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Treinador de Vela Ligeira faz balanço à 2ª metade da época 2013/2014: “Em vários aspectos, o Clube Naval da Horta está bem à frente de muitos países”, considera Duarte Araújo

O Clube Naval da Horta andava à procura de um Treinador de Vela Ligeira e o projecto apresentado encaixou nas expectativas deste tripeiro, nascido em Matosinhos. Diz que só conhecia os Açores dos postais e dos documentários televisivos, mas vai renovar o contrato e ficar na instituição onde trabalha há 6 meses. Considera que em termos das condições oferecidas aos participantes, nas estruturas humanas de apoio, na organização da actividade e nas condições naturais para a prática da Vela, o Clube Naval da Horta está bem à frente de muitos países, sendo o reforço do Departamento Técnico uma necessidade para que se possa voltar a dar aos velejadores mais horas de treino. Estamos a falar de Duarte Araújo, Treinador de Vela Ligeira, Grau II, persistente por natureza e para quem esta modalidade representa a felicidade.



Duarte Araújo é velejador desde os 11 anos de idade, tendo o seu percurso abrangido, dentro da Vela Ligeira, as Classes Optimist, Laser e Snipe.

Na Vela de Cruzeiro, destaque para as regatas costeiras, as voltas a Portugal, a participação na Regata dos 500 Anos do Descobrimento do Brasil, além das várias provas em mundiais e europeus, em diferentes classes. A menina dos seus olhos, em termos de prémios, é o facto de ser detentor do título de Campeão Europeu de Juniores em Snipe, algo que se torna ainda mais precioso pela sua raridade e dificuldade em alcançar. Todo este percurso na área da competição fez nascer neste jovem a vontade de transmitir o que aprendeu sendo, por isso, treinador há 6 anos.

Quando chegou ao Faial, em Fevereiro deste ano, deixou duas certezas à partida: a vontade de fazer o seu trabalho e a garantia de que não ia haver falta de motivação. Passado o período experimental, é convidado a fazer o balanço ao trabalho levado a cabo ao longo destes 6 meses.


“Sinto-me bem aqui e os velejadores parecem gostar dos meus métodos”

Gabinete de Imprensa do Clube Naval da Horta: Como acontece esta vinda para os Açores, mais concretamente para o Clube Naval da Horta, na ilha do Faial?
Duarte Araújo: Na verdade foi o Clube Naval da Horta que me encontrou, tendo em conta que andava à procura de um treinador para reforçar os quadros técnicos. Na altura eu estava a reiniciar a Escola de Vela do Iate Clube do Porto depois de vários anos como treinador do Clube de Vela Atlântico, ambos clubes com tradição na vela nacional. O projecto que me foi apresentado estava de acordo com as minhas ambições e chegamos a acordo para um período experimental que termina no fim deste mês.

G. I.: Qual a maior ambição da época que agora findou?
Duarte Araújo: A ambição que tinha para estes 6 meses era a de criar uma equipa que tivesse a determinação, dedicação e empenho que caracterizam os velejadores que procuro formar, juntamente com a capacidade de adaptação a uma realidade diferente e distante da que tinha.


“Faltou um ou mais clones para duplicar ou triplicar o trabalho feito!”

G. I.: Os objectivos foram cumpridos?
Duarte Araújo: Julgo que a adaptação correu suavemente e com sucesso. Sinto-me bem aqui e os velejadores parecem gostar dos meus métodos. As características que procuro imprimir nos atletas, constituem um trabalho em progresso, que irá começar a dar os seus resultados já na próxima época.

G. I.: O que é que faltou?
Duarte Araújo: Um ou mais clones para duplicar ou triplicar o trabalho feito! No mesmo dia tenho de dar treinos a jovens velejadores que se iniciam na Vela, com 8/9 anos; a jovens com 16/17, como aperfeiçoamento das suas técnicas de regata, e na manhã seguinte a alunos com 13/14 anos noutra classe, com programas de treino completamente diferentes. Embora eu dê muitos treinos, os velejadores de cada escalão específico não têm um horário muito preenchido, apesar de manifestarem grande vontade em aumentar essa carga.

G. I.: Entendes que houve uma linha evolutiva desde que cá chegaste?
Duarte Araújo: Desde que cheguei os pais e os atletas perceberam que estava a ser feita uma aposta na modalidade e nos velejadores e têm respondido positivamente. Essa linha evolutiva já vem de trás. A minha vinda apenas deu mais força a essa intenção.

G. I.: Que outros projectos foram desenvolvidos ao longo do tempo em que estás cá como Treinador de Vela, Grau II?
Duarte Araújo: Durantes estes meses tivemos mais 3 projectos a decorrer, nomeadamente o “Bom Tempo no Canal” (destinado a alunos da Escola Secundária Manuel de Arriaga), a Vela de Competição Sénior e as Aulas de Iniciação para Adultos. Alunos de uma turma de Currículo Adaptado da Escola Secundária Manuel de Arriaga da Horta (ESMA) deram corpo ao Projecto “Bom Tempo no Canal”, tendo como tutoras as alunas do Curso de Animador Sociocultural, sob a coordenação pedagógica dos docentes destes alunos. Uma das missões do Clube Naval da Horta, parceiro nesta actividade, foi transmitir a este grupo de jovens aprendizes das lides do mar, algumas das técnicas da navegação. Os alunos foram sempre acompanhados pela mentora deste Projecto, a Professora Maria do Céu Brito.

Durante vários meses tivemos a visita semanal de turmas desta Escola, tendo sido abordada a Iniciação à Vela para esse programa. Os alunos participaram com grande vontade nos exercícios propostos e sem absentismo, ainda que muitos tivessem de combater receios relacionados com o mar.

Na Vela de Competição Sénior, os velejadores revelaram grande vontade em voltar a competir e a navegar na Vela Ligeira, o que culminou com a Prova Regional Sénior, realizada durante o Festival Náutico da Semana do Mar 2014, organizado pelo Clube Naval da Horta. Devo dizer que eles estão extremamente motivados para continuar na próxima época.

Já a Vela de Iniciação para Adultos, foi um projecto pessoal que a Direcção apoiou e a grande maioria dos inscritos é velejadores que já integram tripulações de botes baleeiros. Como tal, foi mais fácil iniciá-los, uma vez que já conheciam grande parte do programa. No entanto, esse Curso mostrou que existe sempre algo a aprender e os velejadores tiveram a oportunidade de constatar isso mesmo na Regata que foi organizada durante o Festival Náutico, onde competiram contra tripulações mais experientes. Estão muito motivados no sentido de dar continuidade à sua aprendizagem e evolução na Vela Ligeira.

Estão a ser feitos planos no sentido de criar mais Cursos de Vela para Adultos, dando assim a oportunidade a todos os que queiram realizar o seu sonho de aprender a andar à Vela.


O “Bom Tempo no Canal” foi um dos vários projectos em que este Treinador esteve envolvido

Fotografia de: Cristina Silveira

G. I.: Qual o balanço que fazes ao Festival Náutico?
Duarte Araújo: Posso dizer que foi extremamente positivo! Foi uma semana de muita actividade náutica, mas que na realidade foi um mês, começando no Campeonato Nacional de Access (que decorreu nos dias 11, 12 e 13 de Julho, mas com muita preparação anterior) e prolongando-se em deslocações a Campeonatos, em organização e preparação dos eventos chegando finalmente à Semana em que tudo acontece! O pessoal do Clube nunca parou, de dia e de noite, mostrando uma vitalidade náutica que não é facilmente encontrada em todo o mundo.

G. I.: Conheces mais algum clube que tenha esta capacidade organizativa?
Duarte Araújo: O Clube Naval da Horta revelou que é capaz de organizar eventos com qualidade, mas também de massas. Foram muitos desportos e especialidades que estiveram a decorrer ao mesmo tempo, com todos os membros do Clube que podiam ajudar a fazer algo. Considero que, mais do que um evento do Clube Naval da Horta, é um evento da Ilha do Faial, em que os participantes numas provas são elementos da organização ou voluntários noutras. Todos convergem para tornar possível este Festival Náutico e a festa, sendo indissociáveis um do outro.

Mas a parte que coube ao Clube Naval da Horta correu muitíssimo bem e esta instituição está de parabéns, pois consegue fazer um Festival que não existe em mais nenhum local do país e muito poucos com os recursos disponíveis conseguiriam fazer tanto.

G. I.: Estás a gostar dos Açores? Já conhecias a Região?
Duarte Araújo: Estou a gostar muito dos Açores, a beleza natural e o contacto constante com o oceano e a vida marinha, são dois aspectos únicos. As pessoas que habitam este cantinho também são muito acolhedoras e surpreendem-me a cada dia. O único aspecto que conhecia da Região era das imagens de postais que chegam ao Continente português e que dão conta da beleza natural e imensidão inexplorada, juntamente com os documentários internacionais sobre vida marinha, que convergem para este espaço especial.


Duarte Araújo rendeu-se à beleza natural e ao acolhimento dos faialenses

G. I.: Vai haver renovação do contrato?
Duarte Araújo: Agora que terminou o período experimental e uma vez que a adaptação de ambas as partes correu muito bem, estamos a tratar, naturalmente, da renovação do contrato, dando continuidade ao trabalho que tem sido feito e a preparar a próxima temporada.

G. I.: Já podes revelar alguns dos projectos para a próxima época?
Duarte Araújo: A próxima época começa já no primeiro fim-de-semana de Setembro, com o Campeonato Nacional de Infantis, em Tróia, em que temos 3 atletas representando o Clube Naval da Horta e a Região Açores. Quanto a projectos, ainda estão no segredo dos deuses.


“Procuro incutir nos velejadores os valores da Vela e da Competição”

G. I.: Quantos atletas tem a Escola de Vela do CNH, incluindo os da Classe Access (Vela para pessoas com mobilidade reduzida)?
Duarte Araújo: Neste momento temos 64 velejadores nos diferentes escalões, mas esperamos aumentar esse número na próxima época.

G. I.: Os atletas têm muito caminho a percorrer?
Duarte Araújo: Todos os atletas têm um longo caminho a percorrer. No caso das modalidades iniciadas – Juvenis e Juniores – esse longo caminho ainda é maior, mas por que se trata da formação de atletas e indivíduos, procuramos incutir neles os valores da modalidade e da competição.

G. I.: Temos “promessas” no grupo?
Duarte Araújo: Sim, temos velejadores que demonstram um grande interesse e apetência pelas particularidades da Vela de Competição, tanto física como mentalmente.

G. I.: O que falta para a Escola de Vela “dar o salto”?
Duarte Araújo: A Escola de Vela já está a dar o salto, tanto em quantidade como em qualidade, é um processo de crescimento que demora o seu tempo, tanto nos resultados desportivos como quantitativos, mas o caminho que estamos a percorrer vai dar os seus frutos, e isso já está em marcha.

G. I.: Comparando com o Continente português, estamos muito atrás?
Duarte Araújo: Estamos muito atrás numas coisas e à frente noutras. No caso das competências técnicas, físicas e tácticas da Vela de Competição estamos atrás, assim como nas oportunidades de competir e melhorar em competição, mas já no caso das condições oferecidas pelo Clube aos praticantes, nas estruturas humanas de apoio, na organização da actividade e nas condições naturais para a prática da modalidade, estamos bem à frente de muitos países.

G. I.: Os velejadores estão dispostos a trabalhar mais, a ter treinos mais regulares?
Duarte Araújo: Os velejadores têm acompanhado esta maior exigência nos treinos e notado a sua evolução; levam mais a sério a sua participação nos treinos e a sua concentração em regatas. Acreditam que vão melhorar e estão dispostos a trabalhar mais para atingir esses resultados, e não é anormal pedirem-me para treinar mais.


Os velejadores são os primeiros a pedir para treinar mais

G. I.: Na tua opinião há competições em número suficiente ou deveria haver mais?
Duarte Araújo: Não é só o número que é insuficiente, é o nível da competição que mais me preocupa. As oportunidades de competir com todos os clubes da Região neste momento são apenas 4 – contando com o Encontro Internacional, que não fazendo parte do calendário regional, reúne velejadores de todas as regiões e do Continente português e estrangeiro – e essa falta de competição limita a aprendizagem dos atletas, que não tendo adversários, têm de competir entre eles próprios para evoluírem e chegar a outro patamar.

G. I.: Quais as necessidades desta Secção?
Duarte Araújo: O Clube Naval da Horta está muito bem equipado em termos de apoio de mar, com vários pneumáticos, que permitem o acompanhamento técnico adequado. No entanto, embora tenhamos muitos barcos para iniciar a prática da modalidade, o material está muito usado, sendo normal fazer remendos a toda a hora, tanto em velas como em cascos. E de remendo em remendo, vamos dando o nosso melhor, procurando competir, mesmo com equipamento ultrapassado, remendado e empenado. A Direcção tem vindo a fazer um esforço para melhorar e reparar todo o material e toda a gente neste Clube procura fazer o melhor com o que tem, no entanto a verdade é que o material está esticado ao máximo.

Uma necessidade realmente importante era dotar o Clube de balneários mais apropriados à actividade que aqui se pratica, o que não avança devido ao projecto de construção da nova sede do Clube Naval da Horta, mas a verdade é que não se sabe para quando o arranque das obras.

O reforço do Departamento Técnico é outra necessidade que está a ser trabalhada, para que se possa voltar a dar aos velejadores mais horas de treino.

G. I.: Como classificas as condições do Clube Naval da Horta para a prática da Vela?
Duarte Araújo: Potencialmente excelentes e conta já com o principal que é a vontade directiva, disponibilidade humana e condições climatéricas e meteorológicas ideais. O Clube está implantado numa cidade virada para o mar, que é o Centro do Atlântico Norte na Vela de Cruzeiro. Daqui podem sair vários profissionais da área náutica, dando uma maior importância ao envolvimento entre o Clube Naval e a ilha do Faial.

G. I.: Como vês a Vela em Portugal?
Duarte Araújo: A Vela em Portugal é um desporto elitista. Elitista principalmente pelo pouco conhecimento que as pessoas têm deste desporto e das vantagens do mesmo para os praticantes. Tem sido feito um esforço para tornar a Vela mais acessível economicamente para as famílias, mas ainda não começou a abordar as potencialidades que tem neste país, principalmente como instrumento de construção de personalidade e estabelecimento de valores nos jovens.

DUARTE ARAÚJO DESCONTRAÍDO


“A Vela para mim é felicidade”

- Signo: Leão
- Local de nascimento: Matosinhos
- Prato favorito: Está entre a feijoada do meu pai e o Leitão da Bairrada
- Desporto preferido: VELA
- Qualidades: Persistência
- Defeitos: Não saber quando a persistência se transforma em obsessão
- Como te defines? Sou complicado, pois gosto de coisas simples
- Qual o teu maior sonho? Fazer a diferença
- O que é a Vela para ti? A Vela para mim é felicidade

Fotografias cedidas por: Duarte Araújo