“A Figura do Mês” - Luís Carlos Decq Mota: “O crescimento da actividade do CNH tem de ser balizado”

O gosto pela Vela, incutido aos 10 anos de idade, permanece volvidas que são mais de 6 décadas. “Vireo”, “Teimoso", “Tamarin” e “Air Mail, são barcos onde conheceu mundo e ganhou muitas regatas, sendo este último – com cerca de meio século– visto como uma Escola de Formação. Falamos de Luís Carlos Decq Mota, um médico que desde pequeno tem o mar por companhia e o Clube Naval da Horta (CNH) no coração, tendo estado mais de 5 anos à frente dos destinos desta instituição náutica faialense.

Na entrevista de hoje, este Dirigente dos anos 80 mas desde sempre ligado ao CNH, defende que é preciso ter controlo na expansão da actividade, caso contrário será preciso “transformar o Clube numa instituição mais profissionalizada”, o que é sinónimo de grandes encargos.

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Campeonato de Ilha 2009: mais um troféu de glória para a tripulação do “Air Mail”   

Atrás, da esquerda para a direita: João Decq Mota, Luís Lourenço, Rui Lourenço e João Duarte

À frente, pela mesma ordem: João Roldão, António Manuel Freitas, Luís Carlos Decq Mota, Graça Freitas Decq Mota e Maria Castro 

Roberto da Silveira e João Lucas eram Pilotos no Porto da Horta e instrutores da Escola de Vela da Mocidade Portuguesa que tiveram não só a habilidade de ensinar a velejar mas, sobretudo, de incutir nos seus pupilos o gosto por esta modalidade. Luís Carlos Decq Mota foi um desses felizardos, que, aos 10 anos de idade começou a praticar uma actividade que seria para a vida. “Basta ver que o grupo que andou nessa altura se mantém no activo: eu, o meu irmão José, o António Manuel Freitas, o Carlos Garcia, o Herberto Faria e outros que saíram do Faial mas quando vêm à sua terra, voltam sempre à Vela. Estas pessoas conseguiram incutir-nos o “bichinho” pela Vela”, recorda, com visível satisfação, partilhando a lição de vida aprendida através deste desporto: “Além de termos ficado a gostar de Vela, sabendo fazer os nós e conhecendo as regras para evitar o abalroamento, também aprendemos a tratar dos barcos, a ter cuidado com eles, com a palamenta e com as velas”.

No Verão havia sempre um aumento da actividade, porque “toda a gente queria andar”. E nessa altura aparecia o CNH com os Snipes, o que dava “uma grande ajuda”. “No meu tempo, o Clube tinha 3 Snipes: o Snipe considerado velho, que tinha sido cedido ao Clube pelo sr. José Maria Gonçalves; um outro chamado “Tenreiro”; e o super-Snipe, que toda a gente desejava, por ser o mais novo e já construído em contra-placado marítimo, fino e levinho. E a prova de que era mesmo leve é que nós, sendo crianças, já podíamos com o super-Snipe, que tinha melhores velas e apresentação”.

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1989: Tripulação do “Teimoso” numa Entrega de Prémios da Semana do Mar 

António Manuel Freitas, Luís Carlos Decq Mota e a mulher, Graça Freitas Decq Mota; e os irmãos António José Duarte e João Duarte 

Luís Carlos Decq Mota começou a fazer Vela a partir de 1958, mantendo-se até 1965, altura em que foi estudar para Coimbra. Neste novo cenário, a Vela passou a ser uma realidade só nas férias do Verão. “O CNH organizava regatas mas para haver condições semelhantes só se faziam as contas depois de todos os velejadores terem passado por todos os barcos. Naturalmente que os ventos e as marés eram diferentes mas foi a forma encontrada para equilibrar as contas, o que poderia funcionar como o ‘Rating’ da altura.

Havia muita gente interessada em andar! O número era tão elevado, que chegava a haver lista. Lembro-me que nos inscrevíamos de manhã para andar a partir das 14 horas. E depois, conforme o número de inscritos, tínhamos direito a andar 1 hora, 1 hora e meia ou 2 horas”.

Quando questionado sobre o grau de dificuldade em termos de aprendizagem, o nosso entrevistado responde, a sorrir: “Tenho a impressão de que não me custou nada. Foi daquelas coisas que vêm naturalmente”. E prossegue: “Outro aspecto que eu também gosto sempre de focar, é a questão da competição. Considero que a competição surge naturalmente pelo gosto de andar bem à Vela. Pôr miúdos a competir sem saberem andar à Vela, faz com que percam todo o entusiasmo. A competição nasce do facto de conseguirmos andar bem. E quem anda bem, não quer fazer asneira. Depois de cada miúdo saber andar bem e ter confiança naquilo que está a fazer, aí, sim, deve começar a fazer regatas. Quando se bate, revira e há maus resultados, normalmente a consequência directa é a desmotivação, seguida de desistência”. 

O “Cavalo Preto” e o “Tigre dos Mares”

“O meu cunhado, António Manuel Freitas, tinha um barco chamado “Cavalo Preto”. E como na altura já éramos amigos, quando o CNH não tinha barco disponível, lá íamos no dele. Nesse tempo, o Meirinho também arranjou um barco, que foi baptizado com o nome de “Tigre dos Mares” e andávamos sempre em competição. O Meirinho fazia quase sempre equipa com o Hélder Quaresma, que actualmente está na Califórnia e é irmão do Amílcar Quaresma, filhos do sr. Quaresma do Pico”.

Em Coimbra, as hipóteses de fazer Vela eram bem menores. “Um primo de meu pai tinha um Laser na Figueira da Foz e ainda tentei andar lá mas a água era gelada, o que nos obrigava a andar de fato e botas e mesmo assim chegávamos a terra quase congelados, o que me levou a desistir”.

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Luís Carlos Decq Mota: “A competição nasce do facto de conseguirmos andar bem à vela”

Luís saíu do Faial aos 17 anos e regressou definitivamente passados outros tantos, em 1982, tendo retomado a sua ligação com o CNH. Nesse retorno da “Cidade dos Doutores” – onde confessa ter passado “os melhores anos” da sua vida – aconteceu uma peripécia engraçada mas que o pai, o também médico Luís Decq Mota, não achou muita piada. “No meu tempo de criança, bastava ser filho de Sócio para poder velejar no CNH. Depois, quando ficávamos maiorzinhos, fazíamo-nos sócios. Entretanto, numa das minhas vindas ao Faial, no Verão, decidi tornar-me associado e quando regressei definitivamente, já com 34 anos e tendo concluído o Curso de Medicina, foi-me atribuído um número mais baixo do que o do meu pai, que ficou aborrecido, atendendo a que ele tinha sido das primeiras pessoas a fazer-se Sócio do CNH. Penso que me deram o número de alguém que tinha morrido, pelo que passei a ser o Sócio número 7, à frente de meu pai, que tinha sido dos pioneiros em termos de associados”. 

1984: início do 1º mandato

Nesse início da década de 80, o Clube Naval da Horta tinha como Presidente João Corvelo, em fim de mandato e sem intenção de se recandidatar, pelo que Luís Gonçalves procurava gente interessada em formar uma lista. “Lembro-me perfeitamente de ele ter ido falar comigo num dia à noite, perto de casa de meu pai, no Canto do “Telégrafo”, próximo da zona onde ele também morava. Tinha acabado de garantir que ia pensar no assunto quando nisto passa o Fernando Menezes, a quem eu disse: “Eh, pá! O Luís Gonçalves acaba de me convidar para uma lista para o Clube Naval” e sem mais, diz o Fernando: “Tá bem, eu vou contigo e arranjo mais um pelo menos”.

O Luís Gonçalves já tinha convidado o Armando Taborda e o Hélio Pombo para a Direcção, pelo que tínhamos 5 pessoas, o que estava conforme os Estatutos da altura. Concorremos e como não houve mais listas candidatas, lá ficámos”.

A Assembleia-Geral mais participada de sempre

O CNH tinha como sede a antiga Casa dos Remadores da Alfândega, onde hoje está implantado o Centro de Formação de Desportistas Náuticos do Clube, junto ao Castelo de Santa Cruz. Neste edifício, funcionava também o Bar, havendo um barracão no canto em baixo, onde tinha sido praia de Santa Cruz. “Foi no decorrer da minha presidência que se arranjou o Bar. O arquitecto Carlos Garcia fez os desenhos e avançou-se para a Esplanada, que começou por ser de madeira passando depois para cimento. Como o espaço era muito exíguo, aproveitámos a parte debaixo para arrumos, abastecimentos para o Bar, etc”.

A Esplanada do CNH tinha um movimento medonho!”, memora este antigo e actual Dirigente, que desde há anos é, consecutivamente, o número um da Assembleia-Geral. “Quando a Marina foi inaugurada – em 1986 – já eu era Presidente desta “casa” e (quase) todos os iatistas paravam no Bar do Clube. Já antes, quando ancorados no Porto, amarravam o dingue no Cais Velho e, ao passarem por aquela zona, a primeira coisa que encontravam era o Bar do CNH, onde havia boa comida, especialmente no tempo do Vittório.

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Antiga sede do CNH, onde hoje funciona o Centro de Formação para Desportistas Náuticos do Clube

A concessão do Restaurante ao Vittório foi discutida em Assembleia-Geral, que deve ter sido a mais participada de sempre. Penso que até hoje jamais houve outra em que estivessem presentes cerca de 150 pessoas! Lembro-me de que o Vittório só aceitava concessionar o Bar por um prazo de 5 anos e como os mandatos eram e são de 2 anos, um grupo considerável de Sócios manifestou-se contra, argumentando que a Direcção não podia firmar um acordo por um período tão longo, com receio de que este processo pudesse não correr bem.

A reunião decorreu na Esplanada e contou com bastantes intervenções, acabando por ser autorizado celebrar o contrato de 5 anos com o Vittório, que transformou, e bem, o que existia num bom Bar, com um Restaurante muito jeitoso de grelhados. Mais tarde, os grelhados tiveram de acabar devido a uma queixa da Estalagem. Tenho a impressão de que foi por causa do cheiro e do facto de a comida do Clube Naval ser melhor do que a deles (risos!). Naturalmente que sem grelhados, o Restaurante não teve continuidade. Contudo, o contrato foi além dos 5 anos, atendendo a que esse foi o tempo que estive na Direcção do Clube e quando saí continuou”.

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“A Vela é uma escola de vida e o meu barco foi sempre um barco de formação” 

Direcção demitiu-se em bloco para não prejudicar o Clube

Luís Carlos Decq Mota foi eleito Presidente da Direcção do CNH, pela primeira vez, em Janeiro de 1984, mantendo-se no cargo até 1987, o que perfez dois mandatos. Na reunião de 14 de Dezembro de 1987, foi reconduzido para o Biénio de 1988/1989. Porém, em Novembro de 1988 era realizada nova Assembleia-Geral, em que do Ponto 2 da Ordem de Trabalhos constava a Eleição de Corpos Gerentes. A (deliberada) não conclusão do 3º mandato teve por base a postura manifestada pelo Responsável pela pasta do Turismo de então, Dr. Tomaz Duarte, que, por razões partidárias, entendeu não entregar ao CNH as obras já concluídas do Pavilhão, onde hoje funciona a Sede, Bar e Pavilhão de apoio.

Não havendo voluntários para dar corpo a um novo elenco directivo, o Presidente da Assembleia-Geral, Fernando Menezes, propôs e colocou à votação a criação de uma Comissão encarregada de contactar pessoas para integrar uma nova Direcção para o Clube. A proposta foi aprovada por maioria mas a verdade é que não houve quem quisesse integrar a mesma. Perante este resultado, foi marcada nova Assembleia-Geral para Dezembro de 1988, a qual só viria a ocorrer em Janeiro de 1989.

Após algum debate e a instâncias do Presidente da Assembleia-Geral, Renato Azevedo comunicou aos Sócios que estava na disposição de formar um elenco directivo, tendo apresentado o programa de actividades para o Biénio 1989/1990, bem como os nomes propostos para os novos Corpos Gerentes. E dentro dessa nova composição, Luís Carlos Decq Mota passou a ocupar o lugar de Vice-Presidente da Assembleia-Geral.

“A Direcção demitiu-se em bloco para não prejudicar o Clube. Os Pavilhões estavam prontos mas fechados, não podendo ser usados. Logo que o Renato tomou posse como Presidente, as obras foram entregues ao CNH”, assinala Luís Carlos Decq Mota, recordando que Fernando Menezes trabalhou ao seu lado nas duas primeiras direcções tendo sido substituído na terceira pela arquitecta Ana Veloso.

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Preparação para uma das primeiras Regata das Sereias, no decorrer da Semana do Mar. À falta de tripulantes femininas, havia que improvisar, tal como documenta a fotografia onde se podem ver em 1º plano António Manuel Freitas e António José Duarte, disfarçados de “sereias” 

Clube organizado por Secções

Foi no decorrer dos mandatos deste ex-Presidente que os Estatutos foram alvo de uma revisão, tendo “o Dr. Fernando Menezes trabalhado bem nisso”. “Aconteceu na altura em que organizámos o Clube em Secções. A Vela Ligeira, a Vela de Cruzeiro e a Pesca Desportiva foram das primeiras. Na altura, o CNH tinha também a Escafandria. Como tal, nós é que enchíamos as garrafas mas depois começaram a aparecer os Centros de Mergulho e o Clube abandonou essa área. O compressor tinha vindo do Turismo, por entendimento com Madruga da Costa. Enquanto foi Delegado do Turismo, não havia nada que o Ricardo Madruga da Costa não conseguisse”.

O número de elementos na Direcção também integrou as alterações estatutárias, passando de 5 para 7 ou mesmo 9. “Começámos a perceber que, com o crecimento da actividade, era necessário mais gente para trabalhar”.

Voluntariado já era a base de funcionamento do Clube

“Nos anos 80, já organizávamos o Festival Náutico e o Francisco Pimentel era o nosso representante na Semana do Mar, dando a sua opinião também sobre os artistas que deveriam ser convidados, até, porque, como ele tinha estado ligado ao meio artístico em Lisboa, detinha muitos conhecimentos, sabendo quem poderia mais facilmente ser contactado e as condições para melhor poder acontecer. E isso ajudou bastante!

Já nessa altura, a base de funcionamento do Clube Naval era o Voluntariado, com pessoas que colaboravam nas regatas, integrando os júris, colocando e tirando bóias e dando apoio no decorrer das provas.

Uma pessoa que foi sempre muito importante para o Clube nesse período foi o José Victor Alves, pois era muito metódico. No fim de cada regata em que ele tinha sido o Presidente do Júri, entregava-nos sempre uma pasta com toda a documentação relativa às inscrições, classificações e ainda os recortes dos jornais sobre o evento. Ainda hoje, ele deve ter isso tudo organizado!

E a propósito de documentação, lamento profundamente que num dos meus mandatos um desses temporaizitos tenha provocado a queda do telhado do barracão onde tínhamos quase todo o arquivo do Clube, que ficou irremediavelmente danificado. Era um barracão de madeira, pelo que veio uma chuveirada mais forte com uma ventania e foi-se tudo”.

Sempre ligado ao Clube

De lá até hoje, Luís Carlos Decq Mota jamais se desligou do Clube, o que aconteceu, em parte, também devido à reforma dos Estatutos, tendo em conta que foi criado o Conselho-Geral do Clube, onde figuram os antigos presidentes.

“Estive muitos anos no Conselho-Geral e depois fui convidado por meu irmão José para ser Presidente da Assembleia-Geral, substituindo o Manuel Fernando Vargas, que ao fim de tantos anos dizia estar cansado. E lá estou desde há 8 anos. Embora de uma maneira geral todos achem que o Presidente da Assembleia-Geral é uma figura meramente decorativa, não é bem assim, sendo os momentos eleitorais os de maior preocupação para mim, sobretudo quando não há listas candidatas”.

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Os convívios que se geram nas Entregas de Prémios são importantes para quem anda envolvido nas regatas

A figura de Mestre Arnaldo

“Quando fui Presidente da Direcção, o Clube era importante mas não tinha nem metade da actividade de agora.

Nos anos 60, prezávamos muito a figura do Mestre Arnaldo, que era o Arrais do Clube Naval e a pessoa que tratava das embarcações. No fundo, era ele que sabia de tudo e determinava quem ia ou não andar de barco. E se aparecia alguma coisa partida, ele castigava essa pessoa ou dizia à Direcção para o fazer. Era uma espécie de funcionário. Penso que vivia do que lhe pagavam para tratar dos barcos e havia muitos ancorados, de recreio e de pesca.

Mestre Arnaldo chegava ao Clube de manhã e ia tirar a água de todos os barcos, ver as amarrações e talvez o Clube também lhe pagasse para ele tomar conta das embarcações.

Quando cheguei a esta “casa”, Mestre Arnaldo já não andava por aqui e como não havia funcionários, a Direcção (e uns amigos) é que fazia tudo. Ao fim do dia estava sempre alguém no Clube. Vínhamos depois do trabalho e nas férias. O primeiro funcionário que o Clube teve foi o “Catita” [Armando Oliveira] e eu é que o contratei”.  

A viagem à Terceira na chalupa “Ilha Azul”

“Lembro-me perfeitamente da primeira vez que fui à Terceira, à vela, no fim da década de 60, tendo a viagem sido feita na chalupa velha, a “Ilha Azul”, que foi vendida, tendo o Corvelo [ex-Presidente] comprado a “Ilha Azul II”.

Éramos uns 6 ou 7 e resultou numa aventura engraçada. Nenhum de nós tinha carta na altura, tendo o Patrão Chico, da Capitania, sido o ‘skipper’, com a particularidade de que ele não sabia de Vela mas tinha carta e nós não tínhamos carta mas sabíamos de Vela. Fizemos a viagem de noite, porque a navegação era muito mais segura do que de dia, atendendo a que na altura tínhamos bons faróis: Farol da Ribeirinha, dos Rosais, do Tôpo, da Ponta da Ilha e da Serreta. Estávamos sempre com dois faróis à vista, o que nos permitia saber mais ou menos onde andávamos. Aconteceu que depois de termos saído da zona do Farol do Tôpo, em São Jorge, a certa altura forrou-se tudo de nevoeiro, tendo o conselho do Patrão sido este: “Vocês vejam o que a bússola marca e vão sempre em frente enquanto estiver forrado, que a Terceira há-de aparecer”. 

“Integrei a 1ª tripulação dos Botes que foi à América”

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Esta foi a comitiva que representou o Faial na I Regata Internacional de Botes Baleeiros, em New Bedford, nos EUA, em 2004

Atrás, da esquerda para a direita: João Pedro Garcia, na altura Presidente da Junta de Freguesia do Capelo; António Decq Mota, Vítor Mota, Luís Decq Mota, Manuel Fernando e Carlos Fontes

À frente, pela mesma ordem: Luís Paulo, Jaime Mota, Alfredo Matos e Américo Conceição 

Luís Carlos integrou a 1ª tripulação faialense que foi à América disputar a I Regata Internacional de Botes Baleeiros, realizada em New Bedford. “Fui como Oficial do Bote do Capelo, num tempo em que não havia muita gente a poder andar como Oficial nos Botes Baleeiros, ao contrário do que acontece hoje, em que já são bastantes. Posso referir nomes como Pedro Garcia, Luís Carlos, António Luís e Zé Gonçalves que andam muito bem de bote mas todos já fizeram Vela Ligeira, onde foram buscar muitos ensinamentos. Considero que para andar num Bote Baleeiro à vela, é vantajoso ter feito Vela. Os antigos baleeiros andavam à vela mas só com ventos de largo, ventos abertos. Eles não bolinavam, indo muito mais vezes à baleia a remos do que à vela. Estes botes são maus para a bolina.

A ida aos EUA aconteceu em Setembro de 2004 e eu tinha andado em 2003, no início dos Botes, em que havia o “Claudina” no CNH e o “São José” no Capelo. Quando regressámos, estávamos no fim da Época e no início da Temporada seguinte ainda colaborei mas depois foi aparecendo mais gente e mais botes e eu dei lugar aos novos. Mas gosto sempre de dar uma voltinha e vou quando é possível. Prefiro muito mais ir como turista do que como Oficial, pois, no primeiro caso posso criticar à vontade” (risos!).

A Secção de Botes Baleeiros foi outro fenómeno engraçado surgido no Faial e que o Clube Naval ajudou a centralizar. Estamos a falar de uma Secção que movimenta muita gente”.

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Luís Carlos Decq Mota como Oficial do bote “São José”, do Capelo 

Voltar ao convívio na “Atlantis Cup”

“No decorrer da Semana do Mar de 87 fizemos uma jantarada no “Frank” (Capelo), com o Manuel Mota, o Rui Mendonça e o Hermano Ferreira, de São Miguel; o Rui Andrade e o Diocleciano da Terceira; eu, o Carlos Garcia e outros do Faial, e começámos a dizer que tínhamos de organizar algo que permitisse encontrarmo-nos mais vezes, pois só por altura da Semana do Mar era pouco. E pensámos que poderia ser algo que nos levasse até à Terceira e São Miguel. Na altura, ficou assim decidido pelas outras duas ilhas: “Vocês, no CNH, como já estão mais habituados, organizam isso e nós, na Terceira e em São Miguel, vamos tentar arranjar patrocínios. E desse trabalho resultou o patrocínio da TAP. A Regata adoptou o nome de “Atlantis Cup”, porque os prémios eram em cristal Atlantis e a designação condizia muito bem com o Atlântico.

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A família Decq Mota na Terceira, no decorrer de uma “Atlantis Cup”, em que tinham participado os barcos “Tamarim” e “Air Mail”

Atrás, da esquerda para a direita: Rui Lourenço, Luís Lourenço, Joana Decq Mota, Luís Carlos Decq Mota, Pedro Roldão, José Decq Mota e João Decq Mota

À frente, pela mesma ordem: Mário Lourenço, Leonor Lourenço, António Manuel Freitas, Gracinha Decq Mota; Graça Freitas Decq Mota, Maria do Céu Decq Mota e Paula Decq Mota

A primeira “Atlantis Cup” realizou-se em 1988. Devo ter participado numas 25 edições e espero fazer mais pois, o gosto ainda se mantém. Tenho a impressão de que não fiz a primeira mas ainda participei numa com o “Teimoso”. Depois, fiz uma com o “Tamarin” e a seguir foi sempre com o “Air Mail”, que comprei em 1992, barco com que tenho participado quase sempre. Uma vez fiquei impedido de fazer a Regata, porque o jogo de velas novas que eu tinha encomendado veio enganado e não consegui fazer a troca a tempo. De outras vezes não participei por motivos profissionais. Não fiz todas as provas mas o barco sim. Uma vez foi com ele o Joaquim, de outra o meu cunhado e noutros casos só fiz algumas pernas, por estava de serviço no hospital. Gosto sempre de fazer esta Regata e penso que se está a retomar um pouco a ideia primitiva, que proporcionava o convívio entre todos. A certa altura, isto foi levado para um aspecto competitivo exagerado, tendo o convívio praticamente desaparecido. Acontecia estarmos todos num porto e quase não haver comunicação, pelo facto de haver sempre muitas ocupações relacionadas com a preparação do barco.

Penso que o desafio lançado pela actual Presidente da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (ALRAA), Ana Luísa Luís, de tocar nas 9 ilhas, contribuiu para esse regresso ao início em termos de convívio. Nas Flores, fomos muito bem recebidos e na Graciosa a estada foi magnífica!, proporcionando mesmo muito convívio”.

“Air Mail”: um barco familiar

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Luís Carlos Decq Mota: “Enquanto eu puder, a Vela é para manter assim como o “Air Mail”  

Fazendo uma retrospectiva, Luís Carlos começou por ter o “Vireo” de sociedade com o irmão José, vendendo depois a sua parte ao cunhado Mário Lourenço, quando comprou o “Teimoso”. Posteriormente, trocou-o pelo “Tamarin”, que vendeu ao irmão José e ao cunhado Mário Lourenço quando adquiriu o “Air Mail”

“Enquanto eu puder, a Vela é para manter assim como o “Air Mail”, que já está com 47 anos. Estou ligado afectivamente a este barco, que funciona como uma escola familiar, por onde passaram as minhas filhas e todos os meus sobrinhos. E todos eles continuam a gostar de ir no “Air Mail”. O Tozé tem um barco em Lisboa e anda à Vela; o João Duarte também tem um barco e faz Vela; o Luís Carlos a mesma coisa; o Pedro, filho da minha irmã Elisa, está em Maiorca e é ‘Skipper’ profissional; o João Roldão, que trabalha no Aeroporto, sempre que pode também aparece para andar; o Paulo, o Luís Miguel, o Rui, a Patrícia – que agora se farta de andar com o Armando – também, assim como os sobrinhos-netos: a Maria, o André e o Vasco. Todos eles aprenderam a andar em Cruzeiro no meu barco.

Acho que o Cruzeiro permite um melhor conhecimento de todos os que se encontram a bordo. Ficamos a conhecer-nos, percebendo quando é que o nosso espaço começa a interferir com o espaço do outro. É preciso um grande equilíbrio para 6 pessoas conseguirem viver uma semana ou mais num barco de 12 metros. Não pode ser só eu, eu e eu.  A Vela é uma escola de vida e o meu barco foi sempre um barco de formação.

Na minha perspectiva, do ponto de vista emocional, a Vela é muito parecida com a minha actividade profissional, apresentando momentos de ‘relax’ profundo e momentos de tensão a 300%. É como nos partos: momentos belíssimos e depois, por vezes passamos cada susto!”

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“A Vela é muito parecida com a minha actividade profissional, apresentando momentos de ‘relax’ profundo e momentos de tensão a 300%” 

Horta-Velas-Horta assinalava o Dia da Marinha

“A Regata Horta-Velas-Horta tinha arrancado com o João Corvelo 1 ou 2 anos antes de eu ser Presidente, iniciativa que mantivemos e que contou com o apoio do autarca das Velas de então, Frederico Maciel. Devo avivar a memória dos mais esquecidos que foi esta Regata que espoletou as festas das Velas, que actualmente se realizam sem qualquer ligação a esta Prova.

A Horta-Velas-Horta comemorava o Dia da Marinha, que antes ocorria em Julho e agora é em Maio. Nesse tempo, ia uma corveta ou uma lancha de desembarque com muita gente para a festa. Lembro-me que a determinada altura os Prémios eram muito bons! Num dos anos das minhas direcções, o 1º Prémio foi um dente de cachalote mas no lote dos troféus também figuravam as famosas mantas de tear, que faziam muito sucesso!

O entusiasmo era tanto, que num dos anos da minha presidência inscreveram-se mais de 40 barcos. Fomos muito bem recebidos em são Jorge, com uma festa, um  bodo de leite e baile, à noite. A recepção foi de tal ordem, que os estrangeiros que na altura participavam – e eram a grande maioria – fizeram questão de retribuir o convívio ao Clube Naval da Horta, convidando todas as tripulações para um jantar no Castelo de São Sebastião. O CNH pediu o espaço mas eles é que organizaram e trataram de tudo o resto.

Houve momentos muito importantes mas, para mim, este foi o ponto alto da Horta-Velas-Horta, que se manteve durante imensos anos. Depois, quando a recepção nas Velas começou a baixar de qualidade, pelo facto de a Regata ter deixado de ser importante para o concelho, desligaram-se desta iniciativa. E agora há a Semana Cutural das Velas e a Regata não aparece. Mas em abono da verdade, devo dizer que esta Regata está a ressuscitar devido à dinâmica da Vela de Cruzeiro no CNH, que este ano está completamente diferente daquilo que vinha acontecendo ultimamente. Tudo depende da clareza com que se coloca a situação. Presentemente, os inscritos vêm ao ‘Briefing’, no decorrer do qual é tudo explicado e, se por acaso há qualquer aspecto que não está bem, a Coordenação da Secção manda um e-mail a clarificar. É determinante organizar as regatas de acordo com a disponibilidade e interesse dos velejadores para que eles possam participar. No actual modelo, não há uma pessoa a decidir mas, sim, o entendimento de solicitar a opinião dos envolvidos. E o pessoal vai aparecendo.

E quanto à Entrega de Prémios, entendo que é indispensável pelo convívio que gera e deve ser realizada logo a seguir à Regata e não vários dias depois. Mesmo sendo prémios de valor simbólico, o momento e o gesto são importantes para quem participa”.

CNH tinha ‘Port-Officers’ em todo o Mundo

“Quando decidi aceitar ser Presidente do CNH, o João Carlos Fraga aconselhou-me a não fazer isso, sustentando que o Clube não tinha ponta por onde se pegasse. Mas fui eleito e ele resolveu colaborar em termos de contactos.

Um dos projectos bem sucedidos – e o João Carlos Fraga é que foi o mentor – foi a criação dos ‘Port-Officers’. O Clube convidava e credenciava, com os conhecimentos do João, pessoas para serem seus representantes em Sables D’Olonne, em Southampton, na Austrália, na costa Leste, na Califórnia e noutros recantos. Mandávamos um cartão credenciado a cada um dos ‘Port-Officers’, a quem o CNH mantinha informados através do envio de cartas 2 a 3 vezes por ano. 

Tal iniciativa começou logo no meu primeiro mandato e o João é que estava na posse de todos os contactos. De vez em quando lá aparecia aí um francês que conhecia o João e este convidava-o a vir ao Clube. Isso ainda durou uns anos.

Recordo-me que ele conseguiu o contacto de uma marquesa italiana, toda ‘finess’, que tinha o barco na marina de Mónaco. Depois de se ter feito Sócia, mandou uma carta a perguntar se a Direcção do CNH autorizava a que ela utilizasse o galhardete do Clube no mastro e a bandeira na popa do seu barco. Perante este pedido, o João quis saber a razão, tendo ela explicado: “Toda a gente me pergunta o nome do meu clube. Sou a única deste Clube na minha Marina”. E a verdade é que estas iniciativas levaram mais longe o nome do Clube Naval da Horta”.

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Uma das primeiras idas à Madeira, em que Sofia Decq Mota acabou por não fazer a viagem e no regresso havia mais um passageiro: João Duarte

Atrás, da esquerda para a direita: Luís Carlos Decq Mota, João Decq Mota, António Manuel Freitas e José Gonçalves, o único que não pertence à família

À frente, pela mesma ordem: Gracinha Decq Mota, Graça Freitas Decq Mota, Sofia Decq Mota e Pedro Roldão

“Devemos balizar a actividade do CNH”

Questionado sobre aquilo que são os limites de expansionismo do Clube, “A Figura do Mês” de Outubro de 2019 sublinha: “Penso que devemos balizar  a actividade existente, porque não se pode continuar a crescer sem transformar o Clube numa instituição mais profissionalizada e todos sabem que não há dinheiro para isso. Contudo, devemos tentar consolidar a actividade existente, onde sobressai um enorme e indispensável cunho de Voluntariado. Recordo que foi numa das minhas direcções que se fez o primeiro Campeonato Nacional de Windsurf, da responsabilidade do CNH mas com organização do Paulo Gonçalves, um Voluntário.  

As actividades têm de ser acompanhadas pela respectiva contrapartida financeira, que tem de vir sobretudo a tempo e horas. Pedir ao CNH para organizar a recepção a uma regata internacional e o dinheiro só chegar 1 ano depois, não é forma de trabalhar.  O que nos aguenta neste cenário é o facto de nunca termos recorrido à banca. Essa tem sido a mais-valia do Clube Naval da Horta em relação a todos os outros clubes das outras modalidades, que se encontram endividados, com a diferença de terem menos actividades do que o CNH.

Quando assumi os destinos do CNH, em 1984, não tínhamos um escudo de Tesouraria. O que nos safou foi a renda do Bar. Nesse tempo, também recebíamos apoio do Turismo para fazer a recepção de um evento internacional.

Anteriormente, a receita angariada, durante muitos anos, proveniente da projecção de Cinema ao ar livre, no Castelo de Santa Cruz, foi canalizada para a reconstrução da chalupa “Ilha Azul”, que se encontrava em muito mau estado.

Para subsistir, o Clube precisa de dispôr de uma fonte de receita segura, além das Quotas. Se não tivéssemos o posto de combustível seria impensável ter 12 Secções em actividade permanente! Mas são necessários outros fundos, tendo em conta o desgaste diário. Aponto o exemplo dos nossos caiaques, que já nem se encontram homologados atendendo à sua grande desactualização.

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Luís Carlos sempre gostou de participar na “Regata dos Velhotes”, dedicada a antigos praticantes de Vela Ligeira

Mesmo na Vela Ligeira, competimos sempre em condições muito piores do que a Terceira e São Miguel. Neste quadro, podemos continuar a fomentar o gosto pelas modalidades mas no que concerne à competição, vamos ficar sempre penalizados.

Todos os meios que conseguimos angariar é para cobrir a actividade normal, não sobrando nada para investir em equipamento. Daí, ter sido lançada por altura do 72º Aniversário [Setembro de 2019] esta Campanha para Renovação da Frota e de Equipamentos.

E no que toca a instalações, a situação é sobejamente conhecida. Recordo que antes de fazerem a actual sede, vieram falar connosco no sentido de indicarmos aquilo que precisávamos para funcionar. Na altura em que o Luís Gonçalves andava por aqui, travou conhecimento com um arquitecto que fazia Mergulho e vinha ao Faial e foi ele o autor do projecto, que até contemplava um tanque de Canoagem para treino. Era algo em grande pelo que dissemos que podiam ser cortadas algumas coisas. Também havia uma espécie de Carpintaria para recuperação dos botes e barcos. Mas depois não houve desenvolvimentos nesse sentido e há muito que dependemos de boas vontades. Se perdermos os edifícios da antiga Fábrica da  B.J.Borges e do ex-Teófilo, que nos servem de armazéns, o nosso material fica todo na rua”.

“Tem de aparecer gente nova”

Luís Carlos Decq Mota entende que a actividade do Clube Naval da Horta está “bem estruturada”, com a Escola de Vela, de Natação, a Canoagem, os Botes, a Pesca, etc., e que “é tempo de vir gente nova para a Direcção”. “Embora seja preciso aliar a experiência à juventude e facilite muito ter boas relações, os novos têm de ser chamados a colaborar com maior responsabilidade.

Nunca me lembro de o CNH atravessar crises directivas. Os Presidentes apareceram sempre naturalmente e espero que isso continue a acontecer”.

E quanto a voltar a encabeçar uma lista, o nosso entrevistado garante que está “sempre disponível para colaborar” mas assumir cargos executivos é algo que está posto de parte.

Composição da Direcção eleita em 1984 (que fez dois mandatos)

Direcção

Presidente: Dr. Luís Carlos Bicudo Decq Mota

Vice-Presidente: Dr. Fernando Manuel Machado Menezes

Vice-Presidente: Fernando Pereira Nóbrega

Secretário: Armando Alves Magalhães Taborda

Tesoureiro: Hélio Brandão  Magalhães Pombo

Vogal: Hermínio Fernando Martins de Freitas

Vogal: Francisco José Pimentel Alves Soares

Substituto: António Manuel Gonçalves Soares Luís

Substituto: José Augusto Carreiro 

Composição da Direcção eleita para o Biénio 1988/1989 (só esteve em exercício no primeiro ano)

Direcção

Presidente: Dr. Luís Carlos Bicudo Decq Mota

Vice-Presidente: Dr. Luís Manuel Machado Menezes

Vice-Presidente: Francisco José Pimentel Alves Soares

Secretário: Eng. João Oliveira e Costa

Tesoureiro: António Manuel Campos Machado Ávila

1º Suplente: Francisco José Medeiros Gonçalves

2º Suplente: Arqª. Ana Luísa Costa Mascarenhas Veloso

 

Fotografias cedidas por: Luís Carlos Decq Mota

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