconstruída milímetro a milímetro, exactamente como era originalmente, no Calhau da Ponta, pelo mestre Manuel Monteiro, excelente carpinteiro.

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“A lancha “Walkiria” é uma mais-valia para o CNH”

Se não tivéssemos esta lancha, a Secção dos Botes não evoluia. E a verdade é que ultimamente ela até tem participado nos Campeonatos Regionais de Botes Baleeiros, tendo feito viagens para as Flores (2016), Santa Maria (2017) e Terceira (2018).

Sendo dúvida que é uma mais-valia para o Clube, pois sem ela não era possível fazer as regatas com os 8 botes.

Vivi sensações muito boas nesta Secção e no CNH!

Nunca hei-de esquecer que fomos a primeira vez à América! O objectivo foi a participação na I Regata Internacional de Botes Baleeiros. E lá, como cá, esta actividade é extremamente importante para a preservação deste património e desta cultura. Eles evoluiram, pois nesse tempo tinham só dois botes mas depois envidaram esforços para um terceiro e o nível é muito bom. O primeiro foi o “Bela Vista”, a que se seguiram o “Pico” e o “Faial”, feitos pelo mestre João Tavares, do Pico.

Nos Botes, fazem-se muitas amizades e até namoros e casamentos!

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Semana do Mar 2006: “Os Botes era a Secção forte do CNH”

Na altura, os Botes era a Secção forte do Clube. Era uma coisa louca com muita gente! E como em tudo na vida, o que move esta gente é o gosto, o convívio, as ligações que se criam! Ali, fazem-se muitas amizades e até namoros e casamentos! Assisti a isso tudo. Namoros então é mais fácil, com a convivência, as viagens, etc.

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Semana do Mar 2006: “O que move esta gente é o gosto!”

Nunca pensei ser Presidente do CNH. Nem quero!

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Carlos Fontes: “No meu tempo era trabalho e agora é muito trabalho!”

Hoje a minha vida mudou e tenho muito pouco tempo disponível atendendo a que sou Responsável pela Loja do Instituto Nacional para o Aproveitamento dos Tempos Livres (INATEL) na Horta, o que me trouxe mais responsabilidade. Numa situação de reformado, certamente que a minha posição seria outra.

Para se ser Director do CNH, é preciso dispender de muito tempo e eu sei disso porque já vivi este filme por dentro.

Gostei de dar o meu contributo e de trabalhar tanto com o José como com o João que, na minha opinião, foram os Presidentes do Clube Naval da Horta mais dinâmicos.

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IV Regata Internacional de Botes Baleeiros, realizada em Julho de 2008: Carlos Fontes, João Garcia e Eduardo Sarmento em grande plano

Nunca pensei ser Presidente. Nunca! Nem quero! É um cargo que dá muito trabalho. Além do mais, é preciso ter um perfil certo para se ser Presidente desta “casa” e isso é sinónimo de tempo, de ser uma pessoa capaz e com espírito de sacrifício, porque é necessário estar disponível de dia e de noite. É uma coisa impressionante! Se repararmos, o actual Presidente está sempre no Clube. Podemos ser levados a pensar que se trata de algo extraordinário e que anteriormente não era assim, mas atenção, que o CNH tem vindo sempre a evoluir em termos de trabalho. No meu tempo era trabalho e agora é muito trabalho!

Vai ser dificil arranjar um Presidente para o CNH

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“O elevado patamar em que se encontra o CNH está a assustar as pessoas”

Esta equipa, e muito especialmente o José Decq Mota, criou um patamar muito difícil de atingir ou igualar. E penso que é isso que está a assustar as pessoas, fazendo com que não apareçam listas concorrentes.

Vai ser dificil arranjar um Presidente para o CNH, exactamente por causa do patamar em que o Clube se encontra.

Se me pedirem para apontar uma solução, eu diria que passa por reduzir a actividade: menos eventos em cada Secção e nunca ter sequer a tentação de reduzir o número de Secções.

Sei que apenas os que andam por aqui e vão às Assembleias-Gerais têm noção do trabalho que esta “casa” tem e dá! De resto, ninguém faz ideia.

Aquele Sócio que gosta é que está envolvido nisto.

A sede nova não avança por falta de vontade política

As nossas autoridades não estão a olhar para o Clube como deveriam nem como ele merece. Falta uma sede! O CNH já anda a bradar há anos por uma sede e não consegue. Agora com o projecto da 2ª fase do Reordenamento do Porto da Horta não se fala nada nisso. É vergonhoso! No meu entender, estamos perante falta de vontade política e é por ser no Faial, pois se fosse noutra ilha ao tempo que esta situação estava resolvida.

O CNH deve chatear muita gente e não percebo porquê! Só se é por causa do grande volume de trabalho que tem. Estamos a falar de uma instituição que não faz sombra a quem quer que seja. Não sei, sinceramente, qual é o problema.

Com o actual estado de degradação em termos de instalações, acho que o CNH faz demais atendendo à falta de condições. Anda em espaços emprestados e a ideia que passa para fora é de que esta instituição náutica anda a fazer mais com menos.

São sempre os mesmos envolvidos nos destinos desta “casa”

Garantidamente, a maior parte dos Sócios não sabe o que se passa no CNH, porque não quer aparecer nem chatear-se com isto. E depois acontece que são sempre os mesmos envolvidos nos destinos desta “casa”. É por essa razão que cansa! Um Sócio que organiza uma lista candidata às eleições, sabe à partida que não vai ficar só 2 anos. Só se o trabalho correr muito mal, caso contrário já sabe de antemão que vão ser 4 anos consecutivos de muito trabalho. Este é um cenário que tem vindo a acontecer com muita frequência. E verdade seja dita, que quem quiser dar continuidade a um projecto, penso que 2 anos é manifestamente pouco.

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Carlos Fontes (o segundo da esquerda para a direita) na Entrega de Prémios da Regata de Botes Baleeiros na Feteira, no ano de 2008, ao lado de Eduardo Pereira, então Presidente da Junta de Freguesia (o terceiro da esquerda para a direita)

O maior problema é financeiro

Apesar do que referi, julgo que o maior problema do CNH é financeiro, porque viver de subsídios é complicado. Quando se vive na terra dos outros torna-se complicado!

A Campanha de Angariação de Sócios, que está a decorrer, é um aspecto positivo, pois as quotizações representam uma fonte de rendimento, tal como o combustível, mas é muito pouco.

Antigamente o CNH detinha o monopólio do combustível mas agora não é assim. Já há concorrência, que também apareceu na altura em que estive cá, mas essas empresas levaram chá. No entanto, agora desviam os barcos todos bons e o CNH fica apenas com o que sobra.

Um novo Sócio está a ajudar o CNH

E já que falamos na Campanha de Angariação de Sócios, que termina no dia 31 deste mês, é notório que a maioria das pessoas não pensa que ao fazer-se associado do CNH está a ajudar esta “casa” mas é um facto! Estamos a falar de 3 euros mensais que podem representar menos 3 cafés ou menos 3 cervejas por mês. Mas sei por experiência que quem se faz sócio de qualquer instituição pensa sempre primeiro nas contrapartidas que pode ganhar com isso. E no caso concreto do CNH até aumentaram as vantagens para os associados. Já não é só o desconto na Marina ou nos Cursos da Náutica de Recreio. A oferta é muito mais abrangente.

O CNH é uma Escola de Formadores a todos os níveis 

O CNH é uma Escola de Formadores a todos os níveis! No que diz respeito ao mar, esta instituição dá cartas no Faial e não só. A maior parte dos directores vem formar-se no CNH. Aliás, para alguns é uma rampa de lançamento. Há os que têm pretensões e também há os que não têm. É como em tudo.

Desde a Náutica de Recreio até à Formação dos mais novos (e também de adultos), passando pela Representação da ilha fora de portas, o Clube Naval da Horta é uma bandeira do Faial e dos Açores, com uma vasta actividade ao longo de todo o ano.

O CNH dispõe de uma dinâmica enorme e não tem Sócios para o acompanhar. O que salva esta situação são os Voluntários, que sempre tiveram muito peso e continuam a ter e espero que assim se mantenha, pois se não fosse assim, fazia-se muito menos. Esta gente não ganha nada. Colabora porque gosta e se identifica com o espírito e a postura desta instituição e não por causa de um jantar, que funciona como meio de convívio. O nosso Sócio colaborador gosta disto. E só não aparecem mais Voluntários/Colaboradores, porque muitas vezes há mesquinhices que vão minando o ambiente.

Aproximar os campos de regata de terra

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“Sempre batalhei para que os Botes Baleeiros tivessem bandeiras a fim de que as pessoas os pudessem identificar de terra”

Sem dúvida que o Festival Náutico é um marco do Clube Naval da Horta e da Semana do Mar. Naturalmente que podia haver Semana do Mar sem CNH, ou seja, sem Festival Náutico, mas não era a mesma coisa.

Podemos ser levados a pensar que há um divórcio entre o que se passa em terra e o que se passa no mar mas foi sempre assim. Tem de haver públicos para tudo e para a maior parte das pessoas o mar não diz nada. O Festival Náutico decorre no mar e as pessoas não podem lá chegar. Não é a mesma coisa que chegar e ver uma filarmónica.

Por vezes os campos de regata estão muito fora. Daí que no meu tempo de Director a minha grande “guerra” era precisamente no sentido de aproximar os campos de regata de terra por forma a que as pessoas pudessem ver o máximo possível.

Também sempre batalhei para que os Botes Baleeiros tivessem bandeiras a fim de que as pessoas os pudessem identificar de terra. O que quero com isto dizer é que quem está na avenida deveria conseguir perceber o que se está a passar no mar, na regata.

Se estivermos no Largo do Infante a assistir ao desenrolar de uma regata de Botes Baleeiros, todas as embarcações são iguais mas se for possível ver um desenho na vela já nos ajuda a perceber a prova, o que entusiasma quem vê, porque permite acompanhar a disputa.

Não há Semana do Mar sem Festival Náutico nem o contrário

E se estivermos a falar do Festival Internacional de Vela Ligeira, que atrai mais de 100 miúdos dos Açores, Continente, Madeira e do estrangeiro, é uma coisa linda de se ver! Por isso, os campos de regata têm de estar mais próximos de terra.

O Festival Náutico já vai em 10 dias de realização, o que é sinónimo de um trabalho sem precedentes no Faial, nos Açores e no País. Aumentar os dias de festa seria uma forma de “matar” a Direcção do CNH!

Penso que não há Semana do Mar sem Festival Náutico nem o contrário. E a prova disso é que quem vem ao Faial para participar nas inúmeras actividades, no mítico Caldo de Peixe do CNH, etc, também quer ir ver os concertos, ir às tasquinhas, viver a festa e divertir-se. Isto tem tudo uma envolvência, uma inter-ligação muito grande e antiga!

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Ano de 2008: “O Festival Internacional de Vela Ligeira, que atrai mais de 100 miúdos dos Açores, Continente, Madeira e do estrangeiro, é uma coisa linda de se ver!”

“Atlantis Cup” deve regressar ao modelo inicial

Relativamente à “Atlantis Cup” penso que andámos para trás.

O figurino inicial e que se manteve ao longo de anos, foi sempre São Miguel/Terceira/Faial. E penso que deveria voltar a ser assim. Participar numa regata destas, com o actual modelo, implica ter muito tempo disponível (3 semanas) e penso que esse é o entrave principal a que não haja mais participantes.

Os velejadores açorianos têm de ser mais cativados. O Faial está muito sozinho neste evento. Nota-se vontade por parte da Terceira mas desinteresse em relação a São Miguel. Além de ser necessário “agarrar” mais os participantes açorianos também não se deve desprezar os patrocinadores que têm colaborado com o CNH, mas sempre tentando angariar outros.

A divulgação que se faz desta Regata fora dos Açores penso que é bem feita e tem dado frutos.

Acho muito bem envolver as ilhas todas num evento náutico e afirmar a unidade autonómica, mas noutro contexto. A “Atlantis Cup” não foi criada com esse propósito”.

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