“A Figura do Mês” – Delfim Vargas: “O CNH é uma bússola na vida dos mais novos”

Muito antes de ser um empresário bem sucedido, Delfim Vargas já era Sócio do Clube Naval da Horta (CNH) e um amante do mar e da pesca.

Este faialense, natural da Feteira, confessa que o mar “sempre foi uma tentação”. E lembra:

“Fazia parte de um grupo de amigos – onde se incluiam, também, o José Mário, o Hermínio Freitas, o Luís Gonçalves da Rosa e outros – em que começámos a organizar um jantar e umas brincadeiras, o que depois evoluiu para uma festa realizada num dia certo, em que fazíamos uma caldeirada e grelhávamos peixe. Começámos a convidar os iatistas e todos os anos essa festa foi crescendo e depois o Clube Naval é que tomou as rédeas da organização, a Câmara associou-se e veja-se o que é hoje a Semana do Mar!”

Os negócios – é proprietário da empresa “Delfim Vargas Lda” – nunca lhe permitiram corresponder aos convites recebidos para integrar os Corpos Directivos do CNH mas desde muito cedo que abraçou a pesca desportiva e adianta que vai voltar ao Campeonato de Pesca Desportiva de Barco do Clube Naval da Horta.

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Delfim Vargas: “Estou confiante na capacidade e vontade dos meus filhos em perpetuar o nome e continuar a servir os nossos clientes”  

Mesmo tendo feito um interregno em termos de competições, este pescador – que já teve vários barcos e que actualmente navega no “Raio Azul” – nunca deixou de patrocinar o Campeonato de Pesca Desportiva de Barco do CNH. “Eu ia pescar de barco e participava nas provas organizadas pelo Clube. Eu e a minha equipa fizemos provas boas e ganhámos alguns títulos. Chegámos mesmo a ser campeões regionais. Continuo a pescar. Ainda há poucos dias fui às garoupas.

Deixei de participar nos Campeonatos mas vou regressar às provas, porque isso “obriga-me” a ir para o mar. Posso dizer que este desporto é um vício, porque quando estamos a pescar, o assunto é a pesca e nada mais.

Se vamos fazer um corrico à volta da ilha, levamos vinho, cerveja, comida, vamos brincando, comendo e bebendo uns copinhos. Mas se os carretos cantaram, acabou-se a comida e vamos para os carretos. E no meu barco temos feito umas boas pescarias. Digo com orgulho que nunca fui à pesca que não trouxesse peixe para casa. Também gosto de ir ao atum quando ele não está muito longe. Fomos uma vez ao atum fora do Monte da Guia e mesmo com mar muito porcalhão, em hora e meia apanhámos 11 peixes, num total de 950 quilos. Foi rápido!”

O prazer e o convívio constituem o mote para as pescarias, já que este homem do mar se assume contra o negócio neste tipo de pesca. “Nunca vou à pesca pelo peixe, pois saía-me mais barato ir comprá-lo. Se for um corrico, é barato, porque o barco tem dois motores de injecção directa, o que representa um baixo consumo. Mas se for para acelerar e ir para longe como já fomos ao “Princesa Alice” ou ao “Condor”, torna-se uma pescaria muito dispendiosa. Isso resolvia-se se eu vendesse peixe mas sou contra isso, porque estamos a falar de pesca desportiva. Tudo o que eu apanho é para a família e amigos. Nunca fiz um euro num peixe que tenha capturado e sou contra quem vai pescar em termos desportivos e faz negócio! Acho que é injusto. Vou à pesca pelo desporto, pelo convívio e para reinar com os amigos. É uma forma de descontrair um bocadinho, porque tenho uma vida muito cansativa. Na pesca desligo-me totalmente. Funciona como um bom escape”.

“A gente amarra-se a ele e presta atenção”

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“Defendo muito o Zé neste cargo, porque ele quando discursa vive o que diz. Ele vive aquilo!”

É com a fluidez de discurso que lhe é conhecida e sem qualquer questão prévia, que Delfim Vargas expressa a sua opinião sobre o timoneiro deste grandioso “barco” chamado Clube Naval da Horta: “Ultimamente, o Clube tem tido sorte de ter à frente um grande Presidente como o José Decq Mota, um homem que, na minha opinião, mexe com aquilo. Já conheci muitos presidentes naquela “casa” mas defendo muito o Zé neste cargo, porque ele quando discursa vive o que diz, a gente amarra-se a ele e presta atenção. Ele vive aquilo. Gosto muito de toda aquela família, que é gente boa. Inclusivamente o pai dele, que era o médico da minha casa – numa altura em que não havia dinheiro – nunca levou um escudo a minha mãe e a meu pai. Era um homem excepcional. Excepcional mesmo! Gostei muito da homenagem e do busto que lhe fizeram mas entendo que o local escolhido deveria ter sido um bocadinho mais amplo e com mais sol”.

“A sede do CNH é uma desgraça!”

“Em contraponto ao excelente Presidente, temos uma sede que é uma desgraça!

Foi um bonito edifício mas sempre pouco funcional para o Clube. É todo em betão, betão esse que foi envernizado e no nosso meio não podemos ter betão sem ser rebocado e pintado, porque se o ar entra, oxida o ferro e rebenta tudo. Por duas vezes já substituí parte das portas da sede mas é imperioso uma grande intervenção. O CNH merece uma sede nova e tenho esperança de que o Governo Regional vai atender a este pedido justo. E digo isto, porque estamos a falar do mais dinâmico Clube Naval dos Açores, com actividade ao longo de todo o ano. E isto também só é possível porque temos um Porto que é muito abrigado. No Faial, contrariamente ao que acontece noutras ilhas, há muitos dias em que os miúdos podem praticar desporto pelo facto de a natureza nos ter ajudado bastante, pois o Porto da Horta beneficia do abrigo resultante do Monte da Guia, da Espalamaca, de São Jorge e do Pico. Mesmo com o que está feito em termos de novas obras. Embora eu não seja uma pessoa abalizada para me pronunciar sobre projectos e obras no Porto, considero que podíamos ter sido mais felizes caso o braço de mar tivesse tido outra profundidade, o que implicaria mais 8 ou 9 milhões de investimento. Sempre pensei que aquele braço ia lançar o mar por fora do outro braço. Nunca julguei que tivesse a actual trajectória.

Antigamente, precisávamos de um porto muito amplo para manobras mas hoje em dia os navios são muito manobráveis. Sinceramente, gostava de ter a nossa baía limpa e aquilo que fosse para nascer deveria ser no sentido de ir roubar espaço ao mar e não à baía.

Já quando fizemos a primeira marina, a obra era para começar lá em baixo mas algumas forças vivas locais não entenderam assim e o resultado foi uma infraestrutura muito reduzida, que não satisfaz a grande procura. Mas estou convencido de que as coisas vão tomar o rumo certo”.

“Deveríamos ser mais virados para o mar”

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“Vives numa ilha e não sabes nadar? Isso não se admite”

Este empresário, que tem 3 netos, vê no CNH uma mais-valia para ocupar e formar os mais novos, servindo como bússola nas suas vidas. “O CNH é muito importante para o Faial e até para os Açores, pelo papel que tem no entretenimento e orientação das camadas jovens. A mocidade tem de estar ocupada senão desvia-se e acaba nos vícios.

Estou convencido de que as pessoas reconhecem o papel do CNH, embora eu diga sempre que, pelo facto de vivermos numa ilha, deveríamos ser mais virados para o mar. E posso falar da minha experiência, pois quando aprendi a nadar já tinha 38 anos. Minha mãe não me deixava ir para o porto da Feteira nadar com os meus amigos. Havia muito respeito pelo mar. Para ela, o mar era sinónimo de perigo. Não havia hipótese. Os meus filhos foram “obrigados” a ir para o mar desde muito pequenos. Vives numa ilha e não sabes nadar? Isso não se admite. Os pais têm muito respeito pelo mar, receando que possa acontecer alguma fatalidade”.  

“Eu gosto de ver o José no Clube”

Delfim Vargas não acha possível que qualquer pessoa possa presidir aos destinos da única instituição náutica faialense. E sobre esse assunto, tem ideias bem definidas. “É preciso ter alguns conhecimentos e estar de bem com as forças vivas desta Terra, porque vai ser indispensável pedir apoios e encontrar parceiros. Tudo, porque, o dinheiro que entra naquela colectividade resultante das quotas é muito pouco. E alguns nem pagam! Aquilo que pagamos pela quota é um valor irrisório. Mas quando se fala em aumentar, começam logo a barafustar.

Eu adorava que o Bar e a Sala de Convívio fossem só para Sócios mas não é com esta receita que o Clube pode sobreviver.

Na minha perspectiva, os jovens ainda não estão preparados para liderar uma instituição como o Clube Naval da Horta. É preciso ter conhecimentos, experiência, traquejo.

Acho que o José Decq Mota combina bem com os novos e com os de mais idade. Penso que ele está muito bem ali, pois, além de saber e ter um grande gosto, não o vejo a tratar do quintal. Eu gosto de vê-lo no Clube. É verdade que somos amigos mas é inegável que se trata de uma pessoa dinâmica, que sabe estar e falar. Os outros presidentes do CNH também trabalharam mas este é um homem diferente, pois sabe de mar, sabe navegar e gosta muito do Clube!

Também não sou apologista de um presidente pago ou de um gestor. Onde é que o Clube vai buscar dinheiro para isso? E mais! Não basta ter um gestor, pois essa pessoa teria de ser alguém com um conhecimento muito vasto sobre o Clube e tudo o que ele envolve. Não acredito que isso funcione. Não é fácil encontrar um presidente com as qualidades e competências que o cargo exige. Nota-se que há ali indivíduos que percebem de algumas coisas mas não sei se seriam assim tão bons para gerir o CNH. Certamente que irá surgir um sucessor no tempo certo”.

Uma carreira feita de trabalho, visão e pioneirismo

Delfim Alberto Vargas Garcia é natural da Feteira, freguesia onde nasceu há 72 anos (completos na próxima noite de Natal). Oriundo de uma família humilde, é o segundo de 6 irmãos: Manuel Jorge, falecido há 3 anos; Delfim; José Pedro, radicado nos EUA; António Eduíno, que vive em Lisboa e trabalhou muitos anos com o irmão Delfim na capital portuguesa, dedicando-se agora à construção civil; Maria de Fátima, também já falecida; e Fernanda Luna, uma empresária do nosso meio.

“A nossa casa era muito pobre. Vivíamos com o salário de meu pai. Foi uma vida difícil”.

O nosso entrevistado – que se assume como um empresário “sério” – começou muito cedo a trabalhar, tendo sido encarregado geral da antiga SOFACOL - Sociedade Faialense de Construções, Lda., empresa que era do irmão Manuel Jorge e de outros três sócios: Norberto Goulart, Amílcar Vieira e Gilberto Vieira e que se dedicava ao fabrico de caixilharias em PVC e não só.

“O primeiro sócio a falecer foi o Amílcar, que não resistiu a uma operação ao coração. Posteriormente, o meu irmão foi para os EUA, viveu uns anos na Califórnia, tendo eu ficado a substituí-lo. Mais tarde, acabou por abandonar a sociedade, assim como o Norberto. Resistiram o Gilberto e eu.

Em 1978, decidi deixar a empresa. Atendendo a que tinha sido eu a introduzir as caixilharias em PVC, fiquei com o negócio – mas só depois de conversar com o Gilberto – e comecei a trabalhar por conta própria”.

“Delfim Vargas Lda”: uma empresa polivalente e única em Portugal

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Delfim Vargas: “A minha empresa é a única que em Portugal faz caixilharia, tratamento dos alumínios, transformação do vidro simples em vidro duplo, decapagem e metalização”

“Quando abri a minha empresa – há 40 anos, mais precisamente em Agosto de 1979 – e construí o primeiro edifício, este estava direccionado para o fabrico de caixilharias em PVC. E foi por causa de eu ter introduzido o PVC nos Açores que a empresa foi distinguida pelo Governo Regional, na área da Inovação. Na altura, era director regional o engenheiro Medina. Eu era o único empresário com esta actividade em Portugal. Durante 6 anos fui mesmo o único fabricante português de caixilharias em PVC.

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Prémio atribuído pela Secretaria Regional do Comércio e Indústria, como reconhecimento público pelo concurso dado ao desenvolvimento dos Açores na área da Inovação 

Fotografia cedida por: Delfim Vargas

Iniciei com o PVC nacional, que depois foi substituído pelo alumínio que vinha de fora, totalmente lacado ou anodizado. Comecei a ter problemas com o alumínio quando passou a ser lacado, porque o lacado é o mundo da cor, são muitas cores, ao contrário do que se verificava com o anodizado, que era de melhor qualidade e mais resistente. A tendência passou a ditar o uso dos lacados mas deparei-me com dificuldades em termos da variedade de cores disponíveis. Perante isso, montámos uma linha de lacagem e fizemos a fábrica nessa altura. Foi, na realidade, um grande investimento!

Depois veio a moda do vidro duplo. Tínhamos de aguardar que o vidro viesse de Lisboa e como muitas vezes chegava partido, já nem o descarregávamos. Era preciso ficar à espera do novo vidro e sucedia que à terceira vez ainda chegava partido. Perante todos estes contratempos, lançámo-nos no fabrico do vidro duplo.

Seguiu-se a serralharia da parte metálica, para podermos fazer obras em ferro e alumínio. Nesta catadupa de novos serviços, inovámos uma vez mais com a decapagem e a metalização. E a parte comercial foi-se juntando. Foi um nunca mais parar!

Actualmente estamos a trabalhar novamente com PVC mas agora a tecnologia é totalmente diferente. Trabalhamos com PVC alemão, enquanto que o outro PVC era fabricado em Sintra, um fabrico português de muito má qualidade. Exactamente por isso, as pessoas nunca gostaram muito de PVC em portas e janelas mas nos nossos dias é precisamente ao contrário! Tudo porque hoje em dia temos uma caixilharia topo de gama.

Nalgumas áreas dominamos o mercado mas a verdade é que é difícil continuar a crescer. É imprescindível acompanhar as novidades e as tendências, por isso é crucial ir às feiras e nós costumamos marcar presença nalgumas das que se realizam em Portugal e em Espanha. Tenho plena consciência de que, nalguns sectores, não tenho concorrentes nos Açores nem mesmo a nível nacional. A minha empresa é a única que em Portugal faz caixilharia, tratamento dos alumínios (lacar, cortar e transformar), transformação do vidro simples em vidro duplo, decapagem e metalização.

Por exemplo, o perfil do revestimento utilizado no armazém novo é uma ideia nossa; foi desenvolvido por nós. Só existe em Portugal e a fábrica tem aquela matriz em nosso nome e fabrica exclusivamente para a minha empresa, porque o desenho é nosso e do arquitecto faialense Rui Serpa”.

Negócios no Faial, Pico e São Jorge

Actualmente, a empresa está dividida em duas áreas principais de negócio: sector comercial, com a venda de materiais de construção civil; e sector industrial, dedicado ao fabrico de caixilharias em alumínio, soldaduras e trabalhos em alumínio, estruturas de metalomecânica e a parte de ferro. 

A empresa tem vindo a expandir o seu negócio, estando implementada no Triângulo: Faial, Pico e São Jorge mas com presença noutras ilhas.

Há 5 anos, foi construído no Faial um armazém de cargas e descargas, que se destina essencialmente à recepção de mercadorias e cargas pesadas. O espaço está equipado com uma ponte rolante de 5 toneladas em que o camião entra e descarrega as mercadorias.

No Pico, a “Delfim Vargas Lda” dispõe de um armazém e loja de vendas na área dos perfis de alumínio, pretendendo expandir esta área à ilha de São Miguel, onde decorrem negociações nesse sentido.

“Abri primeiro no Faial e só depois no Pico, onde tenho um bom mercado. Forneço caixilharias e perfis de almúnio para a empresa “Clímaco Ferreira da Cunha”, na Calheta de São Jorge. Este senhor tem sido fantástico! É o meu melhor cliente de todos os tempos.

Também forneço material para a Graciosa e algum para as Flores.

São Miguel só agora se afigura como um nicho de mercado devido à péssima política de transportes marítimos que tínhamos até há bem pouco tempo, em que era preciso ficar um mês à espera que o contentor enchesse. Apesar de o Responsável pelos transitários da “Transinsular” me visitar sempre que vem ao Faial, atendendo a que sou um bom cliente, e me questionar sobre o porquê de eu não mandar carga para São Miguel, só muito recentemente é que se conseguiu alterar esta situação, tendo ele deixado esta garantia: “Se o Vargas quiser abrir um armazém em São Miguel para vender perfis de alumínio, todas as semanas sai um contentor da Horta”. E eu disse: “Basta ser semana sim semana não”. E ele esclareceu: “Ou cheio ou com um par de botas lá dentro”. E agora de 15 em 15 dias sai um contentor. O meu filho já foi a São Miguel para encontrarmos um espaço que satisfaça as necesssidades.  

Somos os nossos próprios transitários, por isso tenho um armazém em Lisboa por onde passa toda a mercadoria que vem para esta empresa. Temos lá um pórtico, onde os nossos camiões entram, bem como os empilhadores. Toda a mercadoria é carregada por nós. Para tanto, contamos com dois funcionários que dispõem de todas as condições para fazer esse trabalho”.

Nova loja nos Cedros

No decorrer desta entrevista, Delfim Vargas revelou que vai abrir, já em Julho, uma nova loja na capital do Norte, no Faial, que é como quem diz, nos Cedros. “Temos muitos clientes dos Cedros e por insistência deles decidimos abrir uma loja naquela freguesia nortenha. Para tanto, adquirimos um armazém onde funcionou a lavandaria da Santa Casa, na zona do Valverde.

Há muito que os clientes cedrenses vinham frisando esta necessidade, referindo sempre esta conversa: “Óh sr. Delfim, temos de andar mais de 40 quilómetros para vir buscar uma lata de diluente, um recorde, etc”. E realmente não se justifica”.

Um negócio familiar - garantia de continuidade 

A empresa “Delfim Vargas Lda” caracteriza-se por ser um negócio familiar, que integra os proprietários, o casal Delfim e Ilda, e os dois filhos: Nilda e Roberto.

Uma figura de referência ao longo de décadas e que já nos tinha habituado à sua maneira muito própria de lidar com os clientes, era Manuel Jorge (irmão do dono), que faleceu em 2016. “Tanto que eu lhe pedi para ele deixar de fumar!... A morte dele foi uma grande perda para mim, pois éramos muitos unidos!

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Roberto (o filho) com o pai (Delfim), tendo ao fundo o tio (Manuel Jorge)

Gerir este negócio é um inferno, com toda a logística que envolve. As pessoas não fazem a mínima ideia das dores de cabeça que isto dá!

Provavelmente vou morrer a trabalhar nesta empresa mas os meus filhos – os sucessores – tocam este barco para a frente sem qualquer problema. Eu já não faço falta à empresa! Trabalho porque gosto. O Roberto é o homem dos computadores e tem a empresa toda informatizada. Quando me lembro que eu, juntamente com meu irmão Manuel Jorge e os nossos funcionários fazíamos a caixilharia com as medidas todas riscadas à mão, dando os descontos para o vão da porta, os aros, a folha, o vidro!... Hoje, o meu filho introduz as medidas no computador, carrega na tecla e sai o mapa de corte com tudo certo. A serra corta e pronto! E quando sai, a peça já vai para o serralheiro, para o homem do vidro, etc. Está tudo facilitado! Tenho tanta pena de o meu irmão Manuel Jorge não ter visto isto!

Pelo que temos assistido nesta Terra, geralmente as empresas não chegam à segunda geração mas estou confiante na capacidade e vontade dos meus filhos em perpetuar o nome e continuar a servir os nossos clientes.   

Gostava que os meus netos se estabilizassem no Faial e nesse contexto já estou a tratar de um empreendimento para eles os 3. Como tal, comprei as antigas oficinas baleeiras, na Rua Nova, e avancei com um projecto para aquele espaço de 1.000 metros quadrados, que passa por implantar um parque para 30 carros e cerca de 20 apartamentos de 4 estrelas.

Fui há poucos dias a Lisboa à Queima das Fitas do meu neto, que acabou a Licenciatura em Contabilidade e Administração e agora pretende fazer o Mestrado em Gestão. Deposito grande esperança no futuro dele, assim como nos restantes, pois, a minha neta mais velha está, também, a fazer a sua Licenciatura, e a mais nova concluiu agora o 10º ano de escolaridade.

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Ilda com a filha Nilda: o presente e o futuro da empresa “Delfim Vargas Lda”

A minha família teve sempre um papel muito importante nesta empresa, com especial destaque para a minha mulher, boa gestora e defensora acérrima deste negócio, que muito tem trabalhado ao meu lado.

Claro que também há dias em que é difícil lidar com a família na empresa e por vezes a minha mulher e os meus filhos ouvem coisas que não eram bem para eles mas quando assim é, peço desculpa.

Estamos a falar de cerca de 40 funcionários e, portanto, nem sempre é fácil gerir tudo isto mas procuramos sempre dar o sempre o nosso melhor e deixar o cliente satisfeito.  

Recebo muitos pedidos de apoio e tento sempre corresponder de forma positiva. É para o Futebol, para o Basquetebol, para clubes, fardamentos, etc. Ainda quando é um patrocínio da nossa área torna-se mais fácil, como por exemplo para o Clube Naval da Horta, em que cedo material de pesca: carretos, canas ou umas taças. Mas quando me pedem coisas que eu não tenho, vejo-me forçado a ir comprar, o que se torna complicado”.

“Comecei na altura em que as pessoas compravam e não perguntavam o preço”

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“Este Governo Regional foi o melhor a pagar os apoios a tempo e horas”

“Se voltasse atrás, optava pela mesma vida, pois sinto-me realizado! Comecei na altura em que as pessoas compravam e não perguntavam o preço. Há 40 anos, fazia-se muitas casas-de-banho, porque pouca gente tinha esse luxo! E se um fazia uma casa-de-banho com torneiras douradas e prateadas, o outro vinha atrás e tinha de fazer melhor. Encomendavam sem perguntar o preço. Havia dinheiro! Hoje não! Actualmente não se faz nada sem um orçamento e isso ocupa-nos muito tempo! Por isso, nalguns casos já são pagos, com a condição de depois descontarmos caso optem pela nossa empresa. 

Tenho um irmão na América – o José Pedro, que é chefe-geral de umas oficinas de automóveis – mas não gostava de ter emigrado para lá. O nível de vida é muito diferente. Sei que poderia ter sido um empresário de sucesso na América mas adoro viver no Faial! Conheço uma parte do mundo – não tanto como o meu filho que já fez várias viagens para a Ásia e não só – mas não quero viajar mais para fora do meu país. Gostomuito de Portugal e quero passear cá dentro. Fora, só iria à Itália, porque é um país que me fascina muito”.

“A nossa entrada na União Europeia foi muito boa”

“A nossa entrada na União Europeia foi muito boa! As pessoas não se apercebem do dinheiro que entra neste país! Se não fossem os apoios recebidos, como é que eu fazia? Foi com os dinheiros provenientes de candidaturas que o nosso armazém no Pico pôde receber uma cobertura e empilhadores novos e que a fábrica do Faial foi dotada de uma cobertura nova. O tecto novo que eu coloquei recentemente na fábrica do Faial foi a minha maior obra! Significou colocar um tecto por cim de outro. Só em ferro, estão ali 186 toneladas! Estamos a falar de uma área superior a 4 mil metros quadrados.

Comprámos um camião para transportar os contentores que custou 180 mil euros e um empilhador novo, pois o actual já tinha mais de 30 anos. Sem estes apoios, nada disto seria possível. E, a propósito, tenho de realçar que este Governo Regional foi o melhor a pagar os apoios a tempo e horas.

Entretanto, organizámos uma outra candidatura para aquisição de alguns equipamentos, onde se inclui um CNC, que faz muita falta para cortar a chapa de alumínio e permitir que as portas metálicas possam ser fabricadas no Faial.

O programa 2020 foi uma ajuda enorme para o desenvolvimento destas regiões mais isoladas como os Açores. Oxalá que a seguir venha outro ainda melhor!”

Momentos decisivos 

“Neste percurso de 40 anos, aconteceram momentos que considero marcantes. Cerca de 6 anos após ter iniciado o negócio, com o interesse suscitado pelos alumínios decidi apresentar um projecto ao Instituto de Privatização dos Açores (IPA) e comecei a obra com dinheiro do Banco Comercial do Açores (BCA), com juros a cerca de 30%. Entretanto, o IPA foi extinto e a minha empresa ficou sem apoio e sem dinheiro. Isso provocou uma crise muito grande, que era do conhecimento geral do público. E tive de trabalhar sempre, sempre, para levantar esta empresa, que hoje vive uma situação totalmente diferente.

A propalada crise de 2008 foi, ironicamente, um bom momento para a minha empresa, porque eu tinha os armazéns cheios – estão ali 2,5 milhões de mercadorias – e não havia

dívidas!

A distinção do Governo Regional e da Caixa Geral de Depósitos são, igualmente, momentos marcantes no percurso da empresa. Felizmente, muitas pessoas reconhecem o nosso trabalho”.

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O desempenho, o dinamismo e a competitividade levaram a Caixa Geral de Depósitos a distinguir, em 2018, a empresa de Delfim Vargas com o galardão de “Empresa Caixa Top”

Fotografia cedida por: Delfim Vargas

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