“Náutica no Bar” abordou Segurança no Mar - Comandante Rafael da Silva: “Nós queremos mesmo salvar vidas mas para isso precisamos de ser contactados”

Na foto: José Decq Mota, Presidente da Direcção do CNH; Comandante Rafael da Silva, Capitão do Porto da Horta; e Susana Rosa, Coordenadora (conjuntamente com José Fernandes) da Secção de Vela de Cruzeiro do CNH. O Presidente do CNH garantiu que estas sessões são para repetir sempre que houver pertinência temática

“A Segurança no Mar” foi o tema da “Náutica no Bar” do Clube Naval da Horta (CNH), que aconteceu na noite desta quinta-feira, dia 23. Os alertas e conselhos foram trazidos pelo Comandante Rafael da Silva, Capitão do Porto da Horta, tendo esta iniciativa encerrado o programa comemorativo do Dia da Marinha no Faial, a que o CNH se associou – novamente este ano – com a promoção e realização de diversas actividades.  

Conselhos básicos na preparação de uma viagem

Nas suas palavras introdutórias, José Decq Mota, Presidente da Direcção do CNH, explicou que esta foi uma iniciativa proposta pelos Coordenadores da Secção de Vela de Cruzeiro do Clube Naval da Horta, Susana Rosa e José Fernandes.

O orador, um marinheiro com milhares de horas de navegação, tendo sido formador e vivido aventuras transatlânticas, agradeceu o convite e apontou aqueles que considera serem os requisitos básicos a ter em conta na preparação de uma viagem.

Primeiro do que tudo, é preciso conhecer a embarcação. “O básico é conhecermos o nosso barco assim como as pessoas que convidamos para viajarem connosco, as quais devem saber onde estão os coletes, os extintores, etc”, referiu o Comandante Rafael da Silva, que acentuou: “Isto é básico mas por vezes esquecemo-nos”.

Depois, é fundamental conhecer os limites do barco. E a meteorologia. “Aqui [Açores], o tempo muda muito rapidamente e não nos podemos fiar apenas no que vemos pela janela”, evidenciou o orador.

Ter tudo arrumado ajuda mais do que aquilo que se possa pensar. O Capitão do Porto da Horta assegura que “o risco de incêndio é maior se as coisas não estiverem arrumadas”, alertando para o facto de o pó propagar o fogo.

Embora garanta que não liga a gatos pretos e que não se importa de passar por baixo de escadas numa sexta-feira, 13, Rafael da Silva afirma-se “supersticioso no mar”. “Uma escota no mar traz mau tempo e a bordo dos navios da Marinha Portuguesa não se assobia para não trazer mau tempo.

A que horas se deve largar do porto? De madrugada, de manhã, à noite? “Parece que todos defendem que deve ser de manhã. Porquê? Porque assim houve tempo para descansar”.

E que mantimentos se devem levar? Quanta água? O orador é apologista de que devem ser 5 litros por dia, por pessoa.

E devemos ir munidos com alguma ferramenta em particular? Rafael da Silva sacou de uma faca notando a sua grande utilidade em múltiplas situações, embora também tenha apresentado um corta-cabos gigante, lembrando que uma mota-bomba pode dar muito jeito.

A emergência e o processo de abandono da embarcação também faz parte dos aspectos a ter em conta. Aqui, pensamos logo em emergência médica e suporte básico de vida. Mas este homem da Marinha realça que, “primeiro do que tudo, é preciso pedir ajuda”. E frisa: “Nós queremos mesmo salvar vidas mas para isso precisamos de ser contactados. Conheço pessoas que não pediram ajuda para evitar terem problemas relacionados com documentos, vistorias, etc”.

Uma das pessoas que se encontrava na assistência assinalou que “a legislação é demasiado castradora para quem anda na náutica de recreio”, concordando com a necessidade de quem precisa de ajuda fazê-lo no imediato. 

Prefiro que me chamem e não tenha sido nada do que ter de ir depois à procura dos cacos”

“As pessoas tentam resolver a situação por si mesmas e perdem-se minutos preciosos numa situação de salvamento”, notou o orador, alertando para o facto de “um acidente marítimo nunca ter só uma causa mas sempre várias. Há sempre uma sucessão de eventos para que se dê o acidente: erros nas comunicações, precipitação, cansaço, falta de coerência. É claro que faltando tudo isto acontece o sinistro marítimo”. Por isso, Rafael da Silva é directo: “Prefiro que me chamem e não tenha sido nada do que ter de ir depois à procura dos cacos”.

“O processo de abandono é delicado”, sublinhou, afirmando que “só devemos deixar a nossa embarcação quando tivermos a certeza de que ela já não oferece segurança, pois, sem dúvida que é mais segura do que a jangada. O abandono da embarcação não pode ser uma decisão tomada de ânimo leve, tendo em conta que cada vez mais os barcos são robustos”.

E neste ponto, um dos participantes foi convidado a partilhar o que viveu num acidente marítimo com o seu barco (ocorrido no fim de 2018 e que teve um desfecho feliz) e os procedimentos que seguiu.

O orador lançou um desafio ao CNH no sentido de o pessoal que anda nos barcos (do Clube, Sócios, Colaboradores, etc,) saber manusear o material. Nesse contexto, Luís Carlos Decq Mota, Presidente da Assembleia-Geral do Clube Naval da Horta, recordou que em 2011 o CNH promoveu um Curso de Salvamento, tendo, também, sido lançados ‘very-lights’.

Recordando uma prática habitual no CNH, uma das pessoas que se encontrava na assistência lembrou que antigamente, quando se podia ir à ponta da doca, era feito um aviso prévio e muitos aproveitavam para treinar com os ‘very-lights’ fora de prazo, o que era uma forma de praticar para um eventual acidente.

Pelo que foi referido, tudo indica que a ideia vai ser retomada e que a Náutica no Bar deverá ser repetida sempre que sejam propostos temas que Sócios, Colaboradores e população em geral queiram ver abordados.

Ter sempre um meio de comunicação

O Capitão do Porto da Horta ressalta que “quando se faz mergulho não se deve ir sozinho”. Este conselho é extensivo a todas as outras actividades náuticas. “Mas pior do que ir sozinho, é não levar um meio de comunicação como o telemóvel ou um VHF”, realça. E depois acontecem situações que custam milhares de contos ao erário público – ou seja, a todos nós – de que são bons exemplos os casos em que as pessoas vão pescar ou simplesmente apanhar erva patinha não, tendo, por vezes, sequer avisado em terra quem quer que seja dessa actividade.

“Investir num equipamento eficaz e eficiente é algo que deve ser tido em conta sempre e que faz toda a diferença na procura e localização da embarcação”. 

O orador apelou para que não atirem as EPIRB’s para a lixeira ou para o mar, as quais podem emitir falsos alarmes e desencadear preocupações ou operações infundadas.

As EPIRB’s (Emergency Position-Indicating Rádio Beacons) são transmissores de localização, usados em situações de emergência. Quando activado, este aparelho envia sinais intermitentes com dados que possibilitam a localização de pessoas, embarcações ou aeronaves necessitando de resgate.

Este equipamento faz parte do Sistema de Apoio à Segurança Marítima Global (Global Maritime Distress Safety System), liderado pelos Estados Unidos.

Entre 1982 e 2002, este sistema possibilitou o salvamento de cerca de 14.700 pessoas.

Passando a uma situação concreta e bem sucedida, o Capitão do Porto da Horta recordou o acidente ocorrido na Madalena do Pico com o “Mestre Simão”, a 6 de Janeiro de 2018, elogiando “a calma e o discernimento da tripulação, que em 30 minutos tinha evacuado as 70 pessoas que já se encontravam na balsa”.

“O MRCC está a olhar para o vosso percurso”

Nos panfletos distribuídos, Rafael da Silva comunicou que a Marinha dispõe de uma nova plataforma de Busca e Salvamento, destinada ao acompanhamento das embarcações, chamada Followme@sea. Para tanto, basta a pessoa registar-se e o trajecto passa a ser acompanhado. “O MRCC está a olhar para o vosso percurso”, asseverou o orador.

Esta plataforma possibilita um acompanhamento das embarcações da náutica de recreio e da comunidade piscatória, que realizam navegações costeiras ou transalânticas entre marinas nacionais e estrangeiras, e que queiram ser acompanhadas pelo MRCC Lisboa durante o seu trânsito.

nautica bar seguranca mar 5 2019

A assistência escutou atentamente os conselhos partilhados e interagiu com o orador

Embora o acompanhamento não seja permanente, excepto nas situações em que as embarcações possuam equipamentos que permitam a sua localização (exemplo: AIS), o propósito e a grande vantagem deste acompanhamento é disponibilizar a informação da última posição da embarcação que, num cenário de busca e salvamento marítimo, é fundamental para o planeamento das buscas e coordenação das acções de salvamento.

O serviço disponibilizado por esta plataforma não substitui a necessidade de as embarcações possuirem os equipamentos imprescindíveis para garantir a sua segurança no mar.

Mais momentos desta Náutica no Bar podem ser vistos na Galeria de Fotos.

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