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Canoagem do CNH: “São necessárias mais provas regionais para fomentar o intercâmbio e a competição entre os atletas”
Francisco Garcia, Director da Secção de Canoagem do Clube Naval da Horta e um nome bem conhecido na modalidade, se tivermos em conta que está ligado a este desporto há 30 anos, há muito que defende a necessidade de haver mais provas regionais nos Açores, com o intuito de fomentar o intercâmbio e a competição entre os canoístas das diversas ilhas. Com a inactividade da Canoagem nos clubes do Pico e de São Jorge, os atletas do Faial vêem-se reduzidos a um único momento de competição durante a época, o que desmotiva quem treina e quem é treinado. A Associação Regional de Canoagem dos Açores (ARCA) está consciente desta realidade e sabe que o actual calendário anual é contrário ao desenvolvimento da modalidade na Região, invocando razões financeiras para a não realização de mais provas, promotoras de Competição, objectivo número um de qualquer clube e atleta. Estas e outras questões são abordadas no balanço que hoje é feito à actividade da Secção de Canoagem do Clube Naval da Horta, instituição que é sempre elogiada pelo seu nível organizativo.
Gabinete de Imprensa do Clube Naval da Horta: Qual a classificação atribuída a esta época (2013/2014)?
Francisco Garcia: Correu bem, pois conseguimos ter um número razoável de atletas federados, à volta de 12.
Este ano tivemos uma boa prestação no Campeonato Regional de Canoagem, que decorreu nos dias 12 e 13 do corrente, na ilha Terceira. Trouxemos 3 troféus, o que é muito bom tendo em conta o número de treinos semanais. Só treinávamos aos sábados, mas no mês anterior ao Regional, intensificámos a carga de trabalho para 3 treinos por semana, embora eu saiba que outros clubes treinavam todos os dias.
G. I.: É fácil manter os atletas na modalidade?
Francisco Garcia: O facto de serem poucos e de competirem entre si, faz com que nem sempre seja fácil mantê-los motivados. Por isso, são as deslocações fora da ilha, como aconteceu no Regional da Terceira, que funcionam como um incentivo. Só treinar sem um objectivo definido, é complicado.
G. I.: Há falta de momentos de Competição?
Francisco Garcia: Debati-me sempre no sentido de promover intercâmbio entre Faial Pico e São Jorge. No entanto, nestes últimos 2 anos os clubes de São Jorge estiveram sempre inactivos, e no Pico, o Clube de São Roque manteve activa a sua Secção de Canoagem em 2013, o que permitiu que nos deslocássemos lá em provas. Mas durante a época que agora terminou, isso não aconteceu e, como tal, não tivemos nenhum clube para competir dentro do Triângulo. Ficámos reduzidos a uma prova regional.
“Há anos que venho defendendo a realização do Regional de Canoagem por 3 etapas em 3 diferentes ilhas: Faial, Terceira e São Miguel”, realça Francisco Garcia
G. I.: Esta prova realiza-se rotativamente entre Faial, Terceira e São Miguel?
Francisco Garcia: Sim, em 2013 realizou-se no Faial, este ano na Terceira e em 2015 será em São Miguel.
G. I.: É manifestamente insuficiente em termos de Competição…
Francisco Garcia: É precisamente por isso que venho defendendo desde há muitos anos – trata-se de uma luta muito antiga da minha parte – a descentralização do Campeonato Regional de Canoagem em 3 etapas, com realização noutras tantas ilhas (Faial, Terceira e São Miguel), o que seria uma forma de cativar os atletas, mas a razão invocada sucessivamente para a não concretização desse projecto tem sido a falta de verbas.
G. I.: O Campeonato Regional de Canoagem realizado no ano passado no Faial foi um ponto alto?
Francisco Garcia: Sim! Propusemo-nos organizar cá o Regional e correu muito bem. A organização foi muitíssimo gabada pela Associação Regional de Canoagem dos Açores (ARCA). Esse evento foi amplamente divulgado no jornal terceirense “Diário Insular” e a ARCA fez questão de, na sua reunião da Assembleia-Geral, frisar que o Clube Naval da Horta sempre se destacou na organização de eventos.
G. I.: A Associação elogia a organização do CNH, o Dirigente máximo da Canoagem no Faial há anos que vem fazendo este tipo de pressão, mas ainda assim a ARCA nada faz no sentido de inverter a situação. Há consciência de que este cenário está a prejudicar o desenvolvimento da Canoagem fora da Terceira e de São Miguel?
Francisco Garcia: Sim, a ARCA está plenamente consciente dessa realidade, mas o dinheiro ou a falta dele, fala mais alto.
G. I.: Esta situação é frustrante?
Francisco Garcia: Um bocadinho, porque um atleta a competir com o colega do mesmo clube acaba por ser desmotivante. E quando digo que é desmotivante, não falo só nos atletas mas nos treinadores, dirigentes, etc.
Antes mesmo de ser Treinador e Dirigente, já no meu tempo de atleta, eu defendia a realização de mais provas a nível regional para incentivar os canoístas, porque nestas idades o que funciona como estímulo são as viagens e os troféus. Qualquer miúdo fica encantado com um troféu, mesmo que fique em 10º lugar, mas isto é algo que sempre foi assim, não é de agora.
As viagens promovem o intercâmbio entre jovens e eles adoram isso! Fazem novas amizades, conhecem novos lugares e contactam com novas experiências.
G. I.: O facto de na Terceira e em São Miguel a situação ser bem melhor do que no Faial faz com que a Canoagem tenha melhores resultados?
Francisco Garcia: O facto de existirem vários clubes em cada uma destas 2 ilhas por si só, muda completamente o cenário da Canoagem, pois eles podem competir uns com os outros dentro da própria ilha, o que é impossível no Faial e nos arredores, como já expliquei. Em São Miguel, há clubes em Ponta Delgada, Lagoa, Vila Franca do Campo e Rabo de Peixe para não falar de outros, e na Terceira existe pelo menos o Ar Livre, o Angra Iate Clube e o da Praia da Vitória, o que permite uma dinamização da modalidade.
G. I.: Falou-se há pouco de que os treinos são apenas aos sábados, mas o facto é que sem Competição, os treinos fazem pouco sentido.
Francisco Garcia: Pois, tendo em conta que estamos reduzidos a um Regional, não se justifica passar a época toda a fazer 3 treinos semanais.
“Uma forma de atrair novos atletas é no decorrer das Férias Desportivas do CNH, Projecto em que os miúdos têm oportunidade de experimentar a Canoagem”, sublinha Francisco Garcia
G. I.: Há condições para o Clube Naval da Horta ter mais atletas na Canoagem?
Francisco Garcia: Sim, há, embora na próxima época iremos ficar novamente reduzidos a um treinador, porque o Tiago Valente vai deixar-nos, por motivos profissionais. Ele encontra-se a tirar o Curso de Treinador e agora vai estagiar. A Secção de Canoagem vai ficar apenas com o treinador Carlos Pedro.
G. I.: E é suficiente?
Francisco Garcia: Posso dizer sim, porque durante toda a minha vida fui sempre Treinador único e conseguimos alcançar os objectivos. O Carlos Pedro pode dividir os atletas em grupos de treino e esta situação não é, de modo algum, impeditiva para que apareçam mais interessados em praticar este desporto. Aliás, temos o exemplo da Vela Ligeira aqui no CNH, em que tendo só um treinador, os velejadores são divididos em grupos, embora a situação seja um pouco diferente, porque trata-se de um treinador a tempo inteiro. Ainda assim, no que diz respeito à Canoagem, é possível trabalharmos apenas com um treinador.
G. I.: A Secção conta com diferentes escalões, mas isso também não permite a competição interna porque são poucos atletas em cada escalão.
Francisco Garcia: Temos Iniciados, Menores, Infantis e Cadetes, mas realmente o número de atletas em cada escalão é reduzido e então o que fazemos para “animar a coisa” é a realização de alguma Prova de Absolutos entre eles, o que acontece no decorrer do Festival Náutico da Semana do Mar, evento que é aberto a quem quiser e não apenas a atletas federados. Promovemos essa prova em 2013 e tivemos 13 participantes que não estavam ligados à Secção, o que foi muito bom.
G. I.: Como é que se cativa novos atletas?
Francisco Garcia: Uma forma de captar mais pessoas para a Canoagem é durante o Projecto das Férias Desportivas, promovido anualmente pelo Clube e que decorre durante todo o mês de Julho. Sendo a Canoagem uma das actividades deste Projecto, possibilita o contacto com a modalidade, e é muitas vezes após estes campos de férias que surgem novos praticantes.
Outro desejo antigo que tenho neste sentido, passa por trazer alunos da Escola Secundária Manuel de Arriaga (ESMA) ao Clube, para assistirem a um treino de Canoagem. Na prática, a aula de Educação Física seria dada no CNH. E isso já aconteceu, mas em 2013 não consegui recuperar essa iniciativa, porque a deslocação implica fazer um seguro e tratar de uma série de procedimentos burocráticos, já que em termos legais é vista como uma actividade extra-curricular. Mas sei que esta acção dava grandes resultados e, aliás, é assim que se faz no Continente. Os clubes vão recrutar novos atletas às escolas.
Ainda foi ponderada a hipótese de levarmos 2 kayak’s até à ESMA, com o intuito de os alunos experimentarem a modalidade na Piscina, mas isso implicava haver disponibilidade dos próprios professores de Educação Física, o que não foi possível nessa altura. Temos tentado de diversas formas, mas o esforço ainda não foi frutífero.
Não estou muito preocupado com esta questão, pois sei por experiência própria que a mensagem do passa-palavra funciona muito bem e que as conversas dos atletas no seu núcleo de amigos surtem efeitos. Aliás, no início de cada época, temos sempre interessados em experimentar a modalidade.
G. I.: Há desistências?
Francisco Garcia: Desistências, não digo, mas há questões que não controlamos, como é o caso dos atletas que saem da ilha para prosseguir os seus estudos, ou aqueles que, mesmo ficando na ilha, vão para a Escola Profissional (o que acontece cada vez mais cedo) e não conseguem conciliar os treinos com as aulas, porque os treinos no CNH acontecem aos sábados de manhã, por ser o dia de maior disponibilidade por parte dos treinadores.
G. I.: Em termos de equipamento, está tudo funcional?
Francisco Garcia: Sim. Em 2013 adquirimos pagaias, coletes e saiotes novos, fizemos uma estrutura nova para guardar os kayak’s, arranjámos o tecto do pré-fabricado que tinha infiltrações e este ano comprámos 2 kayak’s. Posto isto, agora pede-se que haja o retorno desse investimento e isso consegue-se com resultados. Não se pode investir só por investir.
G. I.: O que não foi possível alcançar?
Francisco Garcia: Com muita pena minha, não conseguimos tornar realidade o convite formulado por Frederico Benjamim, do Clube Náutico do Montijo, no Continente. Este senhor, além de ser um canoísta veterano, também está à frente deste Clube e costuma vir ao Faial todos os anos. Em 2013 o Clube Naval da Horta convidou-o a participar no Regional de Canoagem, que decorreu cá. Ele veio e convidou a Secção de Canoagem para fazer um Estágio nas instalações do seu Clube. O plano era irem 5 atletas para, de certa forma, premiá-los pelo facto de não terem saído da ilha em 2013, uma vez que a única deslocação que tivemos foi ao Pico, onde fizemos uma prova (em São Roque).
Esse Estágio de uma semana no Continente deveria ter acontecido em Maio do ano passado. O nosso anfitrião cedia as instalações, algumas refeições e os transportes e o Clube Naval da Horta teria de suportar as viagens aéreas, mas não foi possível.
G. I.: Os pais apoiam os filhos e mostram-se interessados na actividade da Secção?
Francisco Garcia: Bastante! E a comprovar isso temos um Representante dos pais na própria Secção que está sempre inteirado de toda a actividade, tendo a missão de informar os restantes pais.
Os pais são sempre bem-vindos no Clube Naval da Horta e quando quiserem acompanhar os treinos dos filhos, podem fazê-lo. Temos muito gosto em recebê-los e esclarecê-los sobre tudo o que envolva a Canoagem. E diga-se em abono da verdade, que os educadores apoiam muito as deslocações que são feitas, tendo consciência da importância desta modalidade na formação desportiva, pedagógica e cívica dos seus educandos.
G. I.: Como é que a Canoagem surge na vida do Francisco?
Francisco Garcia: Comecei a praticar Canoagem aos 7 anos de idade, portanto passaram-se 30 anos. O meu percurso na Canoagem é engraçado. Saí do Faial em 1996 para prosseguir estudos em São Miguel e, ao contrário da maioria dos jovens que saem da ilha e deixam de praticar, eu continuei a fazê-lo no Clube de Ponta Delgada, onde tirei o Curso de Treinador e comecei a treinar os canoístas do Clube Naval de Ponta Delgada. Nesses anos como Treinador, consegui ter atletas que foram campeões regionais e vice-campeões nacionais, como por exemplo o Jorge Castro – que ainda hoje vem ao Faial, ilha onde tem familiares – que se tornou um atleta de Alta Competição, tendo mesmo feito parte da Selecção Portuguesa.
Regressei ao Faial em 2004 e comecei a treinar a Secção de Canoagem do Clube Naval da Horta, onde tive bons campeões como foi o caso do Cliff Pedro, que foi Vice-Campeão Nacional 2 anos consecutivos, tendo alcançado um 9º lugar no Campeonato Nacional de Velocidade, prova muito competitiva. Recordo também a atleta Carla Dias, que foi igualmente Vice-Campeã de Mar, e depois tive vários campeões regionais, como o Jacinto Cipriano, o Pedro Cipriano ou a Renata Rodrigues, que também foi Vice-Campeã Regional vários anos consecutivos.
G. I.: Isso é a glória de qualquer Treinador?
Francisco Garcia: Sem dúvida! Dá sempre um gozo ver esses atletas irem longe. É um prazer enorme vê-los vingar, mas depois por motivos de estudo ou de trabalho, acabam por se afastar da modalidade.
G. I.: Perfilam-se campeões no actual conjunto?
Francisco Garcia: Há atletas que estão a andar muito bem. Temos 2 ou 3 miúdos que se forem bem trabalhados, conseguem ser campeões regionais. Naturalmente, que o espírito competitivo do atleta também ajuda. E há essa garra nalguns. Mas trata-se de um percurso muito difícil, pois isso é sinónimo de aumentar a carga de treinos e nem todos estão dispostos, porque isso acarreta sacrifícios.
G. I.: E custos!
Francisco Garcia: Muitos! E nos tempos actuais conseguir patrocínios não se afigura fácil. Já que abordámos este assunto, quero aproveitar a oportunidade para referir que em 2013 consegui que a Sport Zone patrocinasse a equipa de Canoagem do Clube Naval da Horta, mediante a oferta de 15 fatos de treino, a quem agradeço uma vez mais de forma pública. Quero ainda reiterar o meu agradecimento à empresa Espaço X, que ofereceu a impressão do nome da Secção no referido equipamento, o que constitui sempre um orgulho e uma responsabilidade para os canoístas que, quando se deslocam em provas, exibem as cores que representam e fazem-no de forma muito empenhada.
G. I.: Custa muito formar um campeão?
Francisco Garcia: Costumo dizer que formar um campeão é muito fácil, o difícil é mantê-lo.
G. I.: Qual a maior compensação recebida?
Francisco Garcia: A minha maior compensação é ver a alegria dos atletas quando ganham uma prova ou o seu sorriso durante um convívio, um treino ou outro momento. Gosto de vê-los alegres.
G. I.: Um Treinador, um Dirigente é também…?
Francisco Garcia: Um amigo! Temos de ser um bocadinho psicólogos, compreendê-los, escutá-los, aconselhá-los…
Fotografias de: Cristina Silveira