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Atletas do CNH: David Abecasis e Miguel Guimarães ambicionam conquistar um bom lugar num Campeonato Europeu ou Mundial
São atletas do Clube Naval da Horta (Classe Snipe) e andam na Vela há muitos anos. O primeiro nasceu em Manchester, no Reino Unido, e o segundo em Lisboa. Fazem muita ginástica para conseguir trabalhar, treinar e obter títulos, num país que não tem um desígnio para que a Vela possa evoluir. Trata-se de David Abecasis e Miguel Guimarães que fazem o balanço à época 2013/2014, partilhando ambições e projectos (onde se inclui a aquisição de um novo barco, já que o actual tem 15 anos) de um desporto que, representando melhor que qualquer outro a história e a tradição de Portugal, não tem a atenção necessária para possa haver melhores resultados, porque talento, há de sobra.

David Abecasis e Miguel Guimarães: amigos há 25 anos com uma paixão em comum: a Vela!
Fotografia tirada no Rio de Janeiro e cedida por: David Abecasis
Gabinete de Imprensa do Clube Naval da Horta: Como decorreu esta época?
David Abecasis: Com excepção do Campeonato Nacional, correu bastante bem.
Miguel Guimarães: Na minha opinião correu bem, foi pena não termos conseguido ganhar o Campeonato Nacional.
G. I.: Quais eram as vossas expectativas?
David Abecasis: Depois da vitória no Ranking Nacional do ano passado e de termos sido Vice-Campeões Nacionais, a nossa ambição para esta época era tentar ganhar novamente o Ranking Nacional e lutar pela vitória no Campeonato Nacional.
Miguel Guimarães: Lutar pela vitória no Campeonato Nacional.
G. I.: Estão satisfeitos com o resultado final alcançado?
David Abecasis: De um modo geral, sim. Fizemos bons campeonatos em Espanha e em Portugal. Apesar de terem sido um pouco abaixo das nossas expectativas, não podemos dizer que foi uma má época.
Miguel Guimarães: Em geral sim, obtemos boas classificações em regatas importantes.
G. I.: O que correu muito bem e menos bem?
David Abecasis: Menos bem foi a nossa adaptação a navegar com ondulação, como foi o caso do Campeonato Nacional e do Campeonato Ibérico. Conseguimos melhorar um pouco entre os 2 campeonatos, mas ainda não estamos no nível que pretendemos. A parte que correu bem foram os bons campeonatos que realizámos em Espanha, com frotas maiores do que em Portugal e onde, por norma, o nível também é elevado. Também já começamos a ficar mais habituados ao barco e a dominar melhor alguns aspectos da sua navegação.
Miguel Guimarães: Os campeonatos em Espanha correram bem e a navegação em águas planas está boa. O Campeonato Nacional e a dificuldade em navegar com ondas, foram as partes menos boas deste ano.
G. I.: Quais os maiores títulos alcançados até agora?
David Abecasis/Miguel Guimarães: Nesta Classe, apesar de recente para nós, podemos destacar em 2013:
- vitória no Torneio Internacional do Carnaval de Vilamoura
- 2º lugar no Campeonato Nacional
- 2º lugar no Memorial Nacho Rey (Villgarcia, Espanha)
- 6º lugar no Trofeo da Armada (Santiago de la Ribera, Espanha) onde, apesar de parecer um lugar menos bom, é preciso referir que estavam presentes cerca de 70 barcos e que o nível da frota era bastante alto
- vencedores do Ranking Nacional
2014:
- 1º lugar no Trofeo Memorial Cholo Armada (Vigo, Espanha). Esta vitória deu-nos o título de Campeões Luso-Galaicos
- vencedores do Ranking Nacional
Os Campeonatos realizados em Espanha, com frotas maiores do que em Portugal e onde o nível competitivo é elevado, correram muito bem a esta dupla de atletas da Classe Snipe
G. I.: Quais os vossos objectivos a médio e longo prazo?
David Abecasis/Miguel Guimarães: O nosso principal objectivo para as próximas épocas passa por conquistar o título de campeões nacionais.
G. I.: O que gostariam de conquistar e que consideram quase “um sonho”?
David Abecasis/Miguel Guimarães: Um bom lugar num Campeonato Europeu ou Mundial (top 5).
G. I.: Quem é que admiram (velejadores)?
David Abecasis: São muitos! Seria uma lista enorme.
Miguel Guimarães: Há muitos. Pela sua história e feitos, admiro o Paul Elvstrom e o Eric Tabarly. Das gerações mais recentes, admiro o Ben Ainslie e o Torben Grael. Em Portugal, acho que temos excelentes velejadores, como por exemplo, o Hugo Rocha, mas há muitos mais.
G. I.: Com que idade começaram a velejar?
David Abecasis: Com 10 anos.
Miguel Guimarães: Com 8 anos.
G. I.: Havia antecedentes familiares nesta modalidade?
David Abecasis: Tudo começou por iniciativa de meu pai que, quando era adolescente, chegou a construir um pequeno catamarã com um amigo. Comecei por dar uns passeios num barco de um amigo do meu pai e pouco mais tarde iniciei-me nos Cursos de Vela da Associação Naval de Lisboa.
Miguel Guimarães: Sim, havia antecedentes familiares, o meu pai já fazia Vela. Nasceu em Angola e o meu avô estava muito ligado ao mar, sendo o Responsável pela Escola de Vela em Luanda, de onde saíram grandes velejadores. Tinha um negócio de construção de barcos, bem como embarcações que operavam no porto e faziam a travessia para o Mussulo. Foi, portanto, com naturalidade que, anos mais tarde, me inscrevi na Vela, actividade de que gostei muito. Gostei tanto que, quando me foi dado a escolher entre ficar no futebol ou na Vela, não tive qualquer dúvida.
G. I.: Ainda hoje há mais pessoas nas vossas famílias que se dediquem à Vela ou a outro desporto?
David Abecasis: Tenho alguns tios e primos que praticam Vela por lazer. O meu sogro tem um barco e para além de lazer, também faz algumas regatas.
Miguel Guimarães: Penso que neste momento não.
G. I.: Gostavam que a vossa descendência também continuasse no mundo da Vela?
David Abecasis: Claro, e espero ter condições para lhes proporcionar isso.
Miguel Guimarães: Sim, gostava muito.

Nem sempre é fácil conciliar a vida profissional com a Vela, mas a grande vontade ajuda a superar as dificuldades encontradas
Fotografia de: José Camelo
G. I.: Se voltassem atrás, a vossa história seria igual?
David Abecasis: Provavelmente, sim.
Miguel Guimarães: Parece-me que seria. Vivo e trabalho perto do mar e posso velejar e participar em regatas ocasionalmente! Sinto-me privilegiado por isso.
G. I.: Como surgiu a oportunidade de velejarem como dupla? Também competem de forma individual?
David Abecasis: Quando atingimos a idade limite para andar de Optimist, a nossa opção foi seguir para uma Classe de 2 tripulantes. A escolha recaiu no 420 e começámos a navegar juntos em 1994/1995. Para além de competirmos juntos na Classe Snipe, participamos juntos ou separados em campeonatos de outras classes, como por exemplo SB20, Cruzeiros ou Match Race.
Há cerca de 1 mês eu, o Miguel Guimarães e o Rui Silveira, também atleta do CNH, fizemos parte da tripulação (liderada pelo Miguel) que se sagrou Vice-Campeã Nacional de Cruzeiros ORC. Curiosamente, participámos no antigo barco do Dr. Luís Quintino.
Miguel Guimarães: Conhecemo-nos desde muito novos. Quando saímos dos Optimist, decidimos navegar juntos em 420 e desde aí velejamos juntos. De vez em quando competimos em outras classes e barcos, o que é sempre uma boa forma de ganhar experiência que depois usamos em conjunto.
G. I.: Sempre foram amigos?
David Abecasis: Sim, desde que nos conhecemos na Associação Naval de Lisboa quando ambos andávamos de Optimist, que nos damos bastante bem. Já lá vão 25 anos!
Miguel Guimarães: Sim, desde os 10 anos.
G. I.: Como vêem a Vela em Portugal?
David Abecasis: Infelizmente, nestes últimos anos cada vez pior. Penso que temos um enorme potencial, no entanto, do meu ponto de vista as opções tomadas não têm sido muito felizes.
Miguel Guimarães: Infelizmente não existe um desígnio nacional para que a Vela evolua. Este desporto representa a história e tradição de Portugal melhor do que qualquer outro, mas não tem a atenção necessária para que possa haver melhores resultados. Mesmo assim, vamos (neste caso, os velejadores portugueses) obtendo alguns resultados bons na Vela, principalmente graças ao esforço individual de alguns atletas, mas sem uma boa estrutura por trás.
G. I.: Vão continuar na Vela até quando?
David Abecasis/Miguel Guimarães: Até sempre!!

David Abecasis e Miguel Guimarães são amigos na Vela e na vida
Fotografia de: José Camelo
G. I.: Paralelamente à Vela, têm ocupações profissionais. Quais? Como conseguem conciliar tudo? Quando é que treinam?
David Abecasis: Eu sou biólogo marinho. Por vezes não é fácil conciliar o trabalho com os campeonatos, mas com algum esforço e muita organização, torna-se possível. Por norma, treinamos ao fim-de-semana (sábado ou domingo) e em períodos de preparação para alguns campeonatos por vezes conseguimos treinar à hora de almoço.
Miguel Guimarães: Eu tenho, em parceria com mais 2 sócios, uma empresa de venda de barcos à Vela, que é a Descobreventos. Apesar de a minha vida profissional ser os barcos, o trabalho deixa pouco tempo para os treinos, por isso temos de nos organizar e treinar quando é possível.
G. I.: Não é possível dedicarem-se somente à Vela?
David Abecasis: Infelizmente, neste país, isso é praticamente impossível.
Miguel Guimarães: Não, não dá para sobreviver sem ir para outro país e encontrar bons projectos de Vela.
G. I.: Quem é que vos patrocina? Falem do novo barco.
David Abecasis: Esta parte deixo para o Miguel, mas não queria deixar de realçar o apoio que temos tido por parte do Clube Naval da Horta.
Miguel Guimarães: Neste momento, o financiamento é maioritariamente pessoal. O esforço é grande, mas o gosto pela Vela faz com que se ultrapassem as dificuldades. Os investimentos são avultados. Por exemplo, a ida ao Mundial no Brasil devido ao custo da viagem e aluguer do barco, foi muito cara. O Clube Naval da Horta deu-nos algum apoio o que sempre ajudou.
Neste momento queremos tentar arranjar um barco novo. Apesar dos resultados serem bons, o nosso barco tem perto de 15 anos e penso que podemos ter melhores resultados com um barco actual. Para isso, estamos sempre a tentar obter algum apoio também de um patrocinador que nos ajude.
G. I.: Quais seriam as condições que consideram ideais para a prática da Vela?
David Abecasis: Tendo já vivido de perto com a realidade do Clube Naval da Horta, posso dizer que as condições não andam muito longe das que aí existem. Claro que há alguns pontos que são necessários e que não se encontram facilmente nos Açores, nomeadamente a existência de uma frota com vários barcos e um nível competitivo elevado. Por outro lado, as condições de mar e de acesso a ele são bastante boas.
Miguel Guimarães: Os Açores têm as condições ideais. Agora é a vontade de vencer e a força de vontade que poderão trazer melhores resultados.
Para David e Miguel a prática deste desporto representa um horizonte sem fim à vista
Fotografia de: Guilherme Bom
G. I.: Sentem-se reconhecidos pelo vosso trabalho?
David Abecasis: Sem dúvida, e em grande parte devido ao esforço de divulgação por parte do Clube Naval da Horta.
Miguel Guimarães: Sim, o Clube Naval da Horta faz um excelente trabalho na comunicação.
G. I.: O que é a Vela?
David Abecasis: Esta é uma pergunta muito difícil de responder. Para mim, a Vela tem várias “perspectivas”: em primeiro lugar, a vertente de competição, de lutarmos pelos nossos objectivos, de tentarmos superar-nos; dá-me um gozo enorme competir. Por outro lado, a tranquilidade que andar num barco à vela me transmite funciona como um escape e é uma maneira de ganhar forças para me focar naquilo que preciso. Para além disso, é também uma maneira de conviver com outras pessoas e de estar com alguns amigos.
Miguel Guimarães: É muito difícil de explicar... é uma parte de mim... sem a qual não consigo viver.
G. I.: Uma vez que não estão no Faial, sentem-se apoiados pelo Clube que representam (Clube Naval da Horta)? David Abecasis: Bastante!
Miguel Guimarães: Sim.
G. I. Como começou a vossa relação com o Clube Naval da Horta?
David Abecasis: Eu desde que aí estive, entre 2003 e 2005, e fui treinador do CNH, passei a correr pelo Clube. O Faial é uma ilha que adoro, assim como a Região Açores, e vejo esta nossa relação com o Clube Naval da Horta como uma forma de promover não só o próprio Clube, mas também o Arquipélago açoriano. Para além disso, é um Clube que nos dá atenção e sempre que vou ao Faial, sou muito bem-vindo.
Miguel Guimarães: Em pequeno fiz regatas nos Açores e vários amigos no Clube Naval da Horta. Entretanto, voltei aos Açores para fazer regatas de cruzeiro e reencontrei vários desses amigos.
G. I.: Há quantos anos são atletas do Clube Naval da Horta?
David Abecasis: Não sei precisar, mas penso que desde 2004.
Miguel Guimarães: Não me recordo com exactidão da data.
G. I.: Mantêm uma relação regular com o Faial?
David Abecasis: Desde que saí do Faial, tenho regressado praticamente todos os anos, quer em férias quer em trabalho. Miguel Guimarães: Mantenho uma relação regular em termos de trabalho. Infelizmente, o lazer tem ficado em segundo plano porque, para mim, não há melhor do que os Açores para quem gosta de mar.
G. I.: O Clube Naval da Horta é conhecido? Quando vão a provas fora de Portugal e se identificam como atletas do CNH, qual a reacção das pessoas?
David Abecasis: Em Portugal, é um Clube que já começa a ser reconhecido sendo, sem dúvida, um dos mais conhecidos no que às ilhas diz respeito. Por norma, as pessoas acham curioso estarmos a representar um Clube dos Açores e algumas ficam expectantes por saber como são as ilhas. Depois, temos as pessoas que conhecem a “mística” do Faial e do que representa na comunidade da Vela, principalmente para a Vela Oceânica. Essas gostam de saber que, para além de ser um importante local de passagem na travessia do Atlântico, existe um Clube que é representado não só em Portugal mas também lá fora.
Miguel Guimarães: Na minha opinião, é menos conhecido do que devia, mas fazemos questão de o dar a conhecer em todos os Campeonatos em que participamos.

Esta dupla sente-se apoiada e reconhecida pela “casa” que representa: o Clube Naval da Horta
Fotografia de: José Camelo
G. I.: Já representaram outros clubes? Quais?
David Abecasis: Para além do Clube Naval da Horta, apenas corri pela Associação Naval de Lisboa.
Miguel Guimarães: Associação Naval de Lisboa e Clube Naval de Cascais.
G. I.: Quem são os vossos suportes (emocionais, familiares, etc)? Sentiram-se sempre apoiados pelas vossas famílias?
David Abecasis: Sem dúvida que a família tem sido o principal pilar na minha vida como velejador e não só. Em primeiro lugar, têm sido os meus pais e nestes últimos tempos também a minha mulher.
Miguel Guimarães: Os meus pais sempre me apoiaram e principalmente esforçaram-se para que eu tivesse a oportunidade de velejar. Muito lhes agradeço por isso. A minha mulher sempre me deu o apoio necessário para poder estar longe em regatas, onde às vezes as saudades existem. Sem esse apoio seria difícil estar concentrado.
G. I.: Têm algum ritual antes de cada prova?
David Abecasis: Não temos nenhum ritual, mas antes dos campeonatos tentamos focar-nos no que são os nossos objectivos e pensar na melhor maneira de os atingir.
Miguel Guimarães: Treinar.
G. I.: Os portugueses têm talento?
David Abecasis: Para dar e vender!
Miguel Guimarães: Muito, falta é a estrutura de apoio.
DAVID ABECASIS DESCONTRAÍDO:

Fotografia de: Neuza Aires Pereira
- Data de nascimento: 17/09/1979
- Signo: Virgem
- Cor preferida: Verde
- Clube preferido (de qualquer modalidade): Sporting Clube de Portugal
- Passatempo (s): Correr, andar de bicicleta, nadar, mergulhar, kitesurf
- Definição enquanto pessoa: Calmo, focado
- Qualidade (s): Organizado
- Defeitos: Demasiados para referir
- O que é mais importante na vida: A família, os amigos e, claro, o desporto
- Destino do euromilhões: Uma das coisas seria certamente comprar um cruzeiro e dar umas boas voltas
- Sonho de criança para ser em adulto: Biólogo marinho
MIGUEL GUIMARÃES DESCONTRAÍDO:

Miguel Guimarães na Regata do Trofeo Armada em Santiago de la Ribera (Espanha)
Fotografia cedida por: David Abecasis
- Data de nascimento: 06/03/1979
- Signo: Peixes
- Cor preferida: Azul
- Clube preferido (de qualquer modalidade): Sporting Clube de Portugal
- Passatempo (s): Desporto em geral
- Definição enquanto pessoa: Persistente
- Qualidade (s): Não sei bem
- Defeitos: Devem ser muitos
- O que é mais importante na vida: Família e amigos. Viver com calma
- Destino do euromilhões: Aí, só fazia Vela!!!
- Sonho de criança para ser em adulto: Astronauta!!!