“Conhecer os Nossos Atletas” – Tomás Oliveira: “Gostava que a Natação fosse um desporto mais valorizado”

“Acho que ganhei um carinho maior pela Natação, por ser a modalidade que acompanho há mais tempo”

É trabalhador por natureza, obsessivo por bons resultados e responsável todos os dias. Tem 15 anos, mas o futuro já está traçado. Começou na Natação aos 3 anos devido à asma, mas aos 5 decidiu manter-se nesse desporto por opção e não por imposição médica.

Depois, veio a Vela aos 6 anos, uma mistura entre gostar e adesão por causa das “Férias Desportivas”, Projecto antigo do Clube Naval da Horta (CNH), que decorre no mês de Julho, de cada ano.

Certamente que muitos já perceberam que estamos a falar do talentoso Tomás Fraga Oliveira, atleta da Secção de Natação do CNH (Juvenil A).

Até ao início de 2017, Tomás conseguiu equilibrar a balança, mas logo a seguir venceu o primeiro amor, que é como quem diz, a Natação. “Já não estava a conseguir conciliar tudo. Como tal, deparei-me a abdicar de muitas coisas em ambos os lados, pelo que tive de fazer uma opção”, explica este jovem atleta. No entanto, confessa que não foi fácil, pois “gostava muito dos dois”.

Na hora de decidir, pesou a Natação, por ser a modalidade que acompanha há mais tempo. “Acho que ganhei um carinho maior pela Natação”, refere, em jeito de justificação. Nesta escolha pesou decisivamente o factor Escola, atendendo a que se encontra no 10º ano. “Este ano já é mais complicado. A entrada no Secundário dificultou a conciliação de todas as actividades”.

Ciências e Tecnologia dominam a Área de eleição, o que não é sinónimo de certezas quanto ao caminho profissional, que deverá passar por “algo relacionado com o mar”. Engenharia Naval, quem sabe!...

Sendo “bom aluno”, certamente que vai conseguir manter a Natação e os estudos superiores. Para tal, já pondera federar-se nalgum clube “que fique perto da universidade” para onde for daqui a algum tempo.

“Sou masoquista”

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“É a sofrer que se cresce como nadador”

Para Tomás Oliveira, cumprir regras ou horários não é problema, encarando as exigências como desafios. “Nunca faltei a um treino matinal”, afirma, orgulhoso, referindo-se aos treinos de Natação das 7 da manhã, instituídos em Novembro de 2016 pela Treinadora Sílvia Mendonça, grande aficcionada da modalidade e impulsionadora do nível de crescimento dos atletas.

E engane-se quem pensa que este ritmo alucinante é assim somente de segunda a sexta, pois além de tudo o que foi descrito, ao sábado há provas ou treinos e ao domingo outras obrigações, pelo que, na vida deste jovem, “não há dias livres”.

Tomás é mesmo obstinado e de ideias fixas. “Normalmente mantenho a minha ideia e é raro mudar”, admite.

É com naturalidade que se assume como “masoquista”, título conferido pelos professores, pelo facto de treinar 12 horas por semana.  “Mas é o que eu gosto. A Natação é uma das minhas paixões. A outra é o Sporting”. 

Leva a Natação tão a sério que afirma gostar de sofrer, “porque é a sofrer que se cresce como nadador”. “Conseguimos crescer muito mais”, atesta.

Como tal, não é de admirar que, se pudesse, dedicaria a sua vida por inteiro à Natação, acreditando que “poderia ser profissional nos Açores”. “Claro que além da força de vontade e do trabalho, teria de haver apoio”, sustenta este faialense, que gostava que “a Natação fosse um desporto mais valorizado, como acontece com o futebol, o basquetebol e outros”. “A Natação – frisa – é a modalidade onde se encontram os atletas mais medalhados da história e onde podemos (como país) ganhar mais”.

“A Treinadora compreende-nos e veio unir a Secção”

Sílvia Mendonça é vista como “uma Treinadora exigente”. “Mas compreende-nos, porque praticou a modalidade e aceita as nossas decisões. E por que é professora [de Matemática] também percebe se tivermos de faltar a algum treino para estudar em alturas de testes”, sublinha Tomás, que garante: “Não gosto de faltar, porque é sinónimo de perder rendimento e se isso acontecer, significa perder o que estamos a ganhar”.

Quem também não perdoa faltas é o nadador Guilherme Nunes, o homem forte da Secção. “O Gui gosta muito de nos dar na cabeça quando faltamos. Mas sabemos que faz isso com boa intenção, pois é com o intuito de nos motivar a treinar e evoluir”.

Tomás não tem dúvidas em que afirmar que “agora o ambiente está melhor”. E vinca: “A Sílvia veio unir-nos e somos mais amigos. Antes dela chegar, notava-se que era cada um para seu lado. Éramos poucos e nem todos tinham os mesmos interesses. Conseguimos aprender a conviver uns com os outros de melhor forma”.

“O Guilherme é a minha referência”

Apesar da Natação ser um desporto individual, este nadador considera que “é necessário o apoio da equipa”. “Gosto muito mais de treinar com os nadadores dos escalões acima do meu, porque assim consigo um ritmo de treino mais elevado. Sigo sempre o Guilherme, que é o mais velho e funciona como uma referência para mim. Ele é muito bom no que faz e motiva toda a gente.

Tento “competir” nos treinos e claro que seria muito bom se houvesse mais nadadores no meu escalão. O Clube seria mais rico na diversidade”, salienta esta jovem promessa, que tem trabalhado no sentido de cativar mais pessoas para a Secção de Natação do CNH. “Os meus colegas da Escola dizem que a Natação é um desporto difícil, mas sei que o que lhes falta é força de vontade”, destaca Tomás Oliveira.

“Participar em maior número de competições fora do Faial para poder ter a possibilidade de contactar com os melhores”, é um dos grandes focos deste atleta faialense, que sabe que “é assim que se vê quem é que é bom, se esforça e trabalha muito para ser nadador”.

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Afonso Santimano, Guilherme Nunes, Tomás Oliveira e Diogo Vieira: os mais novos contam com o incentivo dos mais velhos

Michael Phelps como ídolo

Para Tomás Oliveira, participações em São Miguel e Terceira – ilhas onde fez amigos, dentro do grupo daqueles que “não inferiorizam os faialenses” – estão a revelar-se “monótonas”, pelo que a ambição já passa pelos Nacionais e Jogos das Ilhas. “Ainda tenho o sonho de ir aos Jogos das Ilhas, embora este seja o último ano em que me é dada essa possibilidade atendendo ao escalão em que me encontro. Quanto aos Nacionais, há mais hipóteses. A Treinadora disse-nos que se mantivermos este ritmo, poderemos alcançar essa meta”.

Tomás é “muito competitivo” e reconhece que cresceu. “Percebi que foi a perder (nem sempre se pode ganhar) que consegui aprender e evoluir. Sempre que erro, tento melhorar da vez seguinte. A idade faz-nos crescer como atletas e ganhamos maturidade”, realça este nadador, que tem em Michael Phelps o seu ídolo. “Ele perdeu algumas provas estupidamente, mas, depois, com maior maturidade, já soube evitar os erros anteriores. Vi-o ganhar 8 medalhas em Pequim, nos Jogos Olímpicos de 2008”.

E foi precisamente por causa do mais medalhado atleta olímpico de sempre, que Tomás adoptou a Mariposa como estilo preferido. “É um estilo lindo de se ver”, defende, sorridente.

Na opinião deste atleta, “o Clube Naval da Horta tem crescido bastante”. E memora: “Há 2 anos só tínhamos 8 nadadores na Competição. Actualmente são cerca de 20”.

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“Fico chateado quando vejo pessoal de outros clubes a inferiorizar os nossos”

Conquistas

Este jovem está na competição desde os 7/8 anos, tendo participado no 1º Regional de Competição em 2010, na altura como Cadete.

É com um brilhozinho no olhar que revela: “Tenho melhorado significativamente os meus tempos. O ano passado foi de adaptação à Treinadora e ultimamente o treino é diferente. Treinamos a um nível bastante elevado. Sentimo-nos motivados e orgulhosos por atingirmos melhores tempos e conseguirmos realizar exercícios que antes não nos eram possíveis. Melhorei muito nos últimos 2 anos. Na Natação, precisamos de um treinador que puxe por nós. É um desporto de que temos mesmo de gostar, pois não estamos a falar de algo intermédio”, destaca.

E quando se pede para elencar os treinadores favoritos, os óscares vão para Lúcio Rodrigues e Sílvia Mendonça.

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“A Natação é uma das minhas paixões. Melhorei muito nos últimos 2 anos”

Apadrinhar os mais novos

Tomás Oliveira sugeriu que os atletas mais velhos apadrinhassem os Cadetes, o que aconteceu em Maio passado. “Eles vêem sempre os mais velhos como uma referência e assim sendo, achamos que com o nosso apoio, vão ter um futuro melhor”. A sugestão teve a benção da Treinadora.

Nesse contexto, os afilhados escolhidos por este nadador foram António Leal, Vasco Alexandrino e Maria Rita.

Como bom padrinho, Tomás apoia-os. “Gosto de lhes dar conselhos e apontar-lhes os aspectos em que podem melhorar. Acho que foi uma forma de perceberem que têm alguém em quem podem confiar, motivando-os. Os padrinhos são uma espécies de conselheiros”, esclarece Tomás no decorrer desta Entrevista destinada a dar a “Conhecer os Nossos Atletas”.

“Sinto orgulho em representar o Clube da minha Ilha”

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“A Natação é um desporto individual, mas é necessário o apoio da equipa”

Fotografia de: ANARA

Tendo em conta que este jovem dá tudo pela Natação, entende que seria bom poder contar com mais equipamento, extensivo aos restantes colegas. “Poderia haver mais uma t-shirt e uns calções no período destinado ao aquecimento e os fatos de treino – que já são velhinhos – bem mereciam ser substituídos. Gosto de vestir o equipamento do CNH, porque sinto que estou a carregar algo importante e bom. Sinto orgulho em representar o Clube Naval da Horta, pois é o Clube da minha Ilha, mas ao mesmo tempo  estou, também, a representar a minha Região”.

Além do equipamento, no rol dos desejos surge, ainda, a figura do fisioterapeuta para acompanhar os nadadores, o que poderia acontecer “de vez em quando”, ou seja, quando há lesões.

Tomás aposta – por conta própria – na ginásio por saber que o faz “ganhar mais força muscular e também mais resistência, conseguindo melhorar”.

No ginásio, o atleta tem um plano de treino que trabalha aquilo que a Natação exige e que “é tudo, porque estamos a falar do desporto mais completo que se pode ter”. E aqui também se inclui o esforço mental, “sobretudo em provas longas”. Temos de estar concentrados. O stress só entra na câmara de chamada, antes de irmos para a zona de partida”, confidencia.

Tomás: o teu sorriso continua a dizer tanto ou mais do que a primeira vez que te entrevistei, eras tu menino, mas já muito senhor de ti mesmo.

A tua persistência, exigência e capacidade de trabalho cresceram contigo, fazendo de ti uma preciosidade humana, com reflexos em tudo aquilo a que te dedicas com paixão. Sei que és muito duro contigo próprio para conseguires estares à altura dos valores que elegeste como bandeiras na tua vida: excelência, responsabilidade e entrega sem limites. Tenho a certeza de que irás longe na concretização dos teus projectos, ainda que isso implique sofrimento e trabalho árduo. É assim quando nos regemos por objectivos. O que interessa é que te sintas realizado e feliz, ainda que os outros não percebam onde se situa a tua fasquia.

Sê fiel a ti próprio e confia no teu coração, onde moram sentimentos muito nobres.

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