“Náutica no Bar” do CNH: À conversa com Francisco Lufinha

“O meu maior medo é ficar sem vento!”

Parte da manhã do feriado de quinta-feira, 1 de Novembro, foi passada no Bar do Clube Naval da Horta (CNH), na companhia de um jovem alfacinha, aventureiro e recordista mundial: Francisco Lufinha.

Tendo como pano de fundo a famosa Marina da Horta, este português internacional exibe com orgulho o Certificado da proeza alcançada a 7 de Julho de 2015 e que atesta que ele é o actual detentor do Recorde do ‘Guinness’ da maior viagem de ‘Kitesurf’ do Mundo sem paragens, ao ter percorrido 862 quilómetros durante 48 horas em cima da prancha, entre Lisboa e a Madeira. 

E antes de continuar a desvendar o que se passou neste dia de Pão por Deus, refira-se que ‘Kitesurf’ é um desporto aquático em que o atleta se desloca com os pés apoiados sobre uma prancha estando preso pela cintura a uma estrutura semelhante a um parapente. A deslocação é impulsionada pelo vento, o que permite mover-se a alta velocidade e fazer grandes saltos sobre a água.

Com o intuito de divulgar estas aventuras muito bem sucedidas – que vão ter continuidade e ser superadas – e, simultaneamente, apelar a atitudes pró-activas nas vidas dos mais novos perante o mar que os rodeia, em 2017 foi criado o Projecto “Lufinha School Tour”.

No âmbito desta iniciativa que tem como público-alvo todos aqueles que se encontram em aprendizagem escolar, este consagrado velejador e amante de desportos que envolvam muita adrenalina, já passou esta mensagem a mais de 12.500 alunos. Foi nesse contexto que o atleta esteve na ilha do Faial esta quinta-feira, mas atendendo a que se tratou de um feriado, a escolha recaiu sobre o Clube Naval da Horta (CNH), a única instituição náutica da ilha e com grandes responsabilidades na formação das camadas mais jovens, sendo um exemplo no que à preservação marinha diz respeito. Por isso, a conversa reuniu Dirigentes, Treinadores, alguns Atletas e os Pais, além do Gabinete de Imprensa do CNH e da RTP/Açores.

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Miúdos e graúdos foram convidados a participar nesta conversa informal mas muito enriquecedora

A enraízada tradição do Pão Por Deus – desconhecida para o convidado – fez com que mais atletas do Clube não tenham comparecido, mas todos aqueles que estiveram presentes – expressaram grande entusiasmo e satisfação pelo que ouviram e aprenderam, referindo que valeu a pena!

Numa linguagem super-acessível e com um discurso hiper-cativante, este jovem de 35 anos fez questão de pedir a colaboração dos mais pequenos, interagindo com miúdos e graúdos. Habituado que está a andar pelas escolas, vinha munido com fotografias da sua “importante e fantástica equipa”, além de pequenos vídeos dos seus desafios, de algumas etapas da mega-operação de preparação que tudo isto implica e com imagens simplesmente deslumbrantes daquilo que são estas ilhas perdidas no meio do Atlântico chamadas Açores. A beleza era tal, que os naturais ficaram fascinados e boquiabertos com as paisagens que existem por estes lados que, por um lado permitem a prática de desportos e aventuras inesquecíveis e, por outro, fazem com que a preservação deste pedaço sagrado do ecossistema seja uma missão de todos nós. Para que haja futuro!

Francisco – que de forma empolgada revelou ter sido pai há 6 semanas de outro Francisco, neto de um primeiro Francisco – demonstrou estar muito à vontade não só para partilhar tudo aquilo que experienciou em alto mar, mas, também, para sensibilizar para a preservação dos oceanos, tendo o apoio da “Fundação Oceano Azul” e do “Oceanário de Lisboa”, bem identificados no casaco que envergava.

E aqui o foco são os plásticos. “Quanto mais longe de terra estamos, mais limpinha e transparente é a água, mas em contraponto, ao aproximarmo-nos da costa existe mais poluição. Começa-se a ver plástico com fartura. Vi baldes partidos e inteiros e garrafas de coca-cola impecáveis, com o rótulo ainda a brilhar. O plástico é muito prático e foi uma grande invenção, que dura muito, mas não se desfaz, o que é uma chatice. Devemos usar materiais alternativos e, acima de tudo, fazer separação dos lixos em casa, no sentido de haver reciclagem. É verdade que mesmo assim o plástico vai entrar de novo no sistema, mas usa-se menos.

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A assistência ouviu Lufinha com muita atenção e interesse

Temos de estar atentos a tudo o que possa atentar contra o ambiente, o que também passa pela nossa alimentação. Aprendi, por exemplo, que não se deve comer sardinhas com menos de 11 centímetros e jaquinzinhos (nos Açores conhecidos como chicharros) com menos de 16, pois, caso contrário, não permitimos que haja desova e o ‘stock’ entra em ruptura”.

Anos de preparação

Para chegar à realidade, depois do sonho Lufinha teve uma longa preparação! “Comecei a pensar nisto em 2006 mas andei a engonhar até 2013. Por isso aprendi que é preciso acreditar e largar. Mas sem certezas de que vou conseguir. Mesmo assim, há que arrancar, pois a vida é um Campeonato e em quantas mais Regatas eu entrar, melhor.

Os pais estão sempre preocupados connosco, porque compete-lhes proteger-nos. Por isso, cabe-nos arranjar maneiras de lhes provar que estamos certos. Comigo também foi assim! E ainda continua a ser...

É fundamental termos treino físico fora do ‘Kite’: andar de bicicleta, nadar, fazer corrida e exercícios. Fazer alongamentos é do mais importante. Nem sempre fazia isso e paguei algumas facturas”.

A Alimentação é outro factor a ter em conta, a que se junta a Marinha (autorizações para realizar estes desafios), as Parcerias; a Equipa de Apoio, a Divulgação (patrocinadores precisam de ter notícias/informação), etc.

Um a um, Francisco apresentou os elementos da sua dinâmica equipa, que integra um representante da Marinha, um médico, um fisioterapeuta/massagista, o nutricionista, a pessoa que faz a divulgação nas redes sociais, o responsável pela imagem, o homem que tem como função “elevar a moral” de Lufinha, puxando por ele sempre que este se vai abaixo, entre outros. “A viagem no barco de apoio (semi-rígido) é bem dura. Não sei se aguentava”, alerta o velejador.

É vasto o conjunto de requisitos para a montagem de um projecto desta natureza, pelo que Lufinha sublinha que implica um ano de preparação. E destaca: “O dos Açores foram 2 anos de preparação. Há muitas coisas envolvidas e muitos compromissos, por isso o ‘stress’ é grande até partir para o mar. Aí, as coisas já são diferentes! Mas nunca sei a data certa em que vou arrancar. Por causa do vento, só fico a saber três dias antes”.

Para perceber como ia reagir, Francisco ficou 24 horas em cima de uma prancha numa piscina, tendo o teste se revelado duro mas, simultaneamente muito positivo.

“No percurso entre Lisboa e a Madeira vimos três navios, o que nos dá gozo e anima a travessia. É uma forma de passar 1 ou 2 horas de forma animada e o pessoal dos barcos acena-nos e ficamos despertos.

Saímos do Terreiro do Paço que é do pior em termos de vento, mas tinha de ser no sentido de atrair mais atenções, incluindo os próprios Órgãos de Comunicação Social.

Havia uma caravana à saída a acompanhar e apoiar, o que é muito importante. Faz muita diferença ter alguém a apoiar.

Ao fim de tantas horas de forte impacto e de muita dor, adormeço em pé. É preciso dormir. De duas em duas horas tiro o capacete durante meia-hora”. Mas passada a tormenta, Lufinha esquece a parte dolorosa e está pronto para outro desafio. “Ficamos com ligações para a vida e é isto que eu adoro”.

‘Kitesurf’ oceânico

Francisco explica que navega numa prancha como se fosse de ‘surf’. Trata-se de equipamento para ‘Kitesurf’ oceânico. “E porquê no oceano? Porque sou bastante ligado ao mar e neste momento somos apenas 4 atletas a nível mundial. Sou quase um barco à vela, desde que haja vento. O meu maior medo é ficar sem vento.

A novidade foi o ‘Kitesurf’ à noite, o que implica alguns riscos.

Vento/barco/vela. Ganhei esta habituação e somos uns sortudos por termos este azulão, este mar de oportunidades.

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O grupo juntou-se na esplanada do Bar do CNH para uma fotografia em que todos gritaram a uma só voz a garra de ser português 

Para mim, o mar, que representa 97% do planeta, é sinónimo de Descoberta/Infinito/Aventura. Sou muito ligado a este ambiente e também por isso fiz parte da equipa de um grande velejador oceânico solitário, de que vocês já devem ter ouvido falar, que é o Francisco Lobato”.

Ainda referindo-se ao mar, Lufinha associa Correntes/Marés/Biologia/Mergulho e Turismo (que deve ser desenvolvido de forma sustentável) a que se juntam os Transportes.

O pior momento

Francisco recordou que, de todas as travessias feitas até hoje, o momento mais difícil foi a primeira noite, na ida para a Madeira: “Ainda estava muito lúcido – sim, porque ao fim de 36 horas sem dormir, começas a ter alucinações – e íamos muito rápido, mas já eram umas 11 horas da noite e a lua ainda não tinha nascido. Tropecei numa onda, a prancha prendeu e, para não me magoar, saltei para a água e acabei por ficar longe da prancha. Estava escuro e não conseguia vê-la. O barco não me viu nessa altura e prosseguiu. Bastava que alguém tivesse olhado no segundo antes, mas seguiram. Eles iam muito rápido, portanto afastaram-se imediatamente. Fiquei sozinho ali no mar e às escuras. Tinha o comunicador, mas com a velocidade a que eles iam, perdi o contacto e o rádio avariou com a água. À medida que via o barco a afastar-se começava a entrar em pânico.

Pensei que ia ficar ali, foi muito mau. Estares no meio do oceano e não veres nada, é mau. Pensas em tudo. Pensas em bichos que ficam por baixo e de repente és um foco. Sabes que tens a tua equipa ali e que te vão encontrar, mas ficas nervoso. Foi um momento muito mau.

Tive que passar ao plano B e activar um foguete luminoso que tenho sempre na mochila. Aquilo fica um minuto a arder e não vês nada, ficas completamente encadeado, e eles lá me viram. Tudo isto durou uns 20 minutos até eu voltar a estar com eles. Depois deram-me uma prancha nova e seguimos”.

A propósito das comunicações entre ele e o barco de apoio, esclarece: “Temos todos os equipamentos de segurança necessários e ainda temos os extras, que não são obrigatórios. Eu e o barco estamos sempre ligados, via ‘bluetooth’ e via VHF (Frequência Muito Alta), e a embarcação tem as comunicações satélite, que são os telefones e as antenas. Todas essas medidas são reforçadas nestes desafios”.

Ligar países que falam português 

Quando questionado sobre o próximo projecto, Lufinha adianta que gostava de construir “um barco/nave, hiper-diferente para andar rápido”. E prossegue: “Ir em pé não dá. Por isso, pretendo construir um barco, que ande rápido e disponha de uma cadeira, com o intuito de ligar países que falam português e virados para os temas portugueses”.

O que se pretende é partir do Continente até Cabo Verde e depois ligar o Brasil, Angola, Moçambique, Goa, Timor e Macau, na companhia de uma pessoa de cada um destes sítios.

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“Adoro fazer coisas que nunca foram feitas”

Lufinha confessou que “a dedicação" que coloca na preparação de cada projecto é o que o faz concretizá-lo. “Comprometo-me. Isto é um truque que uso comigo mesmo. Digo que pretendo alcançar um determinado desafio e depois se não faço nada as pessoas vêm perguntar-me quando é que vai acontecer e aí eu fico a perceber que tenho mesmo de avançar e chega a um ponto que já estou de tal maneira comprometido com os parceiros e com uma série de empresas e pessoas que tenho de partir”. 

Ainda no tempo destinado às questões, Francisco desvendou a questão de como é que no mar vai à casa de banho, satisfazendo a curiosidade dos presentes. Parte do segredo reside no plano alimentar que é seguido antes da prova, a cargo da nutricionista da equipa. “Como alimentos sem fibra, que é o que nos faz ir à casa de banho”. A parte líquida é bem mais fácil de resolver: “Tenho um fato com uma abertura à frente. Bebo um litro e meio de água, que está na mochila, a cada duras horas. Essa água tem de sair e a abertura permite fazer tudo para fora”.

O custo de um projecto destes também foi questionado, tendo Francisco dito que depende, afiançando que “a maior fatia vai para o barco de apoio”. Ainda assim avançou que o desafio da Madeira envolveu qualquer coisa como 150 mil euros.

Certo, certo é que Lufinha adora fazer coisas que “nunca foram feitas”.

Olga Marques, Vice-Presidente da Direcção do CNH, agradeceu a presença de Francisco Lufinha, fazendo votos para que outras iniciativas aconteçam no Faial, com a colaboração e o apoio desta instituição náutica.

Desafios realizados

Francisco Lufinha, recordista mundial da maior viagem em ‘kitesurf’ sem paragens, realizou um desafio extremo ao ligar os Açores ao Continente português, numa travessia de mais de 1.500 kms.

Este desafio feito em parceria com a também recordista alemã de ‘Kitesurf’, Anke Brandt, que ligou o Bahrain a Abu Dhabi (489 kms em 30 horas) e que em 2017 se juntou para a maior travessia do mundo em dupla de ‘kitesurf ‘alguma vez realizada. Lufinha e Anke partilharam milhas em turnos intercalados de 8 horas.

Esta odisseia, que foi levada a cabo pelos dois recordistas, constituiu a derradeira etapa do projecto de Francisco Lufinha designado “Portugal é Mar”, que pretendia ligar o território português por mar em ‘Kitesurf’.

Recorde-se que em 2013 este atleta completou a viagem Porto-Lagos (564 kms em 29 horas), em 2014 ligou o ponto mais a Sul do território português, as ilhas Selvagens ao Funchal (306 kms em 12 horas) e em 2015 fixou um novo Recorde do Mundo entre Lisboa e a ilha da Madeira (874 kms em 48 horas).

Lufinha não vive do mar ou depende apenas dele. Formou-se em Engenharia e Gestão Industrial no Instituto Superior Técnico (IST), em Lisboa, mas rapidamente percebeu que “queria fazer coisas diferentes”. Trabalhou em consultoria e auditoria, mas achou “repetitivo”. Montou o seu próprio negócio e tem hoje uma empresa de gestão de eventos náuticos, onde aluga barcos a estrangeiros. Tal decisão surgiu, confessa, porque fazia mais sentido “um negócio ligado ao mar para poder estar mais tempo no mar do que antes”.

As palestras de motivação também fazem parte do seu currículo.

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